O procurador Roberto Livianu publicou nesta terça-feira (3), no Poder360, o artigo Boicote público é selvageria e imita o nazismo. Compara o boicote de bolsonaristas a apoiadores do PT à perseguição aos judeus na Alemanha nazista e resgata uma declaração de José Genoíno em defesa do boicote a empresas ligadas a “Israel”.
Livianu equipara deliberadamente judaísmo e sionismo para transformar a oposição ao Estado israelense em antissemitismo. Equipara boicotes a empresas associadas ao genocídio palestino à perseguição racial nazista, enquanto reproduz as justificativas dos genocidas para os massacres.
Este Diário já criticou o procurador por essa posição. Em 13 de março de 2025, na matéria Defensor de ‘Israel’ quer ‘punições exemplares ao racismo’, recordamos uma coluna publicada por Livianu em janeiro de 2024, intitulada Boicote a judeus, de novo, 91 anos depois. Nela, ao comentar os bombardeios de Gaza, escreveu que “entretanto, ao atacar alvos do Hamas, civis palestinos são atingidos, inclusive crianças, o que, segundo Israel, deve ser computado como dano colateral inerente à guerra […]”.
Livianu reproduziu bovinamente a explicação israelense para a morte de crianças. Para as vítimas palestinas, “dano colateral”; para os que defendem boicotes, a acusação de nazismo. Em outra coluna, Lula erra ao equiparar a legítima defesa de Israel ao Holocausto, insurgiu-se contra a comparação entre a destruição de Gaza e os crimes nazistas. A comparação é permitida apenas quando favorece “Israel”.
Judaísmo não é sionismo
Judaísmo é uma tradição religiosa e cultural; enquanto o sionismo é um movimento político de colonização da Palestina, surgido no século XIX. A oposição a “Israel” não constitui perseguição aos judeus.
A organização judaica norte-americana Jewish Voice for Peace apoia a campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS). Judeus religiosos da Neturei Karta rejeitam o próprio Estado sionista.
Norman Finkelstein, intelectual norte-americano de origem judaica, cujos pais sobreviveram aos campos de concentração nazistas. Sua mãe passou por Majdanek e seu pai por Auschwitz. Em entrevista concedida a este Diário, em junho deste ano, Finkelstein denunciou a exploração política da memória do extermínio dos judeus para justificar os crimes contra os palestinos.
Ao explicar sua oposição à chamada indústria do Holocausto, afirmou:
“Você está explorando a memória das pessoas que foram exterminadas. Como minha falecida mãe costumava dizer: não chame isso de guerra. Não foi uma guerra. Foi um extermínio. Você está explorando a memória de um extermínio para matar pessoas.”
É precisamente esse expediente que aparece na argumentação de Livianu: invocar o sofrimento dos judeus assassinados pelos nazistas para desqualificar a luta contra o Estado sionista. Livianu considera nazistas também esses judeus que defendem o boicote?
Seria nazismo boicotar os financiadores de Hitler?
Em 1º de abril de 1933, o governo nazista organizou o boicote a estabelecimentos judaicos, parte da perseguição racial que culminou no assassinato de judeus.
Cabe perguntar a Livianu se quem, durante a II Guerra Mundial, boicotasse empresas alemãs que financiavam Hitler ou participavam do funcionamento dos campos de concentração estaria fazendo algo condenável. Não seria legítimo atingir economicamente os responsáveis pelo extermínio de judeus?
Por que seria ilegítimo, então, boicotar empresas que financiam a ocupação da Palestina e o massacre em Gaza? O boicote defendido pelos palestinos procura atingir um Estado colonial e os capitalistas que sustentam sua política.
Boicotes e sanções também foram empregados contra o apartheid sul-africano. A campanha BDS, lançada por organizações palestinas em 2005, inspira-se nessa experiência.
O boicote imposto aos palestinos
Em Hebrom, Jerusalém Oriental e outras cidades palestinas, soldados israelenses fecham ruas, impedem a circulação de moradores e prejudicam o comércio. É a imposição militar de uma força de ocupação.
