A crise na Bolívia entrou em uma nova etapa. Depois de mais de um mês de greves, bloqueios de estradas e mobilizações populares, o governo de Rodrigo Paz perdeu os ministros da Defesa, Marcelo Salinas, e da Educação, Beatriz García. Antes deles, já havia caído o ministro do Trabalho, Edgar Morales. Em poucos dias, três baixas no gabinete revelaram que o governo está na defensiva diante da pressão das massas.
Trabalhadores, camponeses, professores, sindicatos e setores populares conseguiram paralisar regiões inteiras do país e impor uma crise política real ao regime. As mobilizações, impulsionadas pela COB e por organizações ligadas ao movimento popular, exigem a reversão das medidas de austeridade e, cada vez mais, a saída do presidente.
A Bolívia mostra, na prática, que a luta política não se decide no parlamento ou na confiança nas “instituições democráticas”. Quando o regime ataca o povo, privatiza, entrega o país e ameaça lançar as Forças Armadas contra os trabalhadores, a resposta só pode vir das ruas, das greves, dos bloqueios e da organização direta das massas.
Essa é a grande lição boliviana. Enquanto a esquerda pequeno-burguesa brasileira trata qualquer mobilização profunda como “instabilidade”, “radicalismo” ou “ameaça à democracia”, o povo boliviano demonstra o contrário: a verdadeira democracia aparece quando os explorados entram em cena e obrigam o governo a recuar.
A tentativa de recorrer ao estado de exceção e à militarização mostra a fraqueza do governo, não sua força. Um governo que precisa das Forças Armadas para abrir estradas bloqueadas por trabalhadores e camponeses já perdeu a autoridade política. Pode ainda reprimir, pode ainda manobrar, pode ainda contar com a imprensa e com o apoio externo, mas está claramente na defensiva.
É justamente neste ponto que a esquerda brasileira deveria aprender. Não há saída progressista pela conciliação permanente com a direita. Não há defesa dos trabalhadores quando se coloca a estabilidade do regime acima da mobilização popular. A experiência boliviana mostra que, em uma situação de crise, a única força capaz de derrotar governos entreguistas e neoliberais é a ação independente das massas.





