Luis Stuhlberger, gestor do Fundo Verde e uma das figuras mais conhecidas do sistema financeiro brasileiro, afirmou que o Brasil se tornou uma “máquina de produzir dólar”. A declaração foi feita em entrevista conduzida pelo ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto.
A afirmação procurava explicar a resistência do real diante da moeda norte-americana. O Brasil recebe grandes quantidades de dólares pelas exportações e pela entrada de capital estrangeiro, o que ajuda a impedir uma desvalorização maior da moeda nacional.
Os números são expressivos. O déficit das transações correntes chegou a US$62,9 bilhões no acumulado de 12 meses até julho, enquanto o chamado investimento direto no País alcançou 88,4 bilhões de dólares no mesmo período. A balança comercial também continua positiva.
Esses dados, porém, dizem muito pouco sobre o desenvolvimento econômico do País.
Um país pode obter bilhões de dólares exportando automóveis, equipamentos médicos, aviões, máquinas industriais e componentes eletrônicos. Outro pode conseguir a mesma quantidade de divisas vendendo soja, minério de ferro e petróleo bruto.
A diferença entre os dois não aparece na cotação da moeda.
Para fabricar produtos industriais avançados, é preciso desenvolver pesquisa científica, engenharia, máquinas, trabalhadores especializados e uma extensa rede de empresas fornecedoras. A exportação de matérias-primas pode render tanto ou mais dinheiro, sem produzir nada disso.
É este o caso brasileiro.
O País continua sendo um dos maiores exportadores mundiais de produtos agrícolas e minerais. Soja, petróleo, minério, carnes e outros produtos básicos garantem uma enorme entrada de moeda estrangeira. Ao mesmo tempo, a indústria perdeu importância durante décadas e o Brasil passou a depender cada vez mais da compra, no exterior, de máquinas, equipamentos e produtos de maior conteúdo tecnológico.
A quantidade de dólares que entra no País consegue esconder parcialmente essa regressão.
Uma alta nas exportações de petróleo, por exemplo, pode melhorar a balança comercial e fortalecer o real. Isso não significa que tenha sido criada uma única fábrica de semicondutores, uma nova indústria de máquinas ou qualquer capacidade tecnológica adicional.
A aparência financeira pode melhorar enquanto a base produtiva piora.
Esse processo foi aprofundado pela política neoliberal aplicada desde os anos 1990. A abertura indiscriminada às importações, as privatizações, os juros elevados e a entrega de empresas nacionais ao capital estrangeiro contribuíram para enfraquecer o parque industrial construído ao longo das décadas anteriores.
O Brasil continuou produzindo riqueza, mas sua posição na divisão internacional do trabalho regrediu.
Exporta enormes volumes de recursos naturais e produtos agrícolas e importa grande parte dos bens industriais mais complexos. Quanto maior o preço internacional das matérias-primas, mais dólares entram e mais saudável a economia pode parecer.
A dependência, entretanto, continua.
É possível comparar a situação a uma grande propriedade rural que ganha muito dinheiro vendendo sua produção, mas precisa comprar no exterior as máquinas, os equipamentos eletrônicos e boa parte da tecnologia que utiliza. O proprietário pode ter muito dinheiro em caixa e continuar inteiramente dependente de quem produz os bens fundamentais para sua atividade.
O Brasil tem petróleo, minério, terras férteis, uma população numerosa e recursos suficientes para possuir uma economia industrial muito mais desenvolvida. O problema é que essas riquezas são exploradas segundo os interesses dos grandes capitalistas e do imperialismo.
Por isso, a chamada “máquina de produzir dólar” não produziu uma máquina de desenvolver o País.
A desindustrialização caminhou junto com o crescimento extraordinário do capital financeiro. Enquanto fabricar mercadorias foi se tornando uma atividade submetida a juros elevados e à concorrência das grandes empresas estrangeiras, aplicar dinheiro em títulos e outros ativos passou a oferecer rendimentos enormes.
Essa é uma das principais características da economia brasileira atual.