Levantamento da ONU divulgado em abril de 2026 registrou 925 obstáculos à circulação na Cisjordânia, entre eles 89 postos de controle permanentes e 232 portões de estradas. Na região H2 de Hebrom, concentravam-se 101 obstáculos que restringem a vida de cerca de sete mil palestinos. Se impedir o comércio de uma população lembra a perseguição nazista, por que Livianu não denuncia esses bloqueios?
Em Gaza, há bombardeios, hospitais destruídos, fome e restrições à entrada de alimentos. Em setembro de 2025, uma comissão independente da ONU concluiu que autoridades israelenses haviam cometido atos de genocídio na Faixa de Gaza. Livianu faz vistas grossas e prefere atacar os que propõem boicotes.
Genoíno, Wagner e os aliados do sionismo
Em janeiro de 2024, José Genoíno defendeu o boicote a empresas ligadas a “Israel”, depois que empresários brasileiros criticaram o apoio de Lula à denúncia sul-africana de genocídio. O petista, em um lapso, empregou “empresas de judeus”, explorada pelos sionistas para transformar uma posição contra a ocupação em acusação de antissemitismo.
A declaração defendia atingir as relações econômicas com o Estado israelense. A reação chegou à Justiça e levou à determinação de retirada de sua entrevista do YouTube, em fevereiro de 2024. Livianu recupera a acusação contra Genoíno, mas omite a perseguição judicial desencadeada a partir dela.
Em 7 de outubro de 2025, no Senado, Jaques Wagner, dirigente do PT e líder do governo, afirmou que “o Hamas tem que ser exterminado”, o que é muito grave. O Hamas é uma das principais organizações da resistência palestina à ocupação colonial. A exigência de seu extermínio é justamente a justificativa utilizada por Benjamin Netaniahu para devastar Gaza. O que Livianu tem a dizer sobre essa declaração?
Livianu também ataca os boicotes de bolsonaristas após a eleição de 25 de outubro. O procurador mistura a escolha de não comprar em um estabelecimento com a demissão de empregados por suas opiniões. São situações diferentes, pois o direito de boicotar não dá aos patrões o direito de perseguir trabalhadores.
O bolsonarismo, porém, é um dos principais defensores de “Israel” no Brasil. Bandeiras israelenses aparecem o tempo todo nas manifestações da direita. Em fevereiro de 2024, o então chanceler israelense Israel Katz agradeceu publicamente o apoio de Bolsonaro e seus seguidores. Os Estados Unidos, admirados pela direita brasileira, são os principais financiadores e fornecedores de armas do Estado sionista. Os supostos imitadores do nazismo são justamente aliados dos que Livianu pretende proteger de críticas.
O procurador quer transformar tudo em caso de polícia
Livianu, em seu texto confuso, menciona uma saudação nazista no Rio de Janeiro e quase 15 mil votos nulos no número 88, supostamente utilizado por neonazistas. O articulista escreve que eles “muito possivelmente” quiseram homenagear Hitler. Possivelmente não é comprovadamente, isso não passa de uma manobra para tentar convencer o leitor de uma tendência nazista no Brasil.
Ao final, invoca crimes de perseguição, assédio e violações aos direitos do consumidor para pedir intervenção judicial. Chega a indicar incorretamente o artigo 147 do Código Penal para o crime de perseguição, previsto no artigo 147-A. Quer que os tribunais decidam quais campanhas políticas são permitidas, o que é uma medida autoritária. Foi exatamente esse método que se usou contra Genoíno e que pode servir contra organizações de trabalhadores que se recusem a negociar com empresas ligadas a crimes.
Livianu invoca a memória dos judeus assassinados por Hitler, mas reproduz sem contestação a explicação israelense de que crianças palestinas mortas seriam “dano colateral”. O nazismo aparece em sua coluna quando alguém propõe deixar de comprar um produto; desaparece quando se trata de uma população submetida à ocupação, à fome e aos bombardeios. Se era legítimo boicotar os financiadores do regime de Hitler, por que seria nazismo boicotar os financiadores do genocídio palestino?



