Plantão Irã: acordo com EUA marca vitória iraniana
No Plantão Irã desta quinta-feira (18), Pedro Burlamaqui e Victor Assis analisaram o memorando de entendimento assinado digitalmente entre a República Islâmica do Irã e os Estados Unidos. O programa, que vai ao ar diariamente, às 16 h, em uma parceria entre a Causa Operária TV (COTV) e o Diário Causa Operária (DCO), apresentou os 14 pontos do acordo e avaliou que o documento expressa uma derrota política e militar do imperialismo norte-americano e de “Israel”.
A discussão começou pelo Líbano, uma das questões centrais do memorando. Pedro lembrou que “Israel” mantém ataques contra o país apesar das exigências formalizadas no documento. Segundo ele, uma publicação da emissora libanesa Al Mayadeen mostrou até onde vai a ocupação israelense no sul do país e serviu para desmentir a propaganda de que o Exército israelense domina a situação diante do Hesbolá.
Para Victor Assis, o fato de o Líbano aparecer de maneira reiterada no primeiro ponto do memorando mostra a vitória iraniana. O trecho lido no programa afirma que Irã, Estados Unidos e seus aliados “declaram a cessação imediata e permanente das operações militares em todas as frentes, inclusive no Líbano”, comprometendo-se também a “garantir a integridade territorial e a soberania do Líbano”.
“É por essas e outras coisas que é inegável que quem venceu a guerra foi o Irã. Inclusive, por falar em Líbano, é bom destacar que, durante a guerra, o chefe de Estado libanês enviou uma delegação para os Estados Unidos para se encontrar com a delegação israelense, pela primeira vez em décadas, porque os países não têm relações, para supostamente negociar o cessar-fogo. Mas, para que houvesse um cessar-fogo que ninguém ia acreditar que de fato valesse, o governo libanês teria que se comprometer a desarmar o Hesbolá e a reconhecer o Estado de ‘Israel’”, disse VIctor.
O apresentador afirmou ainda que o Irã demonstrou ter mais consideração pelo povo libanês do que o próprio governo do Líbano, classificado por ele como fantoche do sionismo.
A discussão passou então para a capacidade de “Israel” de continuar violando acordos. Victor Assis comparou a situação atual com os acordos anteriores envolvendo os palestinos, em especial os Acordos de Oslo, que, segundo ele, decorreram da capitulação da Organização para a Libertação da Palestina (OLP).
No caso do memorando entre Irã e Estados Unidos, a situação é diferente, segundo o comentarista, porque o Irã saiu da guerra demonstrando força militar suficiente para impor limites ao sionismo.
“Nesse caso aqui agora, além de ter sido uma grande derrota do imperialismo e do sionismo, o Irã surge como uma força muito poderosa e uma força capaz, coisa que o Hamas não é capaz do ponto de vista militar, de acabar com o Estado de ‘Israel’ e destrui-lo completamente por meio da sua força bélica. Então, como o acordo se dá desta maneira, eu não vejo como é que ‘Israel’ vai violar o acordo. Porque violar o acordo significaria arranjar briga com o Irã, com quem ‘Israel’ não é páreo, e com os Estados Unidos, que não querem a guerra”, afirmou.
O programa também tratou do Estreito de Ormuz. Em resposta a uma pergunta enviada pelo público, Victor Assis afirmou que não seria correto, do ponto de vista militar, o Irã manter um bloqueio até o fim de “Israel”. Segundo ele, a política iraniana mostrou uma estratégia defensiva, de longo prazo, voltada a cercar o inimigo sem agir de maneira precipitada.
“O Irã tem uma estratégia defensiva, que é a estratégia natural de qualquer país oprimido, mas que é uma estratégia que busca cercar e encurralar o inimigo. É o que eles fizeram, por isso deu tão certo. Agora, eles não provocaram a guerra em momento nenhum. Eles aguentaram determinadas violações graves, nunca reagiram de maneira emocional”, disse.
Pedro Burlamaqui também apresentou imagens divulgadas sobre ataques iranianos contra bases norte-americanas na região, entre elas a base de Ali al-Salem, no Cuaite, além de instalações nos Emirados Árabes Unidos.
