Os dados do programa Desenrola ajudam a desmontar a campanha que apresenta as chamadas bets como uma das principais responsáveis pelo endividamento dos brasileiros. O grosso das dívidas das famílias está concentrado justamente onde sempre esteve: nos bancos, por meio de cartões de crédito, empréstimos, consignados e financiamentos.
A comparação foi apresentada em artigo publicado pelo Poder360 a partir de dados provenientes do Desenrola e de informações apresentadas pelo Banco Central.
O estoque de crédito das famílias brasileiras está próximo de R$3,3 trilhões. Crédito imobiliário, consignado, cartão de crédito e financiamento de veículos respondem, juntos, por aproximadamente R$2,59 trilhões.
A dimensão desses valores mostra onde está o problema. O endividamento em massa não surgiu com as apostas pela Internet. Ele é resultado de uma economia na qual os trabalhadores precisam recorrer continuamente aos bancos para conseguir comprar aquilo que o salário não permite pagar à vista.
O cartão de crédito é um exemplo. Segundo dados apresentados pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, 96 milhões de brasileiros utilizam cartão. Entre eles, 52,8 milhões possuem dívidas no crédito rotativo ou em compras parceladas com juros. Nesse grupo, o comprometimento médio da renda com o cartão chegou a 54%.
Não se trata, portanto, de um fenômeno marginal. Dezenas de milhões de pessoas têm uma parcela enorme de seus rendimentos comprometida com dívidas bancárias.
O mesmo ocorre com outras modalidades de crédito. O consignado privado cresceu 145% em um ano e chegou a R$102 bilhões. O crédito pessoal não consignado alcançou R$397,2 bilhões. Ao tratar do crescimento do endividamento, o próprio Galípolo chamou a atenção para o cartão, o consignado e os empréstimos sem garantia.
É sobre esse sistema que praticamente não se fala quando começa a campanha contra as bets.
A situação é produto da política neoliberal aplicada no País há décadas. Os salários são mantidos em níveis baixos, enquanto alimentação, moradia, transporte, energia e outros produtos necessários pesam cada vez mais no orçamento. O trabalhador que não consegue cobrir as despesas com a própria renda passa a depender do crédito.
O capitalista aumenta os preços para preservar e ampliar seus lucros. O banco aparece em seguida para emprestar o dinheiro que falta, cobrando juros pela operação. Uma parte crescente do salário termina, assim, transferida diretamente ao capital financeiro.
O resultado aparece nas estatísticas como “endividamento das famílias”, expressão que muitas vezes dá a impressão de que o problema decorre simplesmente de uma má administração individual do dinheiro. Na realidade, milhões de pessoas recorrem ao crédito porque seus rendimentos são insuficientes diante do custo de vida.
O próprio Desenrola é uma demonstração disso. O governo foi obrigado a criar um programa nacional de renegociação porque uma enorme parcela da população estava sufocada por dívidas com cartões, empréstimos e outras obrigações financeiras.
Os números referentes às apostas estão muito abaixo dessa dimensão. Segundo os dados apresentados pelo Poder360, cerca de 30 milhões de brasileiros apostam e aproximadamente 800 mil foram impedidos de continuar apostando após aderirem ao Desenrola. Isso corresponde a cerca de 2,6% dos apostadores.
O dado não significa que as apostas não possam causar prejuízos ou problemas graves para determinadas pessoas. Significa apenas que não há como utilizá-las para explicar uma dívida familiar medida em trilhões de reais e ligada diretamente às operações bancárias.
Outro dado reforça essa diferença. A receita bruta das apostas regulamentadas mencionada no artigo é de aproximadamente R$37 bilhões. O estoque de crédito das famílias, por sua vez, está na casa dos trilhões.
A campanha que coloca as bets no centro do problema serve para desviar a discussão.
Em lugar de perguntar por que dezenas de milhões de brasileiros precisam usar crédito para fechar as contas do mês, discute-se o comportamento de quem aposta. Em vez de questionar os juros cobrados pelos bancos, a queda do poder de compra e o aumento dos preços, procura-se responsabilizar o próprio trabalhador.
É uma explicação muito conveniente para o capital financeiro. Os bancos desaparecem como responsáveis pelo sistema de endividamento justamente quando seus empréstimos, cartões e financiamentos comprometem uma parcela gigantesca da renda popular.
A expansão do crédito foi apresentada durante anos como sinal de prosperidade e de acesso ao consumo. Na prática, ela tornou milhões de trabalhadores dependentes dos bancos. Compra-se a casa financiada, o automóvel financiado e, cada vez mais, até despesas correntes são pagas no cartão ou parceladas.
Quanto menor o salário diante das necessidades básicas, maior essa dependência.
O problema das apostas compulsivas existe e deve ser tratado pelo que ele é. Transformá-lo, porém, na explicação para o endividamento nacional não corresponde aos números. Pior: ajuda a esconder a estrutura econômica que empurra milhões de pessoas para os bancos.
O Desenrola acabou revelando justamente essa realidade. A massa das dívidas que precisou ser renegociada está ligada ao crédito e ao sistema financeiro. A campanha contra as bets, ao colocar um problema secundário no lugar do principal, serve de cortina de fumaça para não discutir o peso dos bancos, dos juros e da política neoliberal sobre a população.





