O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), reuniu em torno de sua candidatura todos os partidos que apoiaram o tucano Rodrigo Garcia em 2022. Com a adesão do MDB, do Podemos e da federação União Progressista, além da manutenção das alianças com PL e PSD, Tarcísio quase triplicou seu tempo de propaganda no rádio e na televisão. Segundo projeção do Estadão, o governador terá 71% do horário eleitoral gratuito na disputa estadual, contra 29% do petista Fernando Haddad.
O antigo bloco tucano apenas mudou de endereço. O PSDB, que governou São Paulo durante quase 30 anos consecutivos, faliu como partido, mas seus aliados, seus políticos e seu programa permanecem de pé no estado. O próprio Rodrigo Garcia filiou-se ao Republicanos e passou a apoiar Tarcísio. As legendas que sustentaram os governos tucanos durante décadas migraram em bloco para a candidatura do atual governador.
A mudança não exigiu nenhuma adaptação política. Tarcísio governa São Paulo com o mesmo programa aplicado pelo PSDB durante quase três décadas: privatizações, sucateamento, entrega dos serviços públicos aos grandes grupos empresariais e repressão contra a população pobre.
O maior exemplo é a Sabesp. A maior companhia de saneamento do País foi privatizada em 2024, entregando a água e o esgoto de dezenas de milhões de paulistas ao controle de investidores privados. Os efeitos não demoraram a aparecer. No início de 2025, um vazamento de esgoto contribuiu para o surto de virose que atingiu milhares de pessoas na Baixada Santista. Em 2026, uma explosão em uma obra da empresa no bairro do Jaguaré, na capital paulista, voltou a expor a deterioração dos serviços depois da privatização.
Tarcísio apenas levou adiante o trabalho iniciado pelos tucanos.
O segundo pilar do governo é a repressão policial. Entre julho de 2023 e abril de 2024, as Operações Escudo e Verão, realizadas pela Polícia Militar sob o comando do então secretário Guilherme Derrite, mataram 84 pessoas na Baixada Santista.
Relatório do Instituto Vladimir Herzog apontou que 82% dos mortos eram homens negros, pobres e jovens, além de reunir denúncias de tortura e execução. A Defensoria Pública e a Conectas denunciaram o Estado brasileiro à Comissão Interamericana de Direitos Humanos pelas violações cometidas durante as operações.
O bolsonarismo de Tarcísio, seus gestos à família Bolsonaro e seu apoio ao presidente norte-americano Donald Trump são apenas a forma atual do velho programa tucano. Privatização e violência policial sempre estiveram no centro dos governos do PSDB em São Paulo.
Fernando Haddad procura apresentar-se como adversário desse governo. Em uma crítica despolitizada, o petista classificou a gestão de Tarcísio como “frouxa, pouco transparente e pouco fiscalizada” e procurou associá-la a Flávio Bolsonaro e ao apoio dado a Trump.
Ao mesmo tempo, declarou que gostaria de ver o PSDB “voltar a existir”. Chamou Mário Covas, Geraldo Alckmin, José Serra e Fernando Henrique Cardoso de “grandes quadros”, afirmou que petistas e tucanos partilham “um solo comum de conceitos e de valores” e lamentou a inexistência de “um partido de centro-direita viável” no País. Conhecido como o mais tucano dos petistas, Haddad afirmou ainda que “a boa tradição do tucanato” estaria ao seu lado.
Haddad sente saudade justamente do partido cujo programa Tarcísio executa em São Paulo. Foram os governos de Covas, Alckmin, Serra e Rodrigo Garcia que privatizaram empresas estaduais, terceirizaram serviços públicos e lançaram a Tropa de Choque contra greves, ocupações estudantis e mobilizações populares. A privatização da Sabesp e a carnificina na Baixada Santista são a continuação dessa política.
A oposição de Haddad a Tarcísio não é uma oposição de programa. Ele ataca o governador como representante do bolsonarismo, mas reivindica o PSDB, partido que preparou o terreno para o atual governo paulista.
Haddad briga com o rótulo e abraça o programa. Quer derrotar Tarcísio nas urnas, mas defende os políticos, os partidos e os interesses de classe que sustentam seu governo.





