O memorando de entendimento firmado entre os Estados Unidos e a República Islâmica do Irã é uma das maiores derrotas sofridas pelo imperialismo norte-americano no Oriente Próximo desde a Segunda Guerra Mundial. O documento registra, em linguagem diplomática, a incapacidade dos Estados Unidos de derrotar o Irã, abrir pela força o Estreito de Ormuz, manter o bloqueio naval, esmagar a economia iraniana e preservar a liberdade de ação militar de “Israel” no Líbano.
A guerra começou com,aques contra bases e instalações iranianas e a ofensiva contra o Eixo da Resistência obrigariam o Irã a aceitar uma rendição. O resultado foi o oposto. O Irã não apenas resistiu, como colocou os norte-americanos diante de um impasse militar e econômico de enormes proporções.
O memorando deixa isso claro desde o primeiro ponto. Nele, os Estados Unidos, o Irã e seus aliados na guerra declaram a cessação imediata e permanente das operações militares em todas as frentes, inclusive no Líbano. O texto também estabelece o compromisso de não iniciar guerra ou operação militar um contra o outro, de não ameaçar nem usar a força e de garantir a integridade territorial e a soberania libanesa. A repetição do Líbano no primeiro parágrafo do acordo é um dos dados mais importantes do documento.
A agressão sionista contra o Líbano foi tratada pelo imperialismo como uma questão separada, uma operação militar de “Israel” contra o Hesbolá. O memorando imposto pelo Irã derruba essa separação. A frente libanesa aparece como parte inseparável da guerra geral contra a República Islâmica. Isso significa que o Irã obrigou os Estados Unidos a reconhecer que a guerra no Líbano não é um assunto interno libanês, nem uma questão exclusiva do regime sionista. É parte da luta regional entre o imperialismo e o Eixo da Resistência.
O governo libanês, controlado por setores abertamente ligados aos Estados Unidos, vinha sendo pressionado a desarmar o Hesbolá, reconhecer “Israel” e transformar a agressão sionista em uma imposição diplomática contra o próprio povo libanês. A República Islâmica, ao contrário, colocou a soberania do Líbano no centro do acordo. O Irã apareceu, diante dos fatos, como a força regional que defendeu o Líbano com mais firmeza do que o próprio governo libanês.
A derrota norte-americana fica ainda mais clara no ponto sobre o bloqueio naval. O memorando determina que os Estados Unidos iniciem imediatamente a retirada de seu bloqueio naval contra o Irã e encerrem integralmente a operação em até 30 dias. O texto fala também no fim de qualquer assédio ou obstrução contra a República Islâmica. Mais ainda: os norte-americanos se comprometem a retirar suas forças da proximidade do Irã em até 30 dias após o acordo final.
Um bloqueio naval só existe enquanto a potência que o impõe consegue sustentá-lo. Os Estados Unidos não conseguiram. A Marinha norte-americana, apresentada há décadas como a força mais poderosa do planeta, foi incapaz de impor sua vontade no Golfo Pérsico. Não conseguiu garantir a livre circulação sob seu comando. Não conseguiu impedir a reação iraniana. Não conseguiu abrir o Estreito de Ormuz pela força. O memorando registra essa derrota em termos diplomáticos.
O ponto central da crise foi o Estreito de Ormuz. A passagem concentra uma parte decisiva do comércio mundial de petróleo e gás. Ao mostrar que podia controlar a região, o Irã colocou o imperialismo diante de uma contradição insolúvel: para manter a guerra, os Estados Unidos precisavam sustentar uma operação naval que ameaçava paralisar o abastecimento energético de aliados, elevar o preço do petróleo, agravar a crise econômica mundial e comprometer a própria situação interna do governo norte-americano.
O memorando reconhece que a passagem comercial pelo estreito dependerá de providências organizadas pela República Islâmica. O texto estabelece que o Irã tomará medidas, durante 60 dias, para garantir a passagem segura de embarcações comerciais, sem cobrança, do Golfo Pérsico ao Mar de Omã e vice-versa. Também determina que a navegação comercial será restabelecida após a retirada de obstáculos técnicos e militares e as operações de desminagem realizadas pelo próprio Irã.
O país que o imperialismo pretendia submeter passa a figurar como a força capaz de garantir ou bloquear a passagem no ponto mais importante do Golfo Pérsico. O documento também prevê que a República Islâmica dialogará com Omã sobre a futura organização dos serviços marítimos no Estreito de Ormuz, em acordo com o direito internacional e os direitos soberanos dos Estados costeiros.
Os Estados Unidos foram obrigados a reconhecer que não controlam Ormuz. O estreito, que a propaganda imperialista tratava como uma via sob proteção militar norte-americana, apareceu como uma região submetida à força real dos países costeiros, em primeiro lugar o Irã. O controle iraniano sobre Ormuz foi o fator decisivo que obrigou os Estados Unidos a assinar.
