O Irã advertiu neste domingo que não recuará diante das ameaças dos Estados Unidos e que novos ataques contra sua infraestrutura atingirão também os países envolvidos na agressão. A declaração foi feita pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmaeil Baghaei, em meio a novas ameaças do presidente norte-americano, Donald Trump.
“Todos os amigos e países vizinhos devem entender que as consequências de qualquer ataque dos Estados Unidos contra a infraestrutura iraniana afetarão a todos”, afirmou Baghaei.
A advertência é dirigida principalmente aos governos que mantêm bases e tropas norte-americanas em seus territórios. Desde o início da guerra, instalações no Cuaite, Barein, Catar e Jordânia vêm sendo utilizadas pelas forças dos EUA e, por isso, passaram a ser atingidas pelas operações iranianas.
Baghaei afirmou ainda que as conversações mantidas pelo Irã com autoridades do Paquistão e da Turquia tiveram como objetivo deixar claro a Washington que qualquer ataque receberá uma resposta.
Segundo o porta-voz, Teerã não mudará suas posições por causa de ameaças ou de pressão da imprensa. Ele lembrou que Washington passou os últimos dois anos ameaçando o país e já desencadeou duas guerras sem conseguir impor seus objetivos.
Trump inventa acordo sobre Ormuz
No mesmo dia, Teerã desmentiu uma declaração de Trump segundo a qual o Irã teria pedido aos Estados Unidos que suspendessem um ataque porque os termos de um acordo já estariam definidos.
Em publicação na rede Truth Social, Trump afirmou que os EUA estavam “armados e prontos” para atacar a República Islâmica, mas teriam sido procurados pelo Irã e por outros países da região. Segundo ele, o suposto entendimento incluiria a “abertura imediata, completa e total” do Estreito de Ormuz e medidas contra o programa nuclear iraniano.
A versão foi rejeitada por Teerã. Segundo a agência Fars, não existe acordo para a abertura do estreito nem foi aceita uma proposta apresentada com apoio do Catar.
A agência também classificou como falsa uma informação divulgada pelo Canal 12 de “Israel” de que o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, teria concordado com os termos apresentados.
A política iraniana para Ormuz permanece a mesma. A circulação de embarcações é permitida apenas pelas rotas determinadas pelas autoridades do país e sob autorização da Marinha do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI).
‘Não voltará a ser como antes’
Baghaei explicou que as negociações entre Irã e Omã sobre o Estreito de Ormuz são bilaterais e não envolvem terceiros. Segundo ele, as conversações tratam da criação de um mecanismo que garanta os interesses iranianos na passagem marítima e já vinham ocorrendo anteriormente.
O porta-voz também rejeitou a apresentação das discussões como uma negociação para simplesmente “abrir” ou “fechar” Ormuz. Teerã responsabiliza o bloqueio naval norte-americano pelos obstáculos criados à navegação durante a guerra.
De acordo com Baghaei, o quinto ponto do memorando firmado anteriormente estabelece que a futura gestão do estreito caberá ao Irã, em consulta com Omã e com os demais países da área.
Nas primeiras três semanas após a entrada em vigor do acordo, a passagem norte permaneceu segura para a navegação. Havia um prazo de 30 dias para que o tráfego marítimo retomasse os níveis anteriores à guerra, mas os Estados Unidos voltaram a atacar o Irã antes de seu término.
Baghaei deixou claro que, depois disso, não há possibilidade de simplesmente restaurar a situação existente antes da agressão. O controle iraniano sobre uma das principais rotas de transporte de petróleo do mundo tornou-se um dos pontos centrais do confronto com Washington.
Países que apoiarem EUA serão atingidos
O comandante do Quartel-General Central Khatam al-Anbiya, major-general Ali Abdollahi, foi ainda mais explícito ao falar dos países que permitem que suas instalações sejam usadas pelos norte-americanos.
“Declaramos francamente que os países islâmicos devem agir com prudência, observar os crimes dos Estados Unidos e reconsiderar sua cooperação e seu acompanhamento. Caso contrário, qualquer país que se transforme em escudo defensivo dos Estados Unidos criminosos e agressores queimará nas chamas da guerra”, declarou.
A ameaça já tem consequências concretas. As forças iranianas vêm atacando sistematicamente bases utilizadas pelos EUA para manter caças, drones, radares, depósitos de combustível, centros de comunicação e tropas na região.
Abdollahi afirmou que os ataques alteraram a situação militar e obrigaram os norte-americanos a calcular o preço humano de permanecer na guerra.
“Os norte-americanos e seus representantes compreenderam agora que os caixões precisam ser contabilizados entre seus suprimentos militares na região”, afirmou.
O general acrescentou, citando Saied Ali Khamenei, que terminou a época em que Washington podia atacar um país e sair sem sofrer represálias.
Pelo menos 170 militares com traumatismos
Novos dados sobre as baixas norte-americanas mostram o alcance das operações iranianas.
Segundo informações obtidas pelo veículo militar The War Horse, pelo menos 170 militares dos EUA sofreram traumatismos cranianos nos ataques realizados pelo Irã entre o início da guerra e os primeiros dias de abril.
Dos casos divulgados, 64 ocorreram na Marinha, 51 na Força Aérea e 19 no Corpo de Fuzileiros Navais.
Um dos ataques mais graves ocorreu em 1º de março, quando um drone iraniano atingiu o centro de operações militares norte-americano no porto de Shuaiba, no Cuaite. Seis militares morreram e um coronel do Exército sofreu uma concussão.
A ABC News havia informado anteriormente que o número total de baixas militares norte-americanas na guerra chegou a 653, entre elas 64 oficiais de alta patente.
Irã mantém ataques às bases
As operações contra instalações militares dos EUA prosseguiram nos últimos dias.
Na sexta-feira, o Exército iraniano anunciou a 27ª etapa da Operação Saeqeh. Drones atingiram hangares de caças, sistemas de comunicação por satélite e depósitos de equipamentos na Base Aérea Ahmad al-Jaber, no Cuaite.
A operação respondeu a bombardeios norte-americanos contra o território iraniano, entre eles um ataque contra uma residência na ilha de Qeshm.
No dia anterior, o Exército atingiu geradores de energia, sistemas de navegação e prédios da Base Aérea Sheikh Isa, no Barein. O CGRI atacou ainda a Base Aérea Ali Al Salem, no Cuaite, onde foram atingidos hangares de drones e um depósito de combustível.
Na Jordânia, mísseis balísticos iranianos atingiram a Base Aérea Muwaffaq Salti, utilizada pelas forças norte-americanas. Imagens de satélite divulgadas após o bombardeio indicaram danos a caças F-35 dos Estados Unidos estacionados na instalação.





