O presidente Lula anunciou, na convenção do PT que oficializou sua candidatura ao quarto mandato, que não pretende mais ser o “Lulinha paz e amor”. Agora, segundo ele próprio, quer ser o “Lula porreta”. O problema é saber contra quem será usado o tal porrete.
Lula falou em soberania nacional, criticou Donald Trump, prometeu enfrentar o Congresso pelas emendas parlamentares, disse que a extrema direita não pode voltar ao governo e chegou a afirmar que o Brasil precisa estar preparado militarmente para impedir uma agressão estrangeira. Tudo isso seria muito interessante se o governo não tivesse Geraldo Alckmin como vice-presidente. Lula sobe ao palanque dizendo que pretende enfrentar a direita, enquanto governa ao lado de um dos principais representantes históricos dessa mesma direita.
Alckmin não apareceu de repente na política brasileira. Foi durante décadas um dos principais dirigentes do PSDB, partido que governou São Paulo como representante direto dos grandes capitalistas e que esteve no centro da ofensiva neoliberal contra os trabalhadores.
Foi adversário de Lula na eleição presidencial de 2006. Governou São Paulo com uma política de repressão contra professores, estudantes e trabalhadores. Participou do bloco político que sustentou os ataques ao PT durante anos e pertence ao setor da burguesia que o próprio petismo dizia combater.
Hoje é vice de Lula. Então é inevitável perguntar: esse “Lula porreta” vai dar porretada em quem?
Lula afirmou que não quer repetir o “paz e amor” e que seu quarto mandato precisaria representar um “salto de qualidade”. Mas a política que levou ao terceiro mandato foi justamente construída com base no “paz e amor” levado ao extremo. Para derrotar Bolsonaro, o PT formou uma frente com setores tradicionais da direita, colocou Alckmin como vice e apresentou essa aliança como necessária para “defender a democracia”.
O resultado está aí. O governo passou três anos liberando emendas, entregando ministérios e evitando qualquer confronto sério com o Congresso. Agora Lula promete que “vai ter briga por emenda”. Mas como combater o domínio da direita sobre o regime político mantendo uma aliança justamente com representantes dessa direita?
Não se governa com Alckmin na segunda-feira e se faz revolução contra a burguesia na terça. Outro ponto destacado no discurso foi a defesa da soberania nacional. Lula denunciou o interesse dos Estados Unidos nas riquezas brasileiras, mencionou terras raras e minerais estratégicos e afirmou que “tem muita gente metendo os dedos em nossas terras”.
Correto. Mas a soberania nacional não é uma palavra de ordem abstrata. Ela exige enfrentar interesses econômicos concretos. As grandes empresas estrangeiras, os bancos, o agronegócio exportador e os setores da burguesia brasileira ligados ao imperialismo não vão abandonar seus interesses porque Lula fez um discurso. E é precisamente com setores dessa burguesia que o governo está aliado.
Alckmin hoje não é um detalhe decorativo da chapa. Ele representa uma política. Sua presença foi apresentada desde o início como garantia de que um novo governo Lula não romperia com os interesses fundamentais do grande capital. O problema do “Lula porreta”, portanto, começa dentro de casa.
Lula também defendeu mais investimentos nas Forças Armadas e declarou que a esquerda deveria superar o “trauma da ditadura militar”. Há aí outro problema evidente. Não foi um fantasma da ditadura militar que conspirou contra Lula nos últimos anos. Foram militares de carne e osso. O governo Bolsonaro militarizou o Estado em escala gigantesca. Generais participaram diretamente do governo e setores das Forças Armadas estiveram envolvidos nas articulações golpistas posteriores à eleição de 2022.
O fortalecimento da defesa nacional contra o imperialismo é uma necessidade real. Mas isso é muito diferente de simplesmente colocar mais dinheiro nas mãos da casta militar brasileira. Sem combater politicamente o caráter golpista e reacionário das Forças Armadas, o aumento de verbas pode acabar fortalecendo justamente aqueles que ameaçam o próprio governo.




