Completam-se hoje 5 anos desde que o Talibã declarou, no aeroporto de Cabul, o fim da ocupação norte-americana do Afeganistão, horas depois da decolagem do último avião militar dos Estados Unidos, em 31 de agosto de 2021. A guerra durou 20 anos e terminou com a derrota da maior potência militar da história por um povo pobre e armado em seu próprio território. Boa parte da esquerda brasileira e internacional recebeu o acontecimento como uma desgraça.
Os argumentos foram repetidos à exaustão: o Talibã é fundamentalista, religioso e oprime as mulheres. Daí se concluiu que a saída das tropas de ocupação era uma derrota para os oprimidos e, em especial, para as mulheres afegãs. Quem comemorou a expulsão do invasor foi acusado de apoiar o atraso. O ponto de partida deixou de ser a ocupação de um país inteiro por uma potência estrangeira e passou a ser o regime interno do país ocupado, que é exatamente o critério usado por Washington durante 20 anos para justificar sua presença.
O episódio se repetiu em cada acontecimento seguinte. No Sael, os governos militares de Máli, Burquina Fasso e Níger expulsaram as tropas francesas e norte-americanas. Os Estados Unidos concluíram a saída do Níger em setembro de 2024, depois de abandonar a base aérea 201, em Agadez, erguida ao custo de US$110 milhões. A esquerda pequeno-burguesa tratou tudo como golpes militares reacionários e nada disse sobre o que essas retiradas significam para o domínio imperialista na África Ocidental.
Na Palestina, diante do genocídio em Gaza, setores que se dizem socialistas recusaram apoio aberto à resistência e definiram o Hamas como expressão da burguesia palestina, se eximindo de tomar lado enquanto “Israel” bombardeava hospitais e campos de refugiados com armamento norte-americano.
Na Ucrânia, a posição é ainda mais reacionária. O PSTU e sua internacional, a LIT-QI, defendem desde 2022 a derrota militar da Rússia e reivindicam armas para a Ucrânia, inclusive dos governos que dizem apoiá-la, que são as mesmas armas enviadas pela OTAN. Uma corrente que se apresenta como trotskista somou sua propaganda ao esforço de guerra do bloco imperialista mais poderoso do planeta. No Irã, a fórmula se manteve: depois dos ataques de “Israel” e dos Estados Unidos em junho de 2025, essas correntes declararam que Teerã é uma ditadura teocrática, que nenhum lado merece apoio e que o povo trabalhador iraniano seria o único a perder com a guerra.
O critério que define a posição diante de uma guerra é a identificação de quem oprime e de quem é oprimido. A religião do país atacado, a origem social de seus dirigentes e a forma pela qual chegaram ao poder não alteram esse critério. O apoio aos povos que enfrentam o imperialismo é incondicional e não significa confiança política em quem os dirige. Foi assim que o movimento operário se posicionou diante da Etiópia invadida por Mussolini e da China invadida pelo Japão, sem exigir dos agredidos um certificado de progressismo.
Os 5 anos decorridos não corrigiram nada disso porque o problema não está na avaliação equivocada de um episódio. Essas correntes adotam as categorias da imprensa burguesa e chegam por esse caminho à mesma conclusão dos governos que bombardeiam. A derrota dos Estados Unidos em Cabul abriu um período de recuos do imperialismo que alcançou o Sael e o Oriente Próximo, e cada recuo enfraqueceu o maior opressor dos trabalhadores do mundo.
Nesta segunda-feira, essa esquerda ainda precisa explicar por que lamentou o dia em que os afegãos puseram o ocupante para fora.