Victor Assis afirmou que, com o fim da guerra, novas informações tendem a aparecer, pois durante os combates os governos escondem dados para não influenciar o desenvolvimento da situação militar. Para ele, o resultado mostra que “os Estados Unidos não foram páreo para as Forças Armadas iranianas, para o Exército e para a Guarda Revolucionária iraniana”.
Na parte central do programa, Pedro leu a íntegra do memorando de entendimento, composto por 14 pontos. O documento prevê a cessação permanente das operações militares, inclusive no Líbano; o respeito mútuo à soberania; a realização de negociações para um acordo final em até 60 dias; o fim do bloqueio naval em até 30 dias; a retirada das forças militares norte-americanas da região no entorno do Irã em até 30 dias após o acordo final; a passagem segura de embarcações comerciais pelo Golfo Pérsico e pelo Golfo de Omã; a discussão sobre a administração futura dos serviços marítimos no Estreito de Ormuz; US$300 bilhões para reconstrução e desenvolvimento econômico do Irã; o encerramento das sanções; a liberação de fundos e ativos iranianos congelados; e a chancela do Conselho de Segurança da ONU ao acordo final.
Sobre o Estreito de Ormuz, Victor Assis afirmou que o problema central é militar. Para ele, os Estados Unidos demonstraram não ter condições de tomar o controle do estreito.
“Nesse caso aí, o Estreito de Ormuz é um problema estritamente militar. A questão é: os Estados Unidos têm como tomar Ormuz? Eles provaram que não têm, que não estão preparados para isso. Se eles não estão preparados, o Irã pode ditar o que quiser, pode botar pedágio, pode barrar inimigos etc. Os acordos são mais no sentido da boa vontade para acabar a guerra, mas os Estados Unidos não têm condições de exigir nada em relação a Ormuz”, afirmou.
Um dos pontos mais destacados foi o compromisso norte-americano de financiar, junto a seus parceiros regionais, um programa de reconstrução e desenvolvimento econômico do Irã com valor mínimo de US$300 bilhões. Para Victor Assis, a cláusula mostra o tamanho da derrota norte-americana.
O programa também debateu a cláusula nuclear. O memorando afirma que o Irã reafirma que não produzirá nem adquirirá armas nucleares e que a situação dos materiais enriquecidos armazenados será resolvida por um mecanismo acordado entre as partes, sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica. Para Victor, esse é um dos poucos pontos que os Estados Unidos podem apresentar como favorável, mas não representa uma derrota iraniana.
“Não é uma derrota, mas seria uma das pouquíssimas, senão a única cláusula que os Estados Unidos podem apresentar como favorável para eles: dizer que foram lá e interromperam o programa nuclear iraniano. Só que não é uma derrota. Primeiro porque, que eu saiba, nenhum país declara que vai fazer uma bomba atômica. Então, a expectativa era o quê? Que no acordo o Irã fosse dizer: nós vamos fazer uma bomba atômica?”, questionou.
Segundo ele, o Irã não perdeu soberania com essa cláusula, pois o próprio regime iraniano já proíbe a produção da bomba atômica por razões religiosas, embora isso possa mudar de acordo com a correlação de forças interna e externa.
Na parte final, Pedro apresentou reações negativas ao acordo. Segundo ele, jornais como The Economist, The Independent e The New York Times já tinham tratado o memorando como uma derrota dos Estados Unidos antes mesmo da divulgação dos 14 pontos. Ele também citou o jornal israelense Yedioth Ahronoth, que classificou o acordo como uma derrota estratégica para os Estados Unidos e afirmou que ele fortalece tanto o Irã quanto o Hesbolá.
Victor Assis afirmou que as críticas da imprensa sionista partem do desejo de manter a guerra. Segundo ele, “Israel” vive em guerra há décadas, mas os Estados Unidos não podem sustentar indefinidamente uma guerra intensa sem abalar todo o sistema imperialista.
“Eles estão dizendo que não deveria ter acabado a guerra. Tudo bem, você pode fazer a crítica de que o acordo é ruim, o acordo realmente é péssimo para os Estados Unidos. Mas o conteúdo da imprensa israelense, em geral, é esse: é criticar porque eles queriam manter a guerra. Só que tem o seguinte problema: ‘Israel’ está em guerra há 78 anos. Sua economia, seu regime, é tudo voltado para isso. Os Estados Unidos, não”, afirmou.





