A sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) na semana passada tinha um assunto colocado: os contratos de R$131 milhões e R$70 milhões entre o escritório da mulher de Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, revelados pelo ministro André Mendonça. O tribunal decidiu tratar de outro. Flávio Dino, Gilmar Mendes e mais dois ministros votaram para atacar Mendonça, acusado de ter feito uma revelação seletiva dos documentos.
Se revelação seletiva fosse crime, seria preciso prender boa parte da Polícia Federal e dos próprios tribunais. O vazamento acompanha todas as investigações no País, e quase sempre pelo mesmo caminho: o processo corre em segredo de justiça, a defesa fica sem acesso às peças e a imprensa recebe, no dia da operação, exatamente aquilo que os condutores do caso querem que apareça. O segredo não protege o investigado. Protege quem investiga.
Moraes afirma que não enviou as mensagens atribuídas a ele; a perícia apontou o aparelho do próprio ministro. Mas nem seriam necessárias. O contrato de honorários, por si só, já compromete: nenhum banqueiro paga a maior cifra de honorários advocatícios de que se tem notícia no Brasil sem razão demonstrada, e razão nenhuma foi apresentada até agora.
Surgiram outras denúncias, entre elas a de que o filho do ministro Nunes Marques teria recebido R$500 mil do mesmo grupo. Tudo deve ser investigado. No entanto, nada disso equivale a um contrato de R$200 milhões, nem serve de argumento para enterrar o caso principal.
Em vez de exigir esclarecimento, setores da esquerda invocaram o fantasma do golpe e passaram a sustentar que o problema não é quem tem o contrato, e sim quem o revelou. As pesquisas divulgadas na semana mostram o tamanho do isolamento: mais da metade dos entrevistados aponta o caso Moraes como o problema central; menos de 30%, todos no eleitorado de Lula, apontam Mendonça.
Lula repete que tudo deve ser investigado e nunca menciona Moraes, embora a direção do PT já tenha avaliado que é preciso se afastar do ministro. O resultado aparece nas mesmas pesquisas, que registram empate com Flávio Bolsonaro no primeiro e no segundo turno, a duas semanas da votação. Quem ganhar indicará quatro ou cinco ministros do Supremo.
Uma esquerda que se cola a esse ministro não sai barata da eleição. Passada a votação, o caso continuará de pé, e continuará sendo o que é: o banqueiro, o contrato e o ministro que decidiu não dever satisfação a ninguém. Quem hoje defende os R$200 milhões em nome da democracia não terá amanhã autoridade para falar de democracia, de direitos ou de corrupção.
Moraes tem que sair. E o problema não termina nele. É o próprio Supremo, um tribunal que prende, censura, manda e desmanda no País sem responder a ninguém, e que se fechou para impedir que um dos seus fosse investigado. É preciso defender o fim do STF e a eleição direta dos juízes.





