Identitarismo

Transtornados atacam PCO por defesa dos direitos das mulheres

Militantes interromperam Luan Monteiro, gritaram “vai ser preso” e atacaram o PCO por ter assinado carta da MATRIA durante debate na UFRJ

Um grupo de militantes identitários tentou intimidar Luan Monteiro, candidato do Partido da Causa Operária (PCO) ao governo do Rio de Janeiro, durante debate realizado nesta quarta-feira (28) na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Depois de se irritarem com posições apresentadas pelo candidato, integrantes da plateia passaram a interrompê-lo, vaiá-lo e chegaram a gritar “vai ser preso”.

Nas considerações finais, as provocações voltaram. Vídeos publicados nas redes sociais mostram gritos acusando o Partido de ser “transfóbico”, destacando o fato de que os candidatos do PCO assinaram uma carta da Associação de Mulheres MATRIA. O candidato também teria sido advertido por pessoas da plateia a “pensar bem” antes de falar.

Na abertura do debate, a representante do Diretório Central dos Estudantes (DCE) afirmou que todos os candidatos ao governo do Rio de Janeiro haviam sido convidados. Mais adiante, voltou a dizer que os presentes eram aqueles que haviam se disposto a participar. A afirmação consta da gravação do evento.

Fontes informaram ao Diário Causa Operária, contudo, que o candidato do PCO não recebeu o convite inicialmente. O Partido precisou procurar a organização para que Luan Monteiro pudesse participar.

A situação tornou-se mais tensa quando Ciro Garcia, candidato do PSTU, perguntou a Luan se o PCO apoiava a criação de cotas para pessoas transexuais nas universidades.

Luan respondeu que não. Explicou que o Partido é crítico ao sistema de cotas e defende o livre ingresso nas universidades, com o fim do vestibular. Enquanto houver restrição de vagas, sustentou que eventuais medidas deveriam partir fundamentalmente da condição econômica.

O candidato reconheceu ainda que mulheres, negros e homossexuais sofrem condições desfavoráveis na sociedade, mas defendeu que o combate a esses problemas seja feito a partir da luta comum dos trabalhadores e da organização direta daqueles que sofrem violência.

A resposta provocou protestos na plateia. Gritos e palavras de ordem interromperam a intervenção antes que o candidato terminasse de explicar sua posição.

Luan voltou ao assunto pouco depois, desta vez colocando diretamente o problema da liberdade de expressão. Chamou atenção para o fato de que setores da esquerda passaram a tratar divergências políticas como assunto para polícia e tribunal.

Foi nesse momento que pessoas da plateia começaram a gritar “vai ser preso”.

“Isso aqui, companheiros, é um negócio absurdo numa universidade. Aqui é um espaço de livre debate”, respondeu Luan. Ele acrescentou que quem possui a “chave da cadeia” não é a esquerda, mas o Judiciário, responsável por perseguir organizações e militantes políticos.

A própria organização do debate teve de pedir que o público parasse de interromper os candidatos para que fosse possível ouvir as respostas.

A discussão seguinte mostrou até onde vai essa política. Ciro Garcia afirmou que a liberdade de expressão deveria encontrar uma fronteira diante de manifestações consideradas racistas, transfóbicas, misóginas ou homofóbicas. Defendeu expressamente que pessoas enquadradas nessas categorias fossem presas.

A contradição apareceu na própria fala do candidato do PSTU. Ciro lembrou que José Maria de Almeida, dirigente de seu partido, foi condenado por declarações em defesa da Palestina e convocou os presentes a participarem da campanha por sua absolvição.

Luan aproveitou o exemplo para mostrar o problema. As leis que setores da esquerda imaginam poder utilizar contra seus adversários estão nas mãos dos tribunais da burguesia e acabam sendo empregadas contra a própria esquerda.

O PCO conhece esse mecanismo diretamente. O Partido teve suas redes sociais bloqueadas por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF) e seus dirigentes e órgãos de imprensa são alvo de processos decorrentes de posições políticas, inclusive pela defesa da resistência palestina.

O fato de ter sido vítima desse aparelho, porém, não levou o PCO a defender censura quando o atingido é um adversário. O Partido vem sustentando que opiniões devem ser enfrentadas politicamente e que entregar ao Estado o direito de decidir o que pode ou não ser dito fortalece justamente aqueles que reprimem os trabalhadores.

O debate sobre as cotas também revelou uma diferença mais profunda entre o PCO e os setores identitários.

Luan lembrou sua participação na mobilização contra o despejo da Casa Nem, ocupação no Rio de Janeiro que acolhe pessoas transexuais e travestis em situação de vulnerabilidade. Segundo seu relato, esteve no local durante o despejo e participou da mobilização para defender seus moradores. Ou seja, a oposição à política de cotas específicas não significa oposição à defesa das pessoas transexuais. O PCO defende outra política: emprego, moradia, educação para todos, organização contra a violência e mobilização dos próprios trabalhadores.

No caso da universidade, a proposta apresentada por Luan foi o fim do vestibular e o livre ingresso no ensino superior. Em vez de administrar a escassez dividindo um número reduzido de vagas entre diferentes grupos, o Partido defende que todos tenham direito de entrar.

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