A inadimplência no crédito livre chegou a 6,4% em julho, o maior nível registrado pelo Banco Central desde o início da série histórica, em março de 2011. Entre as pessoas físicas, 7,8% dos empréstimos estavam em atraso.
O recorde ocorre em meio a uma política econômica que cobra juros altíssimos de uma população cuja renda é cada vez mais consumida pelo pagamento de dívidas. Em julho, a taxa média do crédito livre era de 47,7% ao ano. Para as pessoas físicas, chegava a 60%.
Quase 29% da renda das famílias já estava comprometida com dívidas em junho. Ao mesmo tempo, o estoque de crédito concedido às pessoas físicas alcançou R$4,6 trilhões, com crescimento de 10,8% em 12 meses.
O aumento do crédito nessas condições não significa melhora nas condições de vida. Uma parcela crescente da população recorre a cartão, empréstimos e compras parceladas porque o salário não é suficiente para cobrir as despesas. Com juros de 60% ao ano, uma dificuldade financeira passageira rapidamente se transforma em uma dívida difícil de pagar.
A política do Banco Central alimenta diretamente esse processo. Sob a presidência de Gabriel Galípolo, a Selic permanece em 14% ao ano. A redução feita até agora deixou os juros básicos em um patamar extraordinariamente elevado e preservou um dos principais mecanismos da política neoliberal implantada no País.
A troca de Roberto Campos Neto por Galípolo não significou nenhuma mudança da orientação econômica. Os bancos e grandes detentores de títulos continuam recebendo uma remuneração excepcional, enquanto trabalhadores e pequenos empresários tomam dinheiro emprestado por taxas várias vezes superiores à Selic.
Os balanços dos bancos deixam claro quem se beneficia. O Itaú registrou lucro recorrente de R$12,4 bilhões somente no segundo trimestre. O Bradesco obteve outros 7,05 bilhões de reais no mesmo período. Os trabalhadores batem recorde de inadimplência enquanto as instituições que cobram os juros apresentam resultados bilionários.
É o funcionamento normal de uma economia dominada pelo capital financeiro. O banco lucra tanto com os juros pagos diretamente pelos clientes quanto com a política de juros altos sobre a dívida pública. O assalariado, por sua vez, entrega ao sistema financeiro uma parcela crescente da renda apenas para continuar pagando compromissos anteriores.
O aperto sobre a renda não termina aí. O sistema tributário brasileiro continua fortemente baseado em impostos sobre o consumo. O trabalhador paga imposto quando compra alimentos, roupas, produtos de higiene e outros bens indispensáveis. Como consome praticamente tudo o que recebe, suporta proporcionalmente uma carga muito maior que os grandes capitalistas.
A chamada reforma tributária não aboliu esse mecanismo. Mudou a forma de cobrança e os tributos envolvidos, mas manteve a tributação sobre bens e serviços. Uma política voltada aos interesses dos trabalhadores deveria eliminar os impostos sobre o consumo e transferir a carga tributária para os grandes bancos, monopólios e fortunas.
O alto custo de vida também está ligado à própria orientação da produção nacional. O Brasil possui uma agricultura gigantesca, mas setores decisivos do “agronegócio” (leia-se latifúndio) produzem prioritariamente para o mercado externo. Na atual safra, por exemplo, a estimativa para a soja está próxima de 180 milhões de toneladas, enquanto mais de 116 milhões de toneladas devem ser exportadas.
A enorme produção agrícola do País, portanto, não é organizada para garantir alimentos baratos e abundantes à população. Os grandes proprietários produzem segundo o preço internacional e a possibilidade de obter maior lucro no exterior. O trabalhador brasileiro acaba submetido aos preços resultantes dessa política mesmo vivendo em um dos maiores produtores agrícolas do mundo.
Juros elevados, impostos sobre o consumo e preços altos comprimem o salário. Quando o dinheiro acaba, aparece o crédito bancário cobrando dezenas de pontos percentuais ao ano. A inadimplência recorde é uma consequência direta dessa engrenagem.
A política econômica do governo Lula não rompeu com esse sistema. O capital financeiro continua no centro da economia, recebendo juros extraordinários enquanto se exige contenção de despesas públicas e se mantém uma tributação pesada sobre o consumo popular.
Os números do Banco Central mostram o resultado. Nunca, desde que a série começou a ser medida, houve tanta inadimplência no crédito livre. Enquanto os bancos acumulam bilhões, uma parcela cada vez maior dos trabalhadores já não consegue pagar as próprias contas.





