A história da Revolução Iraniana mostra como um regime sustentado pelo imperialismo pode parecer sólido durante décadas e, em poucos meses, desmoronar diante da mobilização popular. Um dos acontecimentos decisivos desse processo foi a Sexta Negra, como ficou conhecido o massacre de 8 de setembro de 1978, na Praça Jaleh, em Teerã.
A Universidade Marxista realizará, entre os dias 27 de junho e 5 de julho, o curso A história do Irã e da República Islâmica, parte da Universidade de Férias de inverno da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR). A Sexta Negra e os principais episódios da Revolução Iraniana serão tratados em aula por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência da República.
A história daquele massacre não começou em 1978. Sua origem política está no golpe de 1953, organizado pela CIA e pelo serviço secreto britânico contra o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq. O crime de Mossadeq havia sido nacionalizar o petróleo iraniano, até então controlado pelos britânicos. Com o golpe, o Xá Mohamed Reza Pahlavi foi restabelecido no poder como ditador a serviço dos Estados Unidos e do Reino Unido.
A partir daí, o Irã passou por um longo período de repressão, entrega econômica e tentativa de impor ao país uma modernização subordinada ao imperialismo. A chamada Revolução Branca, lançada pelo Xá em 1963, foi apresentada como um programa de reformas, mas serviu para aprofundar a desorganização do campo, concentrar ainda mais o poder nas mãos da monarquia e submeter a economia iraniana aos interesses estrangeiros.
No mesmo ano, o aiatolá Ruholá Khomeini denunciou publicamente o Xá como marionete dos Estados Unidos. Foi preso e, em seguida, exilado. Durante mais de uma década, suas mensagens circularam clandestinamente pelo país, em gravações, sermões e textos distribuídos por redes religiosas e populares. Quando a crise do regime se agravou, essa rede serviu como uma das principais estruturas de organização da revolta.
Em janeiro de 1978, um jornal ligado ao governo publicou um artigo difamatório contra Khomeini. Estudantes religiosos da cidade de Qom protestaram. O exército abriu fogo, matou manifestantes e iniciou um ciclo de mobilizações que o regime já não conseguiria controlar.
A tradição xiita de realizar cerimônias de luto 40 dias após a morte de um mártir deu à mobilização um ritmo próprio. A cada repressão, novos mortos eram lembrados 40 dias depois. A cada cerimônia, novas manifestações ocorriam. O regime respondia novamente com violência, produzindo novos mártires e ampliando a revolta.
No começo de setembro de 1978, Teerã já estava tomada por manifestações gigantescas. Entre os dias 4 e 7, centenas de milhares de pessoas ocuparam as ruas da capital. A data coincidia com o fim do Ramadã, e as marchas assumiram um caráter popular, religioso e político. O povo denunciava a ditadura, o domínio estrangeiro e a repressão do Xá.
No dia 7 de setembro, uma imensa manifestação percorreu Teerã. Manifestantes entregaram flores aos soldados, organizaram cordões próprios e mostraram que a mobilização havia ultrapassado o controle da monarquia. Ao fim do ato, foi convocada uma nova concentração para a manhã seguinte, na Praça Jaleh, na zona leste da capital.
A resposta do Xá foi decretar lei marcial. A decisão foi tomada durante a madrugada de 8 de setembro, em uma reunião de emergência do governo. O general Gholam Ali Oveisi, conhecido pela brutalidade, foi nomeado governador militar de Teerã. O decreto proibia reuniões públicas e autorizava o uso da força contra aglomerações.
O problema para o regime é que a população quase não foi informada. O aviso foi lido pela rádio apenas no início da manhã, quando milhares de pessoas já se dirigiam para a Praça Jaleh. Para o governo, tratava-se de uma reunião ilegal sob lei marcial. Para os manifestantes, era a continuação das marchas dos dias anteriores.
A Praça Jaleh ficava em uma região operária e popular de Teerã. A área era habitada por trabalhadores, pequenos comerciantes, famílias religiosas e migrantes do interior atingidos pela política econômica do Xá. As ruas estreitas em torno da praça dificultavam a saída de uma multidão numerosa.
