O Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI) apreendeu nesta quarta-feira (22), nas proximidades do Estreito de Ormuz, duas embarcações cargueiras que violaram reiteradamente as regras impostas pela República Islâmica para a navegação na região. Segundo a força naval iraniana, os navios MSC Francesca e Epaminondas foram interceptados e conduzidos a águas territoriais iranianas para inspeção da carga e da documentação.
A medida foi anunciada poucas horas após o presidente norte-americano Donald Trump declarar, de maneira unilateral, a extensão do cessar-fogo mediado pelo Paquistão. Ao mesmo tempo, porém, os Estados Unidos mantiveram a política de bloqueio contra portos e navios iranianos, medida que o Irã classifica como ato de guerra e violação direta dos termos da trégua.
De acordo com a nota divulgada pelo CGRI, as duas embarcações operavam sem autorização, haviam cometido repetidas infrações, adulterado sistemas de auxílio à navegação e colocado em risco a segurança marítima no estreito. A força iraniana afirmou ainda que os navios tentavam deixar a área de forma encoberta. No caso do MSC Francesca, a nota sustenta que a embarcação pertence à ocupação sionista.
A apreensão se insere no novo regime adotado pelo Irã sobre Ormuz. Dias após o início da guerra norte-americana e sionista contra a República Islâmica, em 28 de fevereiro, a República Islâmica passou a exigir autorização prévia para a travessia da hidrovia. Um projeto em tramitação no parlamento iraniano prevê transformar essas regras em lei, com proibição explícita a embarcações ligadas a “Israel”, exigência de autorização para navios de países hostis e cobrança de taxas de trânsito.
Mais cedo, autoridades britânicas de monitoramento marítimo já haviam informado que duas embarcações comerciais foram paradas na região, uma delas em incidente envolvendo uma lancha associada ao CGRI. Posteriormente, órgãos iranianos confirmaram que os dois navios haviam sido imobilizados e colocados sob controle das forças iranianas.
Em conversa telefônica com o ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, o chanceler iraniano Abbas Araghchi afirmou que as condições atuais no estreito são consequência da “ilegalidade” norte-americana e dos ataques militares contra um Estado soberano membro da Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo ele, cabe aos agressores a responsabilidade pelos efeitos econômicos e securitários da crise.
O porta-voz da chancelaria iraniana, Esmaeil Baghaei, declarou que o Irã continua disposto a recorrer à diplomacia, mas apenas quando existirem “condições necessárias e racionais” para que esse instrumento sirva aos interesses nacionais. A formulação mostra que o Irã não reconhece a extensão do cessar-fogo anunciada por Trump como base suficiente para qualquer distensão, sobretudo enquanto o bloqueio naval permanecer em vigor.
Na prática, a apreensão dos navios mostra que o Irã decidiu responder no terreno à combinação entre pressão militar e manobra diplomática dos Estados Unidos. O governo norte-americano tenta apresentar a prorrogação da trégua como gesto de moderação, mas preserva justamente o principal mecanismo de asfixia econômica empregado contra a República Islâmica: a obstrução do comércio marítimo iraniano.
Esse impasse já vinha se agravando desde 18 de abril, quando o CGRI anunciou o fechamento de Ormuz até que o bloqueio fosse suspenso. Na ocasião, a força advertiu que nenhuma embarcação deveria avançar em direção ao estreito e que qualquer movimento nesse sentido poderia ser interpretado como cooperação com o inimigo. Agora, com a detenção de dois cargueiros, o governo revolucionário dá um passo além da advertência e demonstra que está disposto a impor materialmente suas regras de trânsito. A importância de Ormuz amplia o alcance internacional da medida. Cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia passam normalmente pela via marítima, além de grandes volumes de gás natural liquefeito.
Também nesta quarta-feira (22), em nota pelo aniversário de criação do CGRI, a corporação declarou estar pronta para produzir acontecimentos “chocantes” no campo de batalha e para responder de forma imediata a qualquer repetição da agressão inimiga.





