Eleições 2026

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Transformar Trump na origem da ofensiva dos EUA, César Fonseca apaga a política de Biden e apresenta como ruptura antineoliberal medidas que o governo Lula ainda não realizou

imperialismo eua

No artigo Quarto mandato Lulista: fim do austericídio neoliberal para enfrentar a guerra de Trump”publicado no Brasil 247 neste sábado (19), César Fonseca procura apresentar a eleição presidencial brasileira como um confronto entre um Lula que estaria rompendo com o neoliberalismo e uma ofensiva externa comandada por Donald Trump. O texto chega a definir o presidente brasileiro como a “esperança dos povos” contra a chamada “guerra trumpista”.

Fonseca afirma que Lula teria decidido “confrontar a onda neoliberal” existente dentro de sua própria equipe econômica. Como prova, apresenta os discursos recentes do presidente, já no apagar das luzes, contra os juros elevados e contra a obsessão pelo superávit primário.

Gabriel Galípolo, que mantém os juros elevadíssisimo, foi escolhido por Lula, que antes de indicá-lo à presidência do Banco Central havia feito elogios extraordinários ao economista. Em junho de 2024, declarou: “O Galípolo é um menino de ouro. Se tem um menino de ouro é Galípolo”, acrescentando que ele era “competentíssimo”.

Como responsabilizar uma suposta infiltração neoliberal na equipe econômica nessa situação? E o mesmo problema aparece na questão fiscal. Fonseca comemora a declaração de Lula de que a obsessão pelo superávit primário seria uma “babaquice”. Mas o Projeto de Orçamento para 2027 apresentado pelo próprio governo prevê meta fiscal correspondente a superávit de 0,5% do PIB. O centro da meta é R$ 73,2 bilhões e o resultado ajustado projetado pelo governo chega a R$ 83,4 bilhões.

Se há uma ruptura com essa política, ela ainda precisa aparecer nas medidas tomadas pelo governo.

O reajuste de 15% do Bolsa Família, outra evidência utilizada por Fonseca para sustentar sua tese, apenas repõe a inflação medida pelo INPC entre março de 2023 e agosto de 2026 e tem como objetivo declarado preservar o poder de compra dos beneficiários.

Apesar de ser importante para milhões de famílias, isso não significa apenas o “fim do austericídio neoliberal” anunciado no título do artigo.

Há ainda uma tentativa de afastar completamente Lula da crise do STF. Fonseca afirma que a crise ameaça envolver o presidente “sem razão alguma”, porque ele nada teria a ver com as fraudes do Banco Master.

Fato é que existe uma ligação política entre Alexandre de Moraes e Lula que em abril aconselhou Moraes a não permitir que o caso Master destruísse sua “biografia histórica” e recomendou que o ministro se declarasse impedido nos processos envolvendo o banco.

Lula, recentemente, voltou a defender a atuação de Moraes nas disputas políticas dos últimos anos. Associação que está sendo explorada eleitoralmente por Flávio Bolsonaro. Em 16 de setembro, os dois candidatos trocaram ataques justamente em torno de Vorcaro, Moraes e do STF; Flávio procurou vincular Lula ao ministro, enquanto Lula lembrou que Moraes foi indicado ao Supremo por Michel Temer.

Biden desaparece da história

No texto, a ofensiva internacional dos Estados Unidos é transformada numa “guerra trumpista”. O autor pergunta se “não há caso mais patente, à vista de todos, que o resultado negativo do estado de guerra, gerado pelo imperador Trump?”

Gerado por Trump? Para sustentar essa tese seria necessário apagar praticamente toda a política internacional do governo de Joe Biden. Foi sob governo que a AUKUS, parceria militar entre Estados Unidos, Reino Unido e Austrália, tornou-se uma das principais peças da estratégia norte-americana no Indo-Pacífico. O acordo incluiu o fornecimento à Austrália da capacidade de operar submarinos de propulsão nuclear e ampliou a integração militar e tecnológica dos três países.