A guerra mostrou que os Estados Unidos continuam tendo uma força destrutiva gigantesca, mas não têm capacidade ilimitada de impor sua vontade. A máquina militar norte-americana depende de bases expostas, de uma cadeia de suprimentos caríssima, de estoques que não são recompostos rapidamente e de uma indústria de guerra financeirizada, voltada muito mais para alimentar contratos bilionários do que para sustentar uma guerra industrial prolongada.
O consumo de interceptadores, mísseis, munições e equipamentos de defesa aérea alcançou um nível que colocou em questão a capacidade de reposição dos Estados Unidos e de “Israel”. Setores militares norte-americanos já vinham alertando para a demora na reposição de estoques estratégicos. A guerra contra o Irã tornou o problema mais grave. A produção da indústria de guerra dos Estados Unidos não acompanha o ritmo de consumo exigido por uma guerra moderna contra um adversário com grande capacidade de mísseis.
A indústria norte-americana de armamentos passou por um longo processo de parasitismo financeiro. Empresas recebem contratos colossais do Pentágono, cobram preços gigantescos e entregam uma produção limitada. Quando a guerra exige volume, reposição rápida e adaptação industrial, o sistema mostra sua fraqueza.
A situação é agravada pela dependência de componentes estratégicos. A restrição chinesa à exportação de minerais e insumos necessários para sistemas eletrônicos, mísseis e equipamentos de alta tecnologia amplia a vulnerabilidade norte-americana. Os Estados Unidos deslocaram parte decisiva de sua produção industrial para fora do país ao longo de décadas. Agora, ao enfrentar países que desenvolveram capacidade própria de guerra, sentem o peso da desindustrialização e da decadência capitalista.
A guerra contra o Irã, portanto, expôs uma contradição mais ampla. O imperialismo mantém centenas de bases, financia “Israel”, alimenta a guerra contra a Rússia na Ucrânia, ameaça a China, pressiona governos latino-americanos e tenta preservar sua dominação sobre o Oriente Próximo. Mas sua capacidade real de sustentar todos esses enfrentamentos ao mesmo tempo é muito menor do que a propaganda sugere.
O memorando estabelece que os Estados Unidos, junto com parceiros regionais, desenvolverão um plano definitivo de pelo menos US$300 bilhões para a reconstrução e o desenvolvimento econômico da República Islâmica. Mais importante do que a quantia, porém, é o caráter político da cláusula. Os Estados Unidos, que tentaram destruir a economia iraniana por meio de bloqueio, sanções e guerra, foram obrigados a aceitar um plano de financiamento para o país atacado.
Isso equivale a uma indenização de guerra. A potência imperialista não conseguiu impor a rendição do país oprimido e teve de assinar um documento que prevê recursos para reconstrução e desenvolvimento. A comparação com grandes tratados de pós-guerra mostra o tamanho do acontecimento, mas com uma diferença fundamental: desta vez, a multa não é imposta por vencedores imperialistas contra um país derrotado. É o país oprimido que arranca uma reparação da principal potência imperialista do planeta.
A cláusula das sanções aprofunda essa derrota. O memorando determina que os Estados Unidos se comprometem a encerrar todos os tipos de sanções contra a República Islâmica, incluindo resoluções do Conselho de Segurança da ONU, resoluções do Conselho de Governadores da Agência Internacional de Energia Atômica e sanções unilaterais norte-americanas, tanto primárias quanto secundárias. O texto também reconhece a importância crítica do fim das sanções e estabelece que o tema será tratado imediatamente nas negociações.
Enquanto o acordo final não é concluído, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos deverá emitir licenças para a exportação de petróleo bruto iraniano, derivados, produtos petroquímicos e todos os serviços associados, incluindo transações bancárias, seguros e transporte. Isso significa que, antes mesmo do encerramento formal de todas as sanções, a parte mais importante da economia iraniana volta a operar com autorização reconhecida pelo próprio Estado norte-americano.
A liberação dos ativos congelados reforça esse quadro. O memorando estabelece que os fundos e ativos da República Islâmica bloqueados ou restritos serão tornados plenamente disponíveis para uso. O Banco Central iraniano poderá designar os beneficiários finais, e os Estados Unidos deverão emitir todas as licenças e autorizações necessárias. A política de confisco e bloqueio financeiro, usada pelo imperialismo como arma contra países oprimidos, sofreu uma derrota direta.
