A pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (2) trouxe um dado que chama atenção na disputa presidencial. Lula aparece com 37% das intenções de voto, Flávio Bolsonaro com 30% e Augusto Cury, do Avante, chegou a 10%.
No levantamento anterior, Cury tinha apenas 2%. Em outras pesquisas, ele aparece com 11%.
Uma subida de oito pontos percentuais em poucas semanas seria extraordinária para qualquer candidato. No caso de Cury, o salto coincide com uma movimentação igualmente extraordinária nas redes sociais e ocorre justamente quando o escândalo do Banco Master começa a destruir a imagem de Alexandre de Moraes, personagem que a frente ampla transformou nos últimos anos em símbolo da chamada defesa da democracia.
A coincidência não deve ser ignorada.
Durante agosto, o perfil de Cury vinha registrando um crescimento relativamente estável, normalmente entre mil e 3 mil novos seguidores por dia. De uma hora para outra, esse padrão desapareceu. Em apenas 24 a 48 horas, aproximadamente 2,4 milhões de seguidores foram acrescentados à conta.
Foram registrados, inclusive, picos de centenas de milhares de adesões durante a madrugada.
A ruptura com o comportamento anterior do perfil é tão grande que constitui uma forte evidência de aquisição artificial de seguidores.
O Globo registrou que o candidato ganhou quase 2,5 milhões de seguidores no Instagram em cerca de uma semana. O Índice de Popularidade Digital da Quaest acompanhou o movimento: Cury passou de 32,9 pontos na semana encerrada em 16 de agosto para 54,5 na semana terminada no dia 30, saindo da sétima para a quarta colocação.
O crescimento, porém, não ocorreu apenas dentro da página oficial.
Houve uma movimentação organizada em várias frentes.
Páginas dedicadas a entretenimento, celebridades, comportamento e assuntos cotidianos começaram praticamente ao mesmo tempo a publicar repetidamente sobre Augusto Cury. Muitas apresentavam textos extremamente parecidos.
Depois veio uma segunda onda.
As páginas que ajudaram a promover Cury começaram a publicar sobre o próprio crescimento de Cury.
Primeiro produz-se a exposição. Depois, a exposição produzida é apresentada como prova de uma onda popular.
A esse movimento somou-se uma campanha de figuras com milhões de seguidores.
O Globo cita, entre outros, Caio Coppolla e Nego do Borel – figuras ligadas à Globo –, além de uma série de produtores de conteúdo religioso. Outros influenciadores com milhões de seguidores também passaram a fazer campanha por Cury.
Não é difícil perceber a dimensão da campanha que está sendo realizada. E o movimento nas redes foi acompanhado quase imediatamente pelas pesquisas.
Entre os eleitores classificados pela Quaest como independentes, Cury chegou a 24%, numericamente acima de Lula, que registra 21%, e de Flávio Bolsonaro, com 9%. Há uma contradição curiosa nesses números: 65% desses mesmos eleitores dizem não conhecer Augusto Cury.
Ou seja, o aparecimento de milhões de seguidores, a campanha de grandes páginas e influenciadores e a subida eleitoral ocorreram praticamente juntos.
Ao mesmo tempo, outra peça está sendo deslocada no tabuleiro eleitoral. Alexandre de Moraes entrou em crise.
Moraes é um ditador. Sua atuação arbitrária no STF não começou com o escândalo do Banco Master. Durante anos, o ministro determinou censura, bloqueio de contas, perseguição a organizações políticas e prisões por meio de procedimentos excepcionais. O próprio PCO teve suas redes sociais bloqueadas por ordem de Moraes em 2022. Nada disso, entretanto, impediu que boa parte da esquerda o transformasse em herói.
Como o ministro passou a concentrar suas medidas contra o bolsonarismo, a frente ampla apresentou suas arbitrariedades como defesa da democracia. Moraes foi convertido em exemplo de magistrado corajoso, independente e incorruptível. O caso Master está desmontando essa farsa.
As relações entre Daniel Vorcaro e Moraes colocaram em evidência um quadro muito diferente.
O problema não é apenas que Moraes tenha sido exposto. É também o momento em que isso acontece.
Por que essas revelações ganham tamanha força justamente durante a campanha presidencial?
