Bolívia

Governo prepara repressão enquanto mais categorias pedem saída do presidente

Assembleia popular em El Alto rejeitou negociações com o governo Rodrigo Paz; motoristas de La Paz, camponeses e a COB mantêm exigência de renúncia

A crise política na Bolívia se ampliou nesta terça-feira (2), com novas categorias aderindo ao pedido de renúncia do presidente Rodrigo Paz, enquanto o governo prepara a repressão contra os bloqueios e protestos que já duram mais de um mês. Em El Alto, a Federação de Juntas Vecinais, junto à Central Operária Boliviana (COB), organizações de La Paz e dirigentes camponeses, realizou uma assembleia popular na Ceja de El Alto e rejeitou qualquer negociação com o governo.

A reunião decidiu manter as mobilizações, apoiar os bloqueios em diferentes pontos do país e declarar estado de emergência. Os representantes presentes afirmaram que as convocações feitas pelo governo não apresentam solução concreta para a crise econômica e social. O encontro também ratificou a exigência de saída de Rodrigo Paz da Presidência.

La Paz e El Alto estão entre as regiões mais afetadas pelos bloqueios, que restringem a chegada de alimentos, combustíveis e medicamentos. As mobilizações começaram em maio e se espalharam por várias regiões do país.

O secretário-executivo da COB, Mario Argollo, reapareceu na assembleia popular após a Justiça suspender a ordem de prisão emitida contra ele. A suspensão era uma das condições apresentadas pela COB para comparecer a reuniões com o governo. Mesmo assim, os setores mobilizados recusaram as negociações e mantiveram o pedido de renúncia.

Durante sua intervenção, Argollo afirmou que a continuidade dos protestos deve ser definida pelas bases. O dirigente disse que a direção sindical vai acatar a decisão dos setores em luta. Sua presença no ato reforçou a articulação entre a COB, organizações de moradores e setores camponeses.

Também participou do ato Feliciano Vegamonte, dirigente da Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia e ex-vice-ministro de Evo Morales. Ele afirmou que a mobilização também defende direitos econômicos de policiais e militares.

“Esta luta está defendendo os direitos dos irmãos que vivem na cidade. Está defendendo inclusive os direitos econômicos da Polícia e do Exército”, disse Vegamonte.

“O povo mobilizado só vai se acalmar quando Rodrigo Paz renunciar ao cargo de presidente”, acrescentou.

Dieter Mendoza, vice-presidente da Coordenadora das Seis Federações do Trópico de Cochabamba, também esteve presente. Ele afirmou que os setores continuam atendendo à convocação da COB e permanecem mobilizados com o pedido de renúncia já aprovado em diferentes instâncias do movimento popular boliviano.

A pressão contra Rodrigo Paz também chegou ao setor de transporte. A Federação Departamental de Motoristas “Primeiro de Maio”, de La Paz, decidiu iniciar mobilizações permanentes a partir da próxima segunda-feira e exigir a renúncia do presidente. A decisão foi tomada em ampliado departamental com representantes das oito federações filiadas.

O secretário-executivo da entidade, Edson Valdez, afirmou que a decisão teve apoio unânime das bases. Segundo ele, o governo descumpriu acordos firmados com os transportadores e não resolveu o problema do abastecimento de combustíveis.

“Diante do descumprimento do Governo a todos os acordos que teve com a Federação do Departamento de La Paz e suas oito federações, hoje o ampliado, de forma contundente, em cem por cento, pediu a renúncia do presidente e, a partir de segunda-feira, constantes mobilizações todos os dias”, afirmou Valdez.

O dirigente disse que as medidas incluirão paralisação, protestos e bloqueios em diferentes pontos da cidade. Segundo Valdez, a alta do custo de vida e a falta de combustíveis levaram os motoristas a se somarem ao pedido de saída de Paz.

“O governo até hoje não faz nada para nos dar combustível. O tema da cesta básica aumentou em 300% e 400%, portanto o ampliado foi contundente ao pedir a renúncia do presidente”, declarou.

Em Santa Cruz, setores camponeses ocuparam um poço petrolífero do campo Humberto Suárez, no município de Santa Rosa del Sara, e bloquearam o acesso às instalações. As quatro centrais camponesas do município participam da vigília, que paralisou atividades na área operacional.

O comandante departamental da Polícia de Santa Cruz, David Gómez, confirmou que os manifestantes condicionam a saída do local à renúncia de Rodrigo Paz. Segundo ele, a Polícia deslocou efetivos para a região.

“O que estão pedindo é a renúncia do senhor presidente. Nesse sentido, estamos deslocando um contingente policial para pôr ordem e restituir o que por direito corresponde”, afirmou.

Gómez disse que 33 trabalhadores estão na planta e que a Polícia tentará retirar os manifestantes por meio de persuasão. Em seguida, deixou clara a possibilidade de repressão direta caso a ocupação seja mantida.

“Mediante a persuasão vamos fazer com que essas pessoas se retirem do lugar. Se não for assim, vamos ter que utilizar a força para restituir o direito nesta zona”, declarou.

Além da ameaça policial contra os camponeses em Santa Rosa del Sara, o governo prepara a compra de grande quantidade de material repressivo. O Ministério de Governo aprovou um repasse orçamentário de 68.150.928 bolivianos para a compra de gases lacrimogêneos destinados à Polícia Boliviana durante a gestão fiscal de 2026.

A medida foi aprovada pela Resolução Ministerial nº 047/2026, assinada pelo ministro de governo, José Antonio Oviedo. O documento justifica a compra pela “necessidade imperiosa de reabastecer as dependências diante dos últimos acontecimentos sociais do país, para manter e preservar a ordem legal, a paz e a segurança cidadã”.

Segundo a resolução, informes do Vice-Ministério de Segurança Cidadã e Defesa do Estado apontaram urgência na reposição de material químico para direções nacionais, direções gerais e comandos departamentais. O próprio documento relaciona a compra ao “aumento dos conflitos sociais que o país atravessa”.

Também surgiram denúncias sobre a organização de grupos de choque para romper bloqueios. O ex-presidente do Conselho Municipal de Sucre, Rodolfo Avilés, afirmou que grupos enviados pelo governo estão sendo organizados para desbloquear estradas e provocar enfrentamentos com os setores mobilizados.

“Esses grupos enviados pelo governo estariam tentando gerar caos e enfrentamentos em diferentes pontos de bloqueio, situação que está sendo estimulada, além disso, por alguns órgãos de imprensa que recebem recursos econômicos estatais”, disse Avilés.

Ele também afirmou que grupos identificados estão reunindo armas brancas, objetos perfurantes e agentes químicos, como gases lacrimogêneos, com o suposto objetivo de atacar camponeses em mobilização. Segundo Avilés, registros fotográficos e capturas de tela foram preservados como prova das denúncias.

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