A retomada das exportações de petróleo iraniano já começou a produzir efeitos. Petroleiros iranianos voltaram a circular para levar petróleo à Ásia, e a retirada do bloqueio naval permite a vazão de estoques represados. A abertura de Ormuz, sob controle iraniano, tende a aumentar a oferta de petróleo no curto prazo, exatamente quando reservas estratégicas de vários países estavam sob pressão. Essa situação mostra outro aspecto da derrota norte-americana: para preservar a estabilidade econômica de seus aliados e reduzir a pressão sobre o preço do petróleo, os Estados Unidos precisaram aceitar a circulação do petróleo iraniano.
O ponto nuclear, apresentado pela propaganda imperialista como o motivo central da guerra, aparece no memorando de maneira muito mais limitada do que os Estados Unidos pretendiam. A República Islâmica reafirma que não desenvolverá nem adquirirá armas nucleares. O material enriquecido será tratado por meio de mecanismo mutuamente acordado, com diluição no próprio território iraniano, sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica. As partes também discutirão a questão do enriquecimento e as necessidades nucleares iranianas em um quadro satisfatório a ser definido no acordo final.
A própria imprensa burguesa norte-americana reconheceu esse ponto. Setores próximos ao Partido Republicano criticaram o acordo porque ele concede benefícios financeiros enormes ao Irã sem exigir o desmantelamento de seu programa nuclear. Outros setores destacaram que o documento não cumpre os objetivos anunciados pelo governo Trump antes da guerra. A imprensa israelense também denunciou o acordo como uma derrota estratégica dos Estados Unidos e como um fortalecimento do Irã e do Hesbolá. Esse choro generalizado confirma o que o texto do memorando já mostra: os Estados Unidos não obtiveram a rendição iraniana.
A situação de “Israel” é particularmente grave. O regime sionista apostou que uma guerra contra o Irã permitiria reorganizar sua posição no Oriente Próximo, enfraquecida pela resistência palestina em Gaza, pela ação do Hesbolá no Líbano e pelo crescimento da força regional do Irã. A aposta fracassou. “Israel” arrastou os Estados Unidos para uma guerra que estes não conseguiram vencer. Agora, o primeiro ponto do memorando exige o fim das operações militares em todas as frentes, inclusive no Líbano.
Isso coloca o governo de Benjamin Netaniahu diante de uma contradição profunda. Se “Israel” respeita o acordo, aceita uma limitação inédita à sua liberdade de agressão contra o Líbano. Se viola o acordo de maneira aberta, desafia não apenas o Irã, mas também a decisão dos Estados Unidos de encerrar a guerra. O regime sionista, acostumado a agir com proteção automática norte-americana, passa a enfrentar uma situação nova: os Estados Unidos não querem pagar qualquer preço para bancar suas aventuras militares.
A crise interna de “Israel” também se aprofunda. O governo sionista já enfrenta desgaste pela guerra em Gaza, pela incapacidade de esmagar a resistência palestina, pela pressão social interna e pelas divisões no próprio regime. A derrota diante do Irã amplia essa crise. A imagem de invencibilidade militar, fundamental para a sobrevivência política do Estado sionista, foi golpeada. O Irã mostrou que pode atingir alvos estratégicos, sustentar a guerra e impor custos que “Israel” não consegue suportar sem ajuda total dos Estados Unidos.
O Irã aparece, de maneira aberta, como a principal potência militar do Oriente Próximo. A República Islâmica já exercia esse papel por meio de sua rede de alianças, sua capacidade de mísseis, sua influência política e sua posição estratégica. Agora, essa posição foi confirmada em uma guerra direta contra o imperialismo. Nenhum outro país da região demonstrou capacidade semelhante. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Cuaite e demais regimes aliados dos Estados Unidos ficaram expostos como estruturas frágeis, dependentes de proteção estrangeira e incapazes de enfrentar o Irã.
A tentativa de transformar os Emirados Árabes Unidos em uma nova base de apoio ao imperialismo no Golfo Pérsico também encontra limites evidentes. Os Emirados possuem uma pequena saída estratégica após o Estreito de Ormuz, o que explica sua importância para planos norte-americanos de contornar o controle iraniano da passagem. Mas essa alternativa mostrou-se insuficiente. A República Islâmica tem condições de atingir bases e instalações em toda a região. Países artificiais, sem profundidade territorial, sem base popular e dependentes de tropas estrangeiras, não são capazes de substituir “Israel” como cabeça de ponte regional do imperialismo.
Mesmo a Arábia Saudita, muito maior e mais rica, mostrou seus limites na guerra contra o Iêmen. O reino não conseguiu derrotar o Ansar Alá, uma força muito menor que o Irã. A conclusão é evidente: os regimes do Golfo Pérsico não têm condições de enfrentar a República Islâmica. Sua função é servir de abrigo para bases, aviões, sistemas de defesa e operações de inteligência dos Estados Unidos e de “Israel”. Se essas bases se tornam vulneráveis, toda a arquitetura militar imperialista na região fica comprometida.
