Em artigo intitulado A vitória de Davi publicado em 31 de outubro, o teólogo Leonardo Boff apresenta a reeleição de Lula como um acontecimento quase bíblico. De um lado, estaria o pequeno Davi, representante da “democracia”, da soberania nacional e dos oprimidos. Do outro, o gigantesco Golias, encarnado por Donald Trump e seu suposto representante brasileiro, Flávio Bolsonaro. A vitória petista seria, portanto, uma derrota histórica do imperialismo e da extrema direita.
O problema dessa interpretação é que ela inverte completamente a realidade. Se há uma coisa que Lula não foi nas eleições de 2026, foi Davi. O candidato petista disputou a eleição com o controle do governo federal, o apoio de setores poderosos da burguesia, a simpatia de parte importante da imprensa capitalista e uma situação institucional amplamente favorável.
Na história bíblica, Davi enfrenta Golias com uma funda e algumas pedras. Na versão de Boff, Davi dispõe de ministérios, orçamento federal, programas sociais, aliados entre os banqueiros e um aparelho político que mobiliza recursos gigantescos. Sua vitória pode ser explicada por muitos fatores. Uma revolta dos pequenos contra os grandes, porém, não está entre eles.
O próprio resultado eleitoral deveria servir de advertência contra o entusiasmo de Boff. Lula venceu por 51,79% contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Foram quase 60 milhões de votos para o candidato derrotado, uma demonstração de que o bolsonarismo continua sendo uma força política de massas.
Para sustentar sua interpretação, Boff precisa apagar da análise praticamente tudo o que aconteceu durante a campanha. Nada diz sobre o papel do Supremo Tribunal Federal, sobre a intervenção do Judiciário no processo político ou sobre a atuação das instituições em defesa da estabilidade do regime.
No próprio dia da eleição, o ministro Cristiano Zanin, do STF, determinou a prorrogação da votação em resposta a uma ação da coligação de Lula. A determinação inicial, posteriormente limitada às seções que permaneciam abertas, interferiu diretamente na organização do pleito pelo TSE. Independentemente dos argumentos apresentados para justificá-la, trata-se de um episódio que não combina com a imagem de um candidato abandonado à própria sorte diante de forças esmagadoras.
Também não combina com essa imagem a postura de setores da imprensa. Basta comparar o tratamento dispensado a Lula em 1989 com a cobertura de 2026. Naquela eleição, a Rede Globo protagonizou uma operação política contra o candidato do PT. Agora, uma parcela expressiva do grande capital e de seus representantes políticos considerava a continuidade do governo petista uma alternativa aceitável, quando não preferível.
É evidente que havia capitalistas apoiando Flávio Bolsonaro. A burguesia não constitui um bloco eleitoral homogêneo. Mas justamente por isso é absurdo apresentar a eleição como uma batalha entre o povo brasileiro e todo o poder econômico.
Lula reuniu-se com empresários e banqueiros durante a campanha. Grandes grupos econômicos mantiveram interlocução com ambos os candidatos. A questão fundamental é que a reeleição petista não representava uma ameaça à propriedade capitalista, aos lucros bancários ou aos interesses fundamentais da burguesia.
A parte mais fantasiosa do artigo está na afirmação de que Lula teria enfrentado praticamente sozinho Donald Trump, submetendo o presidente norte-americano à força de sua personalidade.
Boff chega a descrever Trump como um aluno diante de seu mestre, ouvindo as palavras sábias do presidente brasileiro. A política internacional, desse modo, deixa de ser uma disputa entre interesses materiais e passa a depender da suposta superioridade moral de um indivíduo.
O imperialismo, no entanto, não é simplesmente Donald Trump. É um sistema de dominação econômica, financeira, militar e política, dirigido por poderosos interesses capitalistas. Dentro dos próprios Estados Unidos existem divergências profundas sobre a melhor maneira de conservar essa dominação.
Confundir o conflito entre Trump e setores do Judiciário brasileiro com uma luta entre os Estados Unidos e o Brasil é um erro elementar. Os grandes grupos financeiros norte-americanos não possuem necessariamente os mesmos interesses imediatos do presidente dos EUA. A burguesia imperialista tampouco precisava considerar Flávio Bolsonaro seu único representante possível no Brasil.
Durante o segundo turno, a propaganda petista incorporou abertamente temas tradicionais da direita. Um de seus lemas foi “trabalhador protegido, bandido na cadeia”. Lula também defendeu a redução da maioridade penal para crimes hediondos, aproximando-se do discurso repressivo que a esquerda historicamente combateu.
O que há de progressista nisso? Desde quando uma campanha baseada no endurecimento penal, na exaltação da polícia e na promessa de encarceramento representa um avanço na luta contra o fascismo?
A política de repressão defendida pelo PT poderia perfeitamente figurar no programa de Ronaldo Caiado, Romeu Zema ou de outros representantes da direita. Em vez de combater a demagogia policial dos adversários, o partido procurou disputar com eles a bandeira da repressão.
A campanha também concedeu enorme espaço ao método de André Janones, baseado em ataques pessoais, escândalos e provocações nas redes sociais. A disputa entre programas políticos foi frequentemente substituída por uma guerra de acusações, enquanto reivindicações fundamentais dos trabalhadores permaneciam subordinadas à necessidade de derrotar Flávio.
Boff prefere não examinar nada disso. Para ele, basta que Lula tenha vencido Bolsonaro para que sua campanha seja elevada à condição de movimento libertador.
O teólogo também atribui grande significado às manifestações juvenis iniciadas na Universidade Federal Fluminense. Segundo ele, teria surgido um movimento sem direção partidária, capaz de transformar a política nacional e pressionar o Congresso.
Muitos deles estavam sinceramente preocupados com a ameaça representada pela direita e com o futuro de seus direitos. O problema não está nesses jovens, mas na direção política oferecida à mobilização. Para que exista uma verdadeira mobilização independente, é necessário um programa próprio, que enfrente os interesses da burguesia e não se limite à defesa do governo existente.
Qual foi o programa político independente apresentado nessas manifestações? A expropriação dos grandes capitalistas? A ruptura com o imperialismo? A organização dos trabalhadores contra o aparelho repressivo? Nada disso ocupou o centro da campanha.
O objetivo predominante foi garantir a vitória eleitoral de Lula. Agora, Boff espera que os mesmos jovens continuem nas ruas para ajudar o presidente a governar diante de um Congresso conservador.
A vitória de Lula não foi uma derrota histórica da burguesia. Foi a vitória de um candidato perfeitamente integrado ao regime político brasileiro, que contou com recursos poderosos para superar um adversário igualmente ligado à ordem capitalista.
A esquerda que pretende combater o imperialismo e a direita precisa partir dessa realidade, não de uma fábula construída para glorificar o presidente.




