Iraque

Milícias xiitas criticam grupo que capitulou e entregou as armas

Um porta-voz ligado à milícia Saraya Awliya al-Dam afirmou que não haverá conversa sobre largar ou entregar armas enquanto a opressão e a ocupação do Iraque não terminarem

Facções xiitas armadas criticaram a organização Asaib Ahl al-Haq por aceitar entregar armas ao governo do Iraque, na terça-feira (2), em meio a uma pressão crescente para concentrar o armamento nas mãos do Estado. A decisão abriu uma divisão entre grupos ligados à resistência iraquiana, pois parte deles considera a entrega das armas uma capitulação diante dos EUA e de seus aliados. A disputa ocorre no início do governo do primeiro-ministro Ali al-Zaidi, que colocou o controle estatal das armas como uma de suas principais metas.

A milícia Asaib Ahl al-Haq, uma das maiores forças xiitas armadas do Iraque, anunciou a formação de um comitê para conduzir o processo de entrega. O grupo disse que o comitê fará inventário de combatentes, armas, veículos e equipamentos, além de organizar a comunicação com o comandante-em-chefe das Forças Armadas. A decisão foi apresentada como resposta a apelos da principal autoridade religiosa xiita do Iraque e do Marco de Coordenação, bloco alinhado ao Irã que domina a política parlamentar iraquiana.

As Brigadas Imam Ali também anunciaram posição semelhante e defenderam que chegou a hora de construir um Estado forte, com plena soberania, no qual as armas estejam apenas sob controle estatal. A adesão de dois grupos importantes deu força ao plano do governo, mas também provocou reação de facções que rejeitam abrir mão de seu arsenal enquanto houver tropas estrangeiras no país.

Kataib Hesbolá e Harakat al-Nujaba estão entre as organizações que recusaram o desarmamento. Elas vinculam a posse de armas à soberania iraquiana e à presença militar estrangeira. Kataib Hesbolá chegou a saudar a decisão de outras facções que aceitaram colocar armas sob autoridade estatal, mas afirmou que continuará sua atividade armada como parte do trabalho de resistência. O grupo propôs coordenar suas ações com as Forças de Mobilização Popular (FMP), em vez de entregar totalmente seu arsenal.

A crítica das milícias resistentes se apoia na ideia de que as armas foram decisivas contra o grupo Estado Islâmico e seguem necessárias diante da presença dos EUA e de ameaças regionais. Um porta-voz ligado à milícia Saraya Awliya al-Dam afirmou que não haverá conversa sobre largar ou entregar armas enquanto a opressão e a ocupação do Iraque não terminarem. A frase expressa a posição dos grupos que tratam o desarmamento como concessão política e não como simples reorganização institucional.

A divisão se tornou mais visível após Muqtada al-Sadr anunciar, uma semana antes, que sua milícia Saraya al-Salam, conhecida como Brigadas da Paz, seria separada de seu movimento político e integrada às instituições do Estado. A decisão de Sadr pressionou outras organizações xiitas a se posicionarem sobre o futuro de seus arsenais, em um momento em que o novo governo tenta mostrar capacidade de controle sobre forças que, embora recebam recursos estatais, mantêm comandos próprios.

As FMP foram criadas em 2014 para combater o Estado Islâmico, quando o grupo ocupou grandes áreas do Iraque. Desde então, muitas formações permaneceram dentro da estrutura de segurança, mas conservaram lealdades políticas, redes próprias de comando e relações com o Irã. Essa situação gerou uma disputa permanente entre a integração formal ao Estado e a autonomia prática das facções.

A pressão dos EUA pesa sobre o processo. A administração Trump advertiu contra um governo iraquiano influenciado por grupos ligados ao Irã e relacionou cooperação militar e financiamento à contenção dessas forças. O novo primeiro-ministro Ali al-Zaidi, empossado no mês passado, assumiu o compromisso de estabelecer o monopólio estatal das armas, mas enfrenta resistência tanto no campo militar quanto no político.

A milícia Asaib Ahl al-Haq tem também braço político, o partido Sadiqoun, que obteve 27 cadeiras nas eleições de novembro de 2025. A possibilidade de controlar ministérios tornou a discussão sobre armas ainda mais sensível. Analistas apontam que a disposição de entregar arsenais pode reduzir a oposição dos EUA à participação política do grupo, embora não esteja claro se o gesto significará perda real de controle sobre brigadas vinculadas às FMP.

A crítica das milícias xiitas, portanto, não se limita ao gesto do grupo paramilitar Asaib Ahl al-Haq. Ela expressa uma disputa maior sobre soberania, presença estrangeira, influência iraniana, cargos no governo e futuro das FMP. Para os grupos que rejeitam a entrega, depor armas sem a saída das tropas estrangeiras equivale a aceitar a ordem imposta pelos EUA.

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