Os Correios divulgaram um prejuízo líquido de R$ 3,16 bilhões apenas no primeiro trimestre de 2026, quase o dobro das perdas registradas no mesmo período do ano anterior. O resultado não representa um episódio isolado, mas a continuidade de uma deterioração que já se arrasta há anos. A estatal acumula 14 trimestres consecutivos de resultados negativos e encerrou 2025 com um déficit histórico de R$ 8,5 bilhões. O novo balanço revela que a empresa, responsável por uma das maiores redes logísticas do País, atravessa uma crise profunda que combina queda de receitas, aumento do endividamento e uma política governamental incapaz de enfrentar a ofensiva contra o patrimônio público.
Durante décadas, os Correios foram reconhecidos como uma das instituições mais eficientes do Estado brasileiro. Com presença em praticamente todos os municípios do País, a empresa construiu uma infraestrutura logística gigantesca, financiada pelo investimento público e pelo trabalho de gerações de trabalhadores. Essa estrutura permitiu integrar regiões isoladas, garantir serviços essenciais e sustentar atividades econômicas que dificilmente seriam atendidas pelo setor privado em função de sua baixa rentabilidade. Entretanto, sucessivos governos submeteram a estatal a políticas de sucateamento, restrição de investimentos e abertura de mercados estratégicos à iniciativa privada, criando as condições para a crise atual.
O golpe mais severo contra as finanças da empresa veio da chamada “taxa das blusinhas”, medida implantada por meio do programa Remessa Conforme. A tributação de compras internacionais de até US$ 50 foi apresentada como uma forma de aumentar a arrecadação e combater supostas distorções concorrenciais. Na prática, porém, provocou uma forte retração das importações de pequeno valor, justamente um dos segmentos que mais haviam crescido nos últimos anos e que se tornara uma importante fonte de receita para os Correios. A própria empresa estimou que a medida lhe retirou cerca de R$ 2,2 bilhões em receitas apenas em 2024.
Os números do primeiro trimestre de 2026 evidenciam esse impacto. As receitas provenientes das encomendas internacionais despencaram mais de 60%, passando de R$ 393 milhões para apenas R$ 156 milhões. Um setor que chegou a representar mais de um quinto do faturamento da estatal foi reduzido a menos de 8% da receita total. A queda não decorreu apenas da diminuição das compras internacionais. O novo modelo também abriu espaço para que transportadoras privadas ampliassem sua participação nesse mercado, retirando dos Correios uma atividade que historicamente esteve sob sua responsabilidade. O resultado foi uma combinação explosiva: menos encomendas, menos receitas e maior concorrência privada sobre uma empresa já fragilizada.
Enquanto a estatal perdia faturamento, o governo comemorava o aumento da arrecadação tributária. Dados citados no material mostram que a cobrança sobre as importações elevou significativamente a receita fiscal, ao mesmo tempo em que reduziu o volume de encomendas internacionais e enfraqueceu a principal operadora logística pública do País. Em outras palavras, a política arrecadatória foi implementada sem qualquer preocupação com seus efeitos sobre os Correios, apesar de a empresa desempenhar um papel estratégico para a integração nacional.
A crise financeira também foi agravada pelo aumento explosivo das despesas financeiras. Para sustentar um plano de reestruturação, a estatal contraiu um empréstimo bilionário, cujos custos de juros projetados ultrapassam R$ 22 bilhões. Ao mesmo tempo, provisões relacionadas a passivos trabalhistas retornaram ao balanço após questionamentos dos órgãos de controle, ampliando ainda mais a pressão sobre as contas da empresa. Embora esses fatores expliquem parte do resultado negativo, eles não alteram o fato central: a destruição das fontes de receita dos Correios vem ocorrendo em paralelo à adoção de medidas que favorecem a expansão do setor privado sobre áreas anteriormente ocupadas pela estatal.
Diante desse cenário, a resposta apresentada pela administração segue o roteiro tradicional das políticas de ajuste. O plano inclui venda de imóveis, redução de custos, programas de demissão voluntária e novas reestruturações internas. Já se observa uma diminuição dos gastos com pessoal decorrente dos cortes implementados nos últimos anos. A experiência brasileira e internacional demonstra que esse tipo de política raramente fortalece empresas públicas. Pelo contrário, costuma reduzir sua capacidade operacional, enfraquecer o atendimento à população e preparar o terreno para futuras privatizações.
O aspecto mais grave é que a crise dos Correios vem sendo utilizada como argumento pelos mesmos setores que há décadas defendem a entrega da empresa ao capital privado. Depois de promover medidas que reduziram receitas, ampliaram a concorrência privada e limitaram a capacidade de investimento da estatal, esses grupos apresentam o prejuízo como prova da suposta inviabilidade da empresa pública. Em seguida, defendem cortes de pessoal, venda de patrimônio e privatização como soluções inevitáveis. Trata-se de uma lógica conhecida: primeiro enfraquece-se a empresa; depois, utiliza-se o enfraquecimento como justificativa para sua liquidação.
Nesse contexto, a postura do governo Lula revela uma profunda adaptação à agenda privatista. Embora tenha sido eleito com o apoio de amplos setores contrários às privatizações promovidas nos últimos anos, o governo não apenas manteve a “taxa das blusinhas”, como também preservou a lógica de abertura de mercados e de reestruturação empresarial baseada em cortes e alienação de patrimônio. Em vez de fortalecer os Correios como instrumento de desenvolvimento nacional, ampliando investimentos e protegendo suas atividades estratégicas, a administração federal aceitou medidas que contribuíram diretamente para o agravamento da crise.
A situação dos Correios ultrapassa, portanto, a discussão sobre um simples balanço financeiro. O que está em jogo é o destino de uma das maiores empresas públicas do País, construída com recursos da população e responsável por serviços que o mercado privado jamais assumiria de forma universal. A crise atual demonstra que a chamada “taxa das blusinhas” não foi apenas uma medida tributária. Para uma empresa que já vinha enfraquecida por anos de ataques, ela representou um golpe decisivo, um verdadeiro tiro no coração de uma estrutura logística estratégica para o Brasil. A continuidade dessa política tende a aprofundar o sucateamento da estatal e a fortalecer as pressões daqueles que pretendem transformar um patrimônio nacional em mais uma oportunidade de negócios privados.