A aproximação entre Irã e Omã no tema do Estreito de Ormuz é outro sinal importante. Omã está situado do outro lado do estreito e tem papel direto na organização da passagem. Ao reconhecer a necessidade de diálogo entre os países costeiros, o memorando enfraquece a tese imperialista de que a segurança do Golfo deve ser determinada por potências externas. A segurança do Estreito de Ormuz passa a ser apresentada como um problema dos países da região, principalmente daqueles que possuem soberania territorial sobre a passagem.
O memorando também estabelece que o acordo final será negociado em até 60 dias e referendado por uma resolução vinculante do Conselho de Segurança da ONU. Esse prazo mostra que a guerra não terminou no sentido mais amplo. O imperialismo vai tentar reorganizar sua posição.
O ponto decisivo é que os Estados Unidos só podem romper o acordo se encontrarem uma forma de resolver o problema militar que os levou à negociação: o controle iraniano sobre Ormuz e a capacidade iraniana de atingir bases norte-americanas e alvos sionistas. Sem resolver esse problema, qualquer nova ofensiva tende a recolocar o imperialismo no mesmo impasse, agora com o Irã ainda mais preparado.
A guerra Irã-Iraque, nos anos 1980, já mostrou que a República Islâmica não é um país que se dobra facilmente diante de uma ofensiva externa. Naquele momento, o Iraque de Saddam Hussein, armado e apoiado por potências estrangeiras, não conseguiu destruir o Irã. Hoje, o país é muito mais forte, possui capacidade tecnológica própria, rede regional de aliados e experiência militar acumulada. Uma campanha terrestre contra o Irã se transformaria em uma catástrofe para os Estados Unidos.
Por isso, a hipótese mais provável é que o imperialismo tente agir por outros meios. Pode financiar grupos internos, estimular conflitos políticos, usar sanções remanescentes como instrumento de pressão, apoiar sabotagens, fomentar divisões regionais e explorar setores conservadores da burguesia iraniana. Mas essas alternativas também ficaram mais difíceis. A vitória contra os Estados Unidos fortalece o regime iraniano diante da população, aumenta o prestígio do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica e dá novo impulso ao nacionalismo anti-imperialista no país.
O acordo também tem impacto na esquerda mundial. Uma vitória dessa magnitude deveria provocar comemoração entre todos os que se colocam contra o imperialismo. No entanto, grande parte da esquerda pequeno-burguesa permanece em silêncio ou trata o Irã com hostilidade. Essa posição decorre de sua adaptação ideológica ao imperialismo. Para esses setores, a República Islâmica não pode ser reconhecida como força progressiva no terreno da luta anti-imperialista porque não corresponde aos esquemas políticos aceitos nos círculos universitários e parlamentares da esquerda integrada ao regime burguês.
O silêncio diante da vitória iraniana mostra o grau de decomposição política dessa esquerda. Enquanto a imprensa burguesa dos Estados Unidos e de “Israel” admite, a contragosto, que o acordo favorece o Irã, setores que se dizem anti-imperialistas não conseguem sequer reconhecer o fato. Durante anos, aceitaram a propaganda imperialista contra a República Islâmica, apresentando o país como uma anomalia, uma ameaça ou um regime que deveria ser pressionado em nome de valores abstratos.
A vitória iraniana não é apenas uma vitória nacional. Ela altera a correlação de forças em toda a região. O povo palestino, o povo libanês, o povo iemenita e todos os povos oprimidos do Oriente Próximo saem fortalecidos. “Israel” sai enfraquecido. Os regimes árabes pró-imperialistas saem desmoralizados. Os Estados Unidos saem obrigados a negociar com um país que pretendiam quebrar.
A derrota norte-americana também serve de lição para outros países pressionados pelo imperialismo. Rússia e China certamente estudam os acontecimentos com atenção. A campanha iraniana mostrou que a superioridade tecnológica dos Estados Unidos pode ser neutralizada quando o adversário conhece seus pontos fracos, organiza sua defesa, atinge alvos estratégicos e vincula a guerra militar à pressão econômica mundial.
A guerra também mostrou que o imperialismo precisa pensar duas vezes antes de abrir novas frentes. Uma crise em Taiuã, uma escalada contra a Rússia ou uma agressão contra outro país oprimido podem encontrar uma máquina militar norte-americana mais desgastada, com estoques reduzidos e maior dificuldade de resposta. A guerra contra o Irã consumiu recursos que não podem ser repostos rapidamente. Os Estados Unidos saíram da crise com menos margem de manobra.





