O filósofo esloveno Slavoj Žižek publicou no Blog da Boitempo, em 28 de outubro, um artigo intitulado Nem tudo o que se agita é vermelho, no qual procura demonstrar que os trabalhadores franceses, que estão protagonizando uma das maiores ondas de protestos dos últimos anos, não sabem muito bem o que estão fazendo. O texto é uma verdadeira coleção de absurdos políticos, que termina com a defesa de uma ditadura supostamente esclarecida e da continuidade do financiamento à guerra da Ucrânia.
Žižek é apresentado como um dos principais intelectuais marxistas da atualidade. É difícil, porém, encontrar alguma coisa de marxista em suas posições. Quando os trabalhadores exigem melhores salários, ele encontra defeitos nas reivindicações. Quando exigem aposentadorias, concorda com os argumentos dos economistas burgueses. Quando enfrentam um governo autoritário, ele descobre as virtudes de um governante forte. E, quando se trata de financiar a guerra promovida pelo imperialismo contra a Rússia, desaparece toda a sua preocupação com os gastos públicos.
O resultado é um comunismo bastante original: os trabalhadores devem aceitar os sacrifícios impostos pelos capitalistas, a burguesia deve governar com poderes extraordinários e o imperialismo deve continuar sua política de guerra.
A França atravessa uma crise social de grandes proporções. O governo de Emmanuel Macron pretende impor um orçamento que prevê 54 bilhões de euros em economias, atingindo serviços públicos e direitos sociais. A população enfrenta o aumento do custo de vida, a deterioração das escolas, a precarização dos serviços públicos e os ataques às aposentadorias.
Os estudantes iniciaram uma onda de protestos em setembro, denunciando a falta de professores e as péssimas condições de ensino. O movimento se ampliou, incorporando trabalhadores de diferentes categorias e os coletes amarelos, que já haviam colocado o governo Macron contra a parede em 2018.
No dia 24 de outubro, segundo o Ministério do Interior francês, 410 mil pessoas saíram às ruas. Os sindicatos calcularam aproximadamente 800 mil. A polícia realizou 1.314 prisões. Para 5 de novembro, está convocada uma nova jornada nacional de greves e manifestações.
Diante dessa situação, seria de esperar que um marxista analisasse a crise do capitalismo francês, a política dos monopólios, o papel dos banqueiros e a tentativa da burguesia de transferir para os trabalhadores o custo de sua própria crise.
Žižek prefere discutir se os franceses não estariam exigindo direitos demais.
Ao comentar a proposta de redução da idade de aposentadoria, defendida demagogicamente por Marine Le Pen, o filósofo a considera uma estupidez e reproduz um argumento do economista norte-americano Paul Krugman, segundo o qual o sistema previdenciário francês seria excessivamente generoso.
Segundo essa explicação, os aposentados estariam consumindo os recursos que deveriam ser destinados à educação. Os velhos seriam, portanto, responsáveis pela falta de professores e pela precariedade das escolas.
É a velha conversa dos economistas burgueses. O dinheiro é insuficiente, as contas não fecham e alguém precisa fazer um sacrifício. Curiosamente, os sacrifícios nunca são exigidos dos grandes bancos, dos monopólios industriais ou dos especuladores financeiros. São sempre os trabalhadores que precisam pagar.
O que o filósofo não explica é por que o dinheiro público deve continuar sendo utilizado para sustentar os capitalistas, pagar os juros da dívida e financiar o aparato militar francês. Para essas despesas, aparentemente, não existem limitações orçamentárias.
É preciso ainda destacar um absurdo adicional. A redução da idade de aposentadoria não é uma reivindicação reacionária porque Marine Le Pen resolveu defendê-la. Os trabalhadores devem abandonar seus direitos porque um político de direita os incorporou ao seu discurso?
A política de um partido se define pelo conjunto de seu programa e pelos interesses de classe que representa. Um direito conquistado pelos trabalhadores não deixa de ser progressista porque a extrema direita procura explorá-lo eleitoralmente.
O raciocínio de Žižek significa, na prática, entregar à direita as reivindicações populares e depois condenar os trabalhadores por apoiá-las.
O esloveno também apresenta os movimentos de Maio de 1968 e dos coletes amarelos como exemplos de grandes mobilizações que fracassaram.
Aqui aparece outra característica de sua política: o desprezo pela experiência concreta da luta de classes.
Os coletes amarelos surgiram em 2018 contra o aumento dos impostos sobre combustíveis. A medida atingia particularmente os trabalhadores das regiões onde o transporte público é precário e o automóvel é uma necessidade para trabalhar.
A revolta se espalhou pelo país e assumiu um caráter político muito mais amplo, contra Macron e sua política econômica. O governo respondeu com uma repressão brutal, que deixou manifestantes feridos e mutilados.
Mas aconteceu algo que Žižek prefere colocar em segundo plano: Macron foi obrigado a recuar. O aumento dos impostos foi suspenso e o governo anunciou outras concessões.
Os trabalhadores arrancaram essas medidas da burguesia por meio da mobilização. Não foi por uma decisão parlamentar, muito menos pela generosidade de Macron.