Para construir uma fábrica, o capitalista precisa investir em terreno, máquinas, trabalhadores e matérias-primas. O retorno pode levar anos. Na especulação financeira, grandes somas podem obter remuneração elevada sem criar um único produto.
A política de juros altos reforça continuamente esse mecanismo. Curiosamente, são os capitalistas que chamam os trabalhadores de vagabundos, quando a verdade é o oposto disso.
O dinheiro que poderia ser utilizado para ampliar a produção é atraído para operações financeiras. Empresas produtivas assumem dívidas caras, enquanto bancos, fundos e grandes proprietários de títulos recebem uma parcela gigantesca da renda nacional.
É o parasitismo financeiro que tomou conta da economia brasileira.
A própria entrevista de Stuhlberger mostra o resultado. O gestor que chamou o Brasil de “máquina de produzir dólar” também afirmou que existe no País uma “economia zumbi”, formada por empresas altamente endividadas que sobrevivem com renegociações sucessivas e processos de recuperação judicial.
As duas declarações não se contradizem.
O Brasil pode continuar recebendo dólares enquanto suas empresas acumulam dívidas. Pode exportar recordes de soja e petróleo enquanto perde capacidade industrial. Pode manter uma moeda relativamente estável enquanto famílias e empresas são esmagadas pelos juros.
São consequências do mesmo capitalismo em decomposição.
A abundância de moeda estrangeira vem principalmente da capacidade de vender riquezas naturais e produtos agrícolas. O enfraquecimento da economia interna decorre, entre outros fatores, de uma política que privilegia a especulação em detrimento da produção.
O próprio capital estrangeiro que entra no País precisa ser visto dessa maneira. Nem todo dólar registrado como investimento representa uma fábrica nova, um laboratório ou uma tecnologia criada no Brasil.
O dinheiro também pode entrar para comprar empresas já existentes, adquirir participações em negócios brasileiros ou aproveitar as oportunidades de lucro oferecidas pela economia nacional.
Nesse caso, a entrada de capital pode até aumentar a dependência do País.
A valorização do real também possui efeitos contraditórios. Ela pode tornar produtos importados mais baratos e dificultar ainda mais a situação da indústria nacional, que precisa disputar o mercado brasileiro com empresas estrangeiras muito maiores e tecnologicamente mais avançadas.
As exportações de matérias-primas continuam garantindo os dólares necessários para sustentar esse funcionamento.
Forma-se assim uma economia deformada: vende produtos básicos em grande escala, compra bens de maior complexidade e oferece rendimentos extraordinários ao capital financeiro.
É muito diferente de um verdadeiro desenvolvimento econômico.
Desenvolver o País significaria aumentar a produtividade por meio da indústria, dominar novas tecnologias, produzir máquinas e equipamentos, ampliar a pesquisa científica e reduzir a dependência dos monopólios estrangeiros.
Nada disso pode ser medido apenas pela cotação do dólar.
Uma moeda aparentemente forte pode coexistir com uma economia fraca. A balança comercial pode apresentar grandes saldos enquanto setores inteiros da indústria desaparecem. As reservas podem crescer sem que o Brasil avance um centímetro em sua independência econômica.
É por isso que a comemoração dos representantes das finanças possui algo de revelador.
Para eles, a economia funciona bem quando existem dólares disponíveis, juros elevados e oportunidades para aplicação do capital. O fato de a indústria definhar é secundário.
Os próprios banqueiros e gestores acabam reconhecendo o resultado quando falam de empresas “zumbis”, endividamento e baixo crescimento.
Não há mistério. O neoliberalismo transformou o País numa enorme fonte de matérias-primas e, ao mesmo tempo, num campo privilegiado para o capital financeiro.
A suposta força do real mascara esse processo. O Brasil produz dólares em abundância, mas perdeu parte importante da capacidade de produzir aquilo que procurava ser algo semelhante a uma soberania econômica. É uma riqueza financeira sustentada sobre uma estrutura produtiva cada vez mais subordinada aos bancos, aos grandes monopólios e ao imperialismo.