Desde cedo, milhares de pessoas se reuniram no local. Havia forte presença de mulheres, muitas delas usando o chador, além de trabalhadores e jovens. A multidão estava desarmada. Parte dos manifestantes sentou-se no chão, convencida de que o exército não atiraria contra civis naquela situação.
As tropas, no entanto, cercaram a praça. O regime não enviou uma força preparada para dispersar protestos, mas soldados armados para guerra. O exército do Xá havia sido equipado com bilhões de dólares do petróleo, comprando armamentos norte-americanos, britânicos e alemães. Na Praça Jaleh, esses equipamentos foram apontados contra a própria população iraniana.
Depois dos avisos para dispersão, vieram os disparos. A repressão transformou a praça em um cenário de pânico. As pessoas tentaram fugir pelas ruas laterais, mas encontraram bloqueios militares. Hospitais de Teerã receberam feridos em grande quantidade, enquanto a polícia política do Xá procurava impedir que o tamanho do massacre fosse conhecido.
O governo admitiu 86 mortos. A oposição denunciou milhares.
A tentativa do regime de ocultar o crime teve o efeito contrário. Em vez de intimidar a população, a Sexta Negra destruiu o que restava de confiança na monarquia. A partir daquele dia, qualquer negociação para manter o Xá no poder passou a ser vista como cumplicidade com o massacre.
Antes de 8 de setembro, setores moderados da oposição ainda defendiam uma solução intermediária, com o Xá mantido no trono e seus poderes reduzidos. Depois da Sexta Negra, essa saída se mostrou inviáel. A palavra de ordem que ganhou as ruas foi a derrubada total da monarquia.
O massacre também atingiu o próprio exército. Grande parte dos soldados era formada por jovens pobres, vindos de famílias religiosas e populares. A ordem de atirar contra manifestantes desarmados aprofundou a crise dentro das Forças Armadas. Nos meses seguintes, aumentaram as deserções e a recusa em reprimir a população.
Ao mesmo tempo, a classe operária entrou em cena de maneira decisiva. As greves na indústria do petróleo, setor central da economia iraniana, paralisaram o regime. Sem o petróleo, o Xá perdeu sua principal fonte de recursos. Sem confiança nas tropas, perdeu sua principal força de repressão. Sem qualquer apoio popular, restou apenas o apoio das potências imperialistas.
Quatro meses depois da Sexta Negra, em 16 de janeiro de 1979, Mohamed Reza Pahlavi fugiu do Irã. Em 1º de fevereiro, Khomeini retornou do exílio, recebido por milhões de pessoas. No dia 11 de fevereiro, o alto comando das Forças Armadas declarou neutralidade, e a monarquia caiu definitivamente.
Após a vitória da Revolução, a Praça Jaleh foi rebatizada como Praça Shohada, a Praça dos Mártires. A mudança de nome expressa a importância histórica daquele dia. A Sexta Negra não foi apenas mais um episódio de repressão. Foi o momento em que a ditadura criada pelo golpe imperialista de 1953 perdeu a possibilidade de se manter de pé.
A Revolução Iraniana é um dos acontecimentos mais importantes do século XX. Ela derrubou uma ditadura armada, financiada e protegida pelo imperialismo norte-americano e britânico. Mostrou que um regime aparentemente invencível pode ser derrotado quando a mobilização popular atinge as bases econômicas, políticas e militares do poder.
A Sexta Negra é uma das chaves para entender esse processo. Ela mostra como a repressão, quando a crise política já está madura, pode acelerar a queda de um regime. Mostra também o papel dos mártires, das greves, da organização popular e da luta contra a dominação estrangeira na formação do Irã contemporâneo.
Essa história será tratada no curso A história do Irã e da República Islâmica, ministrado por Rui Costa Pimenta na Universidade de Férias de inverno da AJR. O curso abordará desde o golpe de 1953 até a Revolução de 1979, passando pela ditadura do Xá, a repressão, a mobilização popular e a formação da República Islâmica.
As inscrições podem ser feitas pelo sítio unimarxista.org.br ou pelo telefone (11) 99741-0436.