As autoridades burguesas não são instituições neutras que simplesmente divulgam tudo aquilo que sabem no instante em que descobrem. Informações, investigações e escândalos são constantemente utilizados segundo as necessidades da luta política.
Moraes foi útil durante anos. Agora pode estar se tornando descartável.
Sua figura ficou profundamente associada à frente ampla e, consequentemente, ao campo político que sustentou Lula contra o bolsonarismo. O PT e grande parte da esquerda defenderam sistematicamente a ampliação de seus poderes. A imprensa liberal ajudou a apresentá-lo como guardião das instituições.
Quando Moraes afunda no caso Master, essa política também sofre desgaste. Isso interessa a setores da burguesia que procuram retirar Lula do centro da disputa presidencial. Lula precisa ser rifado.
Apesar de todas as concessões feitas aos banqueiros e aos grandes empresários, um novo mandato petista não é a solução preferida de parcelas importantes da classe dominante. Ao mesmo tempo, esses setores também não desejam entregar a Presidência ao bolsonarismo, força que dispõe de uma base popular própria e não está inteiramente sob o controle das organizações tradicionais da burguesia.
O objetivo é encontrar uma terceira alternativa. E Augusto Cury aparece justamente quando essa necessidade se torna mais urgente.
Até poucas semanas atrás, era eleitoralmente irrelevante. Agora possui milhões de novos seguidores, recebe propaganda de páginas e influenciadores de enorme alcance e aparece com 10% das intenções de voto.
Mais importante: surge com a aparência de alguém “limpo”. Cury não está publicamente tão comprometido com a bandalheira do Master quanto personagens ligados aos dois principais blocos da eleição. Também não carrega o desgaste acumulado do PT nem do bolsonarismo.
Seus propagandistas trabalham exatamente essa imagem. Um dos argumentos repetidos pelos influenciadores é o de que o escritor possui mais de R$240 milhões em patrimônio e, por isso, não precisaria entrar na política para roubar.
É uma defesa tipicamente burguesa: o homem muito rico seria particularmente confiável porque já acumulou uma fortuna. É a mesma propaganda que insuflou a onda direitista pós-Mensalão, gerando políticos como João Doria e Romeu Zema.
Por trás dessa imagem de candidato acima das disputas partidárias está um direitista neoliberal. Cury apresenta uma política conveniente aos grandes capitalistas, mas sem a aparência tradicional da direita. Procura revestir suas posições com um discurso moderno, moderado e até progressista, utilizando frases sobre equilíbrio, entendimento, humanidade e saúde emocional.
É uma embalagem muito apropriada para a terceira via. Permite conquistar eleitores cansados dos partidos tradicionais, aproxima setores religiosos sem assumir integralmente a aparência bolsonarista e procura atrair quem se define como independente ou sem posição ideológica definida.
A operação tem ainda uma enorme vantagem política. Se Cury conseguisse retirar Lula do segundo turno e enfrentasse Flávio Bolsonaro, toda a política da frente ampla seria colocada a seu serviço.
A esquerda que passou anos afirmando que qualquer aliança seria admissível para derrotar o bolsonarismo ficaria diante da consequência lógica dessa política. Seria chamada a apoiar Augusto Cury.
O argumento viria pronto: diante de Flávio Bolsonaro, seria necessário defender a democracia e votar no candidato “moderado”.
Assim, um direitista neoliberal poderia receber simultaneamente o apoio dos grandes capitalistas, da imprensa burguesa, dos setores conservadores que aderiram à sua candidatura e de boa parte da própria esquerda.
Para a burguesia, seria uma situação dos sonhos.
É por isso que o escândalo de Moraes e a ascensão repentina de Cury não devem ser observados separadamente.
A bandalheira envolvendo o ministro é real. Moraes deve ser denunciado por tudo o que fez, deve sair e o STF deve ser dissolvido. Seu caráter ditatorial estava evidente muito antes das revelações sobre o Banco Master.
A questão é outra: aqueles que aceitaram e utilizaram suas arbitrariedades durante anos agora parecem dispostos a queimá-lo quando isso se torna politicamente conveniente.
Ao mesmo tempo, entra em cena um candidato desconhecido no páreo para assumir a Presidência da República. A burguesia está tentando abrir caminho para uma terceira via. O desgaste de Moraes tornou-se mais uma arma dessa operação.





