Guerra no Oriente Próximo

Pressão iraniana impõe nova derrota ao imperialismo no Líbano

Recuo de “Israel” diante do Irã, do Hesbolá e do Ansar Alá expõe a crise do regime sionista e a força crescente do Eixo da Resistência

O governo de “Israel” recuou, na segunda-feira (1º), da ameaça de bombardear o subúrbio sul de Beirute, no Líbano, após pressão direta do Irã, do Hesbolá e do Ansar Alá. A decisão abriu uma crise no regime sionista, provocou ataques da extrema direita contra o primeiro-ministro Benjamin Netaniahu e revelou que a tentativa de ampliar a guerra contra o Líbano esbarrou na força política e militar do Eixo da Resistência.

Netaniahu e o ministro dos Assuntos Militares de “Israel”, Israel Katz, haviam ordenado ao exército sionista que atacasse Dahié, região do sul da capital libanesa e base popular do Hesbolá. A ordem representava a primeira ameaça desse tipo desde o cessar-fogo de 16 de abril e veio acompanhada de ordens de deslocamento forçado contra a população da região.

Pouco depois, o presidente norte-americano Donald Trump anunciou que havia sido alcançado um entendimento para impedir os ataques contra Beirute. A declaração foi feita após o Irã avisar que uma agressão contra a capital libanesa colocava em risco as negociações com os Estados Unidos e levava a região a uma nova fase da guerra.

Autoridades iranianas também emitiram alertas aos assentamentos do norte dos territórios ocupados, orientando a população sionista a abandonar a área caso Beirute fosse bombardeada. O aviso colocou sobre a mesa a possibilidade de uma resposta direta do Irã em defesa do Líbano e do Hesbolá.

Segundo a imprensa burguesa, Trump telefonou para Netaniahu e o repreendeu duramente pela tentativa de ampliar a guerra. O presidente norte-americano afirmou que um ataque contra Beirute aprofundava o isolamento internacional de “Israel” e colocava em risco as tratativas com o Irã.

A imprensa burguesa relatou ainda que Trump perdeu a paciência com Netaniahu durante a ligação. “Você está completamente louco. Você estaria na prisão se não fosse por mim. Estou salvando a sua pele. Todo mundo odeia você agora. Todo mundo odeia Israel por causa disso”, teria dito o presidente norte-americano. Em outro momento, Trump teria perguntado: “que diabos você está fazendo?”.

Após a ligação, autoridades israelenses informaram que os planos de bombardear alvos do Hesbolá em Beirute haviam sido suspensos. Netaniahu, porém, procurou manter a ameaça em pé e declarou que “Israel” atacaria o subúrbio sul da capital libanesa caso o Hesbolá continuasse a atingir os territórios ocupados.

A crise do regime sionista é profunda. Há protestos nas ruas contra o governo, crise no parlamento e ameaça constante de dissolução da coalizão. Há poucas semanas, foi votado um projeto de lei que pode levar à dissolução do parlamento israelense, medida que aparece como uma manobra de Netaniahu para tentar evitar uma derrota ainda maior nas eleições previstas para outubro.

A política de extrema direita de Netaniahu não produziu segurança para os colonos. Depois de quase três anos de intensificação da guerra contra a população árabe, contra os palestinos e contra os povos da região, “Israel” acumula gasto militar imenso, paralisação de setores da economia, saída de colonos e isolamento internacional crescente. Cerca de 100 mil colonos deixaram a Palestina ocupada em razão dos confrontos com o Hesbolá.

O sionismo não encontra saída. A política de guerra permanente acelera sua desmoralização e expõe o caráter criminoso do regime. O recuo, por outro lado, fortalece os povos que “Israel” tenta esmagar. A extrema direita israelense procura, assim, uma nova frente militar como forma de prolongar a sobrevivência política do governo Netaniahu.

Trump procurou apresentar o recuo sionista como resultado de sua própria intervenção. Em entrevista à ABC News, afirmou que um acordo com o Irã podia ser “ainda melhor do que uma vitória militar” e disse acreditar que uma negociação para ampliar o cessar-fogo e reabrir o Estreito de Ormuz podia avançar “ao longo da próxima semana”.