O fato de o movimento não ter derrubado o capitalismo francês não significa que tenha sido inútil. A luta de classes não funciona de acordo com os caprichos de um professor universitário. Cada enfrentamento contribui para desenvolver a organização e a consciência dos trabalhadores, mesmo quando não resulta imediatamente numa transformação revolucionária.
É verdade que os coletes amarelos não possuíam uma direção revolucionária. Isso constitui uma limitação importante. Mas por que não a possuíam? Qual foi o papel dos partidos de esquerda e das organizações sindicais? Por que as organizações que se reivindicam marxistas não conseguiram oferecer uma direção política ao movimento?
Essas seriam as questões fundamentais.
Em Maio de 1968, a França foi sacudida por uma greve geral que envolveu milhões de trabalhadores. A burguesia enfrentou uma situação revolucionária. A política de contenção desenvolvida pelo Partido Comunista Francês e pela burocracia sindical foi decisiva para impedir que a mobilização se transformasse numa luta pelo poder.
Não foi a incapacidade dos trabalhadores que salvou o regime. Foi a política de suas direções.
Žižek, porém, transforma o problema numa suposta deficiência das massas, que apresentariam reivindicações confusas e contraditórias.
O filósofo chega a chamar as reivindicações dos manifestantes de “demandas histéricas”, que precisariam ser traduzidas por uma direção política.
É uma formulação reveladora. O trabalhador exige aumento de salário, melhores condições de vida, aposentadoria e educação pública. O intelectual, do alto de sua sabedoria, explica que aquilo não seria exatamente o que o trabalhador quer.
Na realidade, as reivindicações são muito claras.
Os trabalhadores não querem pagar pela crise dos capitalistas. Querem salários maiores, redução da jornada de trabalho, aposentadorias dignas e serviços públicos de qualidade. O problema não é que essas reivindicações sejam incompreensíveis. O problema é que sua realização exige enfrentar os interesses da burguesia.
É justamente nesse ponto que se coloca a necessidade de um partido revolucionário.
A parte mais escandalosa do artigo aparece quando Žižek procura justificar a concentração de poderes nas mãos de governantes.
O filósofo afirma que existem argumentos em favor de uma “ditadura esclarecida” e apresenta Paul Kagame, de Ruanda, como exemplo de dirigente autoritário capaz de proporcionar estabilidade.
Depois, considera a decisão de Macron de dissolver a Assembleia Nacional francesa, em 2024, algo próximo de um “ato autêntico”.
O presidente francês, que governa a serviço dos grandes capitalistas e enfrenta uma revolta popular, é apresentado como exemplo de autoridade política.
O filósofo não percebe, ou não quer perceber, que a burguesia já exerce sua própria ditadura por meio do Estado. Os governos podem mudar, mas o poder econômico permanece nas mãos dos monopólios. Quando as instituições parlamentares não conseguem garantir os interesses capitalistas, o regime recorre cada vez mais abertamente à repressão.
Não há nada de revolucionário nessa política.
A ditadura do proletariado, defendida por Marx e Lênin, significa o poder político da classe operária, conquistado pela derrubada do Estado burguês. Não significa entregar poderes excepcionais a um presidente capitalista.
Confundir essas duas coisas é transformar o marxismo numa justificativa para o autoritarismo burguês.
A posição de Žižek diante da guerra na Ucrânia completa o quadro.
O filósofo lamenta que tanto Marine Le Pen quanto Jean-Luc Mélenchon questionem a continuidade do apoio militar europeu ao governo ucraniano.
Mais uma vez, o problema não é o conteúdo da reivindicação. É o fato de que determinados políticos se opõem à política das potências imperialistas.
Quando se discute aposentadoria, Žižek reproduz o argumento de que o Estado não possui dinheiro suficiente. Quando se discute a guerra, a necessidade de reduzir os gastos públicos desaparece.
A França é uma das maiores potências imperialistas do planeta. Possui grandes monopólios, um poderoso setor financeiro, uma indústria militar e interesses econômicos espalhados pelo mundo.
O rearmamento europeu não constitui uma iniciativa humanitária. Faz parte da luta das potências imperialistas para defender seus interesses econômicos e estratégicos, particularmente diante da crise da dominação norte-americana e dos conflitos com a Rússia.
A guerra na Ucrânia não começou em 2022 como resultado de uma inexplicável vontade agressiva dos russos. Ela possui antecedentes fundamentais na expansão da OTAN em direção às fronteiras russas, no golpe de 2014 e na utilização da Ucrânia como instrumento da política imperialista.
Žižek deixa esses fatores de lado e apresenta o financiamento da guerra como uma obrigação moral.
O mais extraordinário é que o suposto comunista considera lamentável que políticos franceses queiram destinar recursos à população de seu próprio país em vez de entregá-los à guerra.
O trabalhador francês deveria aceitar uma aposentadoria pior para que o imperialismo europeu possa continuar enviando armamentos à Ucrânia.
É difícil imaginar uma posição mais servil diante da burguesia imperialista.