Foi Biden quem elevou o Quad — Estados Unidos, Japão, Índia e Austrália — ao nível de chefes de governo. O próprio Departamento de Estado norte-americano registrou posteriormente que Biden havia elevado o agrupamento ao nível de líderes em 2021 e que seu governo considerava a organização parte duradoura da estrutura estratégica do Indo-Pacífico.

A Casa Branca em 2022 colocou a disputa com a China no centro da política norte-americana para a região. Documentos posteriores do Departamento de Estado chegaram a formular como objetivo oficial “moldar o ambiente estratégico” ao redor da República Popular da China.

Biden aprofundou a rede militar construída pelos Estados Unidos ao redor da China. Fortaleceu a cooperação militar com o Japão. Na Coreia do Sul, Washington avançou na integração estratégica e, em 2023, Biden reuniu os governos japonês e sul-coreano em Camp David. O encontro deu origem a exercícios militares trilaterais regulares, mecanismos de intercâmbio de dados sobre mísseis e maior coordenação militar entre os três países.

Nas Filipinas, a ofensiva foi ainda mais explícita. Em 2023, Estados Unidos e Filipinas acrescentaram quatro novas instalações ao acordo EDCA, elevando de cinco para nove os locais aos quais as forças norte-americanas poderiam ter acesso.

Não se trata, portanto, de uma política de paz interrompida repentinamente pela chegada de Trump.

Ucrânia e Taiuã

Em junho de 2021, meses depois de Biden assumir a Casa Branca, a Otan reafirmou oficialmente que a Ucrânia se tornaria integrante da aliança. O comunicado da reunião de Bruxelas repetiu a decisão tomada em 2008 e manteve o ingresso ucraniano como objetivo declarado.

Em Taiuã, o governo Biden também elevou a tensão com Pequim. Além de aprofundar toda a estrutura militar na Ásia, manteve o apoio norte-americano à ilha e promoveu uma política de alianças cuja formulação oficial estava diretamente ligada à agressão à China.

O problema não começou em 2025

Fonseca afirma também que, mantida a “guerra trumpista”, não haverá crescimento econômico na América Latina.

A estagnação latino-americana, porém, é muito anterior ao atual governo Trump. A crise econômica dos países atrasados, a pressão do capital financeiro e as políticas de austeridade atravessaram governos republicanos e democratas nos Estados Unidos e sucessivos governos na própria América Latina.

Durante o governo Obama, quando Biden era vice-presidente, documentos revelados por Edward Snowden mostraram que a NSA havia espionado Dilma Rousseff, seus assessores e a Petrobrás. O episódio foi suficientemente grave para levar Dilma a cancelar uma visita de Estado a Washington.

Também durante administrações anteriores a Trump houve intensa cooperação entre autoridades norte-americanas e integrantes da Lava Jato. Portanto, apresentar os Estados Unidos como uma potência que teria passado repentinamente à agressão externa elimina justamente a continuidade histórica que seria necessária para analisar sua política.

Essa omissão permite a Fonseca chegar à conclusão de que Lula teria se transformado na “esperança dos povos” e no principal adversário internacional de um “imperador Trump”.

A fórmula é eleitoralmente conveniente porque estabelece uma divisão simples: de um lado Lula, identificado à defesa da soberania; do outro Trump e o candidato apoiado pela direita bolsonarista.

Mas a política externa do próprio governo Lula causou divisões na base. Nos anos do governo Biden, o Brasil entrou em choques importantes com a Nicarágua e com a Venezuela, que Lula vetou a entrada no BRICS.

A intenção de Rocha é clara, utilizar a péssima imagem de Trump para tentar colher frutos eleitorais. O problema dessa política é que ela é negativa, depende da rejeição a Trump, uma vez que o governo Lula, com sua política de conciliação, entregou muito pouco para o trabalhador.

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