João Pimenta

Estudante da USP. Colunista do Diário Causa Operária, membro da Coordenação da AJR e do Comitê Estadual do PCO de São Paulo. Autor do Livro “A era da Censura das Massas”.

Coluna

Uma teoria da conspiração: o golpe do candidato surpresa

A burguesia pode já ter medido o piso de Lula e Bolsonaro e constatado que um deles seria ultrapassável

Desde o começo deste ciclo eleitoral, estamos vendo a imprensa, setor fundamental da burguesia e do imperialismo, atacando tanto os Bolsonaro quanto Lula, ainda que Lula tenha sido mais poupado. Flávio Bolsonaro tem sofrido muita pressão, vide o caso Master e a efetiva proscrição de seu pai de participar da campanha. Isso poderia ser um teste para determinar o “piso” da candidatura, isto é, ver até onde ela pode descer.

Isso também teria o efeito inverso: verificar qual é o máximo que Lula poderia alcançar, o “teto” do presidente nas pesquisas. A burguesia organizou outras três candidaturas, todas com o objetivo de tirar votos de Flávio Bolsonaro: Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos, cada qual apelando para um perfil diferente do eleitorado.

Caiado atrai o voto do “tucano” de direita, isto é, da terceira via com um viés da direita tradicional. Zema serve para atacar de forma tresloucada Flávio e puxar um eleitorado de extrema-direita, particularmente em seu estado natal. Ele claramente não está preocupado em antagonizar uma parcela da direita.

Renan Santos, por sua vez, capta um voto mais jovem, de ancaps e similares, além dos “doidinhos” que fazem parte da coalizão de eleitores bolsonaristas. A chegada tardia de Marçal faz algo parecido, embora com maior apelo entre os mais velhos desse mesmo segmento que Renan procura atingir.

Nenhum deles tem estrutura para ganhar. Todos estão tirando votos de Bolsonaro. Este seria, portanto, o momento de pressão máxima sobre sua candidatura. Uma vez determinado o piso de votos de Bolsonaro, seria hora de observar o caso de Lula.

As pesquisas mostram Lula com uma folgada liderança no primeiro turno, mas o presidente enfrenta um segundo turno difícil contra qualquer adversário, mostrando que o antipetismo é desesperado o suficiente para votar em praticamente qualquer coisa para impedir Lula de vencer. Contra Flávio, o presidente aparece empatado dentro da margem de erro. A disputa seria levemente melhor para o PT contra Caiado, Zema e Renan Santos.

Contudo, mesmo candidatos que têm cerca de 2% das intenções de voto no primeiro turno, como Renan Santos, aparecem a apenas cerca de dez pontos de Lula em cenários de segundo turno. Na direita, mais de 30% afirmam votar com o objetivo de impedir Lula.

Há ainda outro elemento. Nenhum dos grandes partidos está coligado nesta eleição com algum dos principais candidatos, excetuando-se PT, PSD e PL, que possuem candidatura presidencial própria. Isso significa que essas forças poderiam, em determinado momento, jogar todo o seu peso em torno de qualquer candidato que surgisse de surpresa.

A burguesia pode já ter medido o piso de Lula e Bolsonaro e constatado que um deles seria ultrapassável. A partir daí, poderia lançar mão de um candidato surpresa para tentar realizar essa ultrapassagem, simultaneamente a denúncias pesadas contra os dois líderes das pesquisas. Meu chute é que Lula seria o mais ultrapassável.

Ao meu ver, o candidato ideal para uma operação desse tipo seria Augusto Cury. Ele é praticamente desconhecido, mas vem crescendo nas pesquisas. Seria favorecido por aparecer como o “fato novo” no debate. Além disso, será o último entrevistado no Jornal Nacional, o que dá tempo para analisar as entrevistas dos demais candidatos e, ao mesmo tempo, permite que sua participação seja a mais recente e, portanto, potencialmente a mais memorável para o público.

Cury se apresenta com uma roupagem levemente liberal nos costumes, mas consegue também parecer levemente conservador. É médico, supostamente simpático e ferozmente neoliberal. Nesse sentido, seria um candidato exemplar do sistema.

Isso vai acontecer? Não sei. É uma história, uma “narrativa”, como diz a moda. É possível? É. É possível que não aconteça, mas que a urna e a imprensa digam que aconteceu? Também é possível. É provável? Não. É ridiculamente improvável? Também não. Algo parecido aconteceu recentemente? Sim.

Em 2018, tivemos vitórias estranhas no Brasil, como as de Zema e Witzel para os governos estaduais, além das derrotas de Dilma Rousseff e Eduardo Suplicy nas eleições para o Senado. Mais recentemente, ilustres desconhecidos no começo de campanhas eleitorais acabaram eleitos na Bolívia e na Colômbia, eleições que também foram permeadas por alegações de fraude.

Seria desastroso se algo assim acontecesse? Demais.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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