Ao discursar na cúpula da Celac, o presidente Lula afirmou que os Estados Unidos querem “nos colonizar de novo”. A frase é uma mistificação. Lula, seguindo a imprensa imperialista, apresenta os crimes recentes do imperialismo como se fossem uma novidade de Donald Trump, como se os Estados Unidos tivessem deixado de saquear, intervir, golpear, bloquear e subjugar a América Latina durante os governos anteriores. Essa conversa mole serve para limpar a ficha de todo o aparato imperialista norte-americano e, junto com ele, de seus administradores “democratas”, especialmente Barack Obama e Joe Biden.
Os Estados Unidos não querem “voltar” a colonizar a região. Nunca deixaram de fazê-lo. Esse é o ponto elementar que Lula apaga. O cerco a Cuba não começou com Trump. A sabotagem contra a Venezuela não começou com Trump. As operações de desestabilização, a espionagem, as sanções, a ação do Departamento de Estado, da CIA e do aparato sionista-imperialista não são uma extravagância pessoal de um presidente. São a política permanente do imperialismo norte-americano.
Quando Lula fala como se houvesse uma ruptura absoluta entre Trump e os governos anteriores, faz um serviço sujo. Ajuda a espalhar a fraude de que o imperialismo era mais aceitável sob Biden e Obama, e que o problema estaria apenas em um excesso recente. Obama destruiu países inteiros, patrocinou golpes e ampliou o aparato de guerra norte-americano. Biden aprofundou a agressão contra os povos oprimidos, sustentou “Israel” até as últimas consequências e preservou a política de dominação imperialista em toda parte. Trump não inventou o crime. Ele o continua por outros meios e com menos verniz.
A demagogia fica ainda mais escancarada porque o próprio Lula faz questão de posar como alguém disposto a manter boa relação com Trump. Aí seu palavrório anti-imperialista desaba de vez. Não adianta denunciar que os EUA querem colonizar a América Latina e, ao mesmo tempo, cultivar essa conversa amigável com o chefe da Casa Branca. Isso apenas rebaixa o próprio discurso presidencial. Mostra que se trata de frase para auditório, sem qualquer consequência prática. Lula fala como crítico do imperialismo e age como político disposto a contemporizar com ele. É o tipo de postura que não assusta ninguém nos Estados Unidos e apenas desmoraliza quem ainda tenta levá-lo a sério.
O problema central, no entanto, não é apenas a inconsistência verbal. É a completa ausência de ação. Lula fala, discursa, faz pose, lamenta, mas não faz nada. E, na hora decisiva, faz o contrário do que seria necessário. A Venezuela é um caso evidente. Quando o país bolivariano sofreu uma nova escalada de pressão, o governo brasileiro não atuou como aliado consequente. Pelo contrário. Vetou a entrada da Venezuela nos BRICS, demorou a reconhecer de imediato o processo eleitoral venezuelano e ainda exigiu “atas”, comportando-se como se fosse um fiscal arrogante, à maneira do próprio imperialismo. Um governo que trata um país agredido pelos Estados Unidos dessa forma não tem autoridade para posar de defensor da soberania latino-americana.
No caso do Irã, a situação é ainda mais vergonhosa. Dias antes da guerra se aprofundar, Lula declarou que não estava preocupado com o Irã. Quando a agressão se consolidou, não tomou nenhuma medida de peso. Não articulou uma resposta real, não puxou uma frente internacional e ainda teve a pachorra de publicar uma nota ridícula condenando “ataques” do Irã aos países do Golfo, isto é, condenando medidas defensivas tomadas por um país agredido. Essa posição é miserável. Coloca o governo brasileiro, na prática, do lado da pressão imperialista contra o Irã, ainda que disfarçada por frases protocolares sobre paz.
Enquanto Rússia e China, cada uma a seu modo, procuram ajudar o Irã e conter a ofensiva imperialista, Lula se limita a frases ocas, notas diplomáticas inofensivas e gestos que agradam mais ao imperialismo. O resultado é que seu discurso anti-imperialista não serve sequer para encobrir a capitulação. Fica apenas o contraste grotesco entre a retórica e os fatos.





