Um vereador do PSOL apresentou na Câmara de São Paulo um projeto para trocar o nome da Rua Navio Negreiro, no bairro de Guaianases, na zona leste, pelo nome da jornalista Glória Maria, da Rede Globo. A proposta, vendida como uma homenagem, revela bem as prioridades do reformismo: em vez de qualquer bandeira que interesse aos trabalhadores, um tributo à maior emissora da burguesia brasileira.
O nome que se quer apagar não é qualquer um. “Navio negreiro” evoca o crime da escravidão e a memória dos africanos arrancados de sua terra e vendidos como mercadoria — a mesma memória que inspirou os versos de Castro Alves contra a barbárie escravista. Trocar esse nome pelo de uma figura da Globo é substituir a lembrança dos oprimidos por uma reverência à imprensa dos patrões.
Porque é disso que se trata. A Globo não é uma emissora qualquer: foi peça central em todos os golpes e ofensivas da classe dominante contra o povo, da ditadura militar ao golpe de 2016. É a emissora que fabrica o consenso da burguesia, ataca os trabalhadores e defende, dia após dia, os interesses dos ricos. Homenageá-la, ainda que pela via de um de seus nomes, é homenagear o adversário de classe.
O episódio expõe a natureza do PSOL. Enquanto se ocupa de gestos de vitrine, a vida dos trabalhadores de Guaianases segue marcada pelo desemprego, pela carestia e pela violência policial. A memória dos escravizados não se honra rebatizando ruas em nome da Globo, e sim retomando, contra a exploração de hoje, a luta que os cativos travaram contra os seus senhores — tarefa que exige a organização independente da classe trabalhadora, e não o oportunismo da esquerda de araque.





