A Conmebol prepara mais uma cobrança contra o Corinthians. Depois da eliminação diante do Estudiantes, na quarta-feira (16), Memphis Depay e Gustavo Henrique não passaram pela zona mista da Neo Química Arena. A regra obriga os jogadores a atravessar o espaço reservado à imprensa, embora não os obrigue a dar entrevista. A possível multa varia de US$ 8 mil a US$ 10 mil.
O executivo de futebol Marcelo Paz afirmou que Memphis assumirá o pagamento se a sanção for confirmada. O atacante já responde a outro processo por um gesto dirigido à torcida do Estudiantes no jogo de ida. O Corinthians ainda espera punições por supostas falhas de estrutura e organização na partida de volta.
As cobranças viraram uma fonte permanente de arrecadação para a entidade. O manual distribuído aos participantes no início do ano tem centenas de páginas e regula minúcias da realização de uma partida: horários de entrada no gramado, espaços para patrocinadores, quantidade de assentos reservados, posição de placas, conexão com a Internet e percurso dos jogadores, além de uma infinidade de obrigações comerciais. Cada detalhe descumprido abre caminho para uma multa em dólares.
O São Paulo também foi vítima desse sistema. Por um atraso de cinco minutos na volta do intervalo contra o Boca Juniors, a cobrança pode chegar a US$ 175 mil. Se a Conmebol considerar o técnico Dorival Júnior reincidente, o valor pode subir para US$ 200 mil. O clube já havia sido multado por não cumprir exatamente o protocolo de entrada em campo e recebeu outra sanção de US$ 11 mil por sinalizadores usados pela torcida dentro e fora do estádio. Até problemas de conexão com a Internet entraram no relatório.
O Palmeiras também foi atingido. A entidade cobrou US$ 10 mil de Abel Ferreira por chutar um microfone depois de uma partida da Libertadores contra o Cerro Porteño e acrescentou US$ 1.832,60 como ressarcimento pelo aparelho. A cobrança é desproporcional: além da punição disciplinar esportiva, a confederação transforma o objeto danificado em motivo para cobrar dezenas de milhares de reais.
Para os clubes mais ricos, as multas corroem receitas importantes. Para um estreante, as exigências podem ameaçar a própria participação. O Mirassol precisou organizar uma equipe feminina para atender aos critérios de licenciamento e enfrentou dificuldades com a exigência de um aeroporto internacional próximo à cidade, algo que o clube evidentemente não tem poder para construir ou controlar. Ainda assim, a Conmebol impõe a obrigação ao participante e reserva para si o direito de puni-lo.
Boa parte das normas pouco tem a ver com o jogo. Elas protegem contratos comerciais, transmissões e patrocinadores da confederação, transferindo aos clubes todo o custo de execução. A entidade define as regras, fiscaliza seu cumprimento, julga os acusados e desconta as multas diretamente das premiações. O clube depende dos próprios órgãos da Conmebol para recorrer.
Essa máquina funciona especialmente bem contra os clubes brasileiros, que fornecem grande parte da receita e da audiência das competições sul-americanas. Em vez de organizar o torneio em cooperação com eles, a confederação trata-os como subordinados sujeitos a um regulamento labiríntico. Um atraso de poucos minutos pode provocar uma cobrança próxima de R$ 1 milhão, enquanto a entidade não oferece sequer o impedimento semiautomático durante todas as fases da competição.
A ameaça de multa contra Memphis é apenas o caso mais recente. A zona mista, criada para facilitar o trabalho da imprensa, virou mais um posto de cobrança. O jogador não é obrigado a falar, mas basta não caminhar pelo corredor indicado para que o clube perca milhares de dólares.