“Está parecendo bom, está parecendo bom”, disse Trump ao jornalista Jonathan Karl, da ABC News. O presidente norte-americano afirmou que houve “um pequeno problema” no Líbano, mas que ele o havia resolvido “muito rapidamente”.

Trump também afirmou que havia se comunicado com o Hesbolá e com Netaniahu. “Então, eu falei com o Hesbolá e disse: sem tiros; e falei com Bibi e disse: sem tiros; e os dois pararam de atirar um no outro”, declarou.

A fala de Trump revela mais uma derrota do que uma vitória diplomática. Quando o presidente norte-americano afirma que um acordo pode ser melhor do que a vitória militar, a conclusão política é evidente: os Estados Unidos e “Israel” não conseguiram vencer a guerra.

A importância dessas declarações está em tornar pública a correlação de forças. O fundamental em um cessar-fogo não é o papel assinado, pois o imperialismo e o sionismo descumprem compromissos sempre que podem. O valor político do acordo está em registrar que um dos lados não conseguiu impor pela força seus objetivos.

Foi o que ocorreu na Faixa de Gaza. “Israel” não conseguiu obrigar o Hamas a libertar seus prisioneiros pela força militar. Só conseguiu recuperá-los por meio de uma troca de prisioneiros extremamente favorável à resistência, que libertou presos políticos importantes, militantes condenados a longas penas e combatentes palestinos. O acordo mostrou ao mundo que o Hamas não havia sido derrotado.

O mesmo vale para o Líbano. Ainda que não exista um cessar-fogo abrangente firmado, as declarações de Trump, o recuo de Netaniahu e as ameaças iranianas expõem a situação real: “Israel” não tem liberdade para atacar Beirute sem calcular uma resposta de toda a região.

A imprensa israelense reagiu com revolta ao recuo. O jornal Maariv publicou artigo de Avi Ashkenazi afirmando que “Israel” estava atolado “até o pescoço na lama libanesa”. O articulista atacou Netaniahu e afirmou que o governo deveria ter caído.

“Do caos nas ruas à lama libanesa, Israel parece ser um país onde cada ator dita seus termos: os haredim em casa, o Hesbolá de fora e Trump acima de todos”, escreveu Ashkenazi.

O texto defendeu uma ofensiva aérea ininterrupta contra o Líbano. “Em um país adequado, sério, várias coisas teriam acontecido nesta manhã. O primeiro-ministro e o governo teriam renunciado e ido para casa, e a Força Aérea teria continuado uma onda de ataques em todo o Líbano — uma campanha que deveria ter começado ontem às 9 horas e continuado sem interrupção até que o Hesbolá levantasse uma bandeira branca”, escreveu.

O portal Walla citou fontes de segurança sionistas segundo as quais a decisão de não atacar Beirute enfraqueceu a posição da ocupação no sul do Líbano. As mesmas fontes afirmaram que o recuo fortaleceu a ligação entre o Hesbolá e o Irã, ao demonstrar que as frentes de guerra estavam conectadas.

A crise atingiu tanto a oposição quanto a coalizão governista. Yair Lapid afirmou que “Israel” havia se tornado um “protetorado” dos Estados Unidos. Avigdor Lieberman declarou que “não somos uma república de bananas” e defendeu a destruição de Dahié. “Dahié deve ser arrasada agora, e não devemos parar até que o último prédio de lá tenha sido derrubado”, disse.

Itamar Ben Gvir, ministro da Segurança Nacional, pressionou Netaniahu a rejeitar a orientação de Trump e a prosseguir com os ataques contra o Hesbolá. “Esta é a hora de dizer ao nosso amigo, o presidente Trump: ‘não’. Agora é a hora de fazer o que é exigido e necessário para atacar o Hesbolá”, afirmou.

O governo libanês procurou apresentar o recuo de “Israel” como resultado de sua atuação diplomática. A embaixada do Líbano nos Estados Unidos afirmou, em nota, que o Hesbolá havia aceitado uma proposta norte-americana de cessação mútua dos ataques. Segundo a embaixada, “Israel” deixaria de atacar a capital libanesa, enquanto o Hesbolá suspenderia ataques contra o território ocupado.

O Hesbolá rejeitou qualquer cessar-fogo restrito a Beirute. O deputado Hassan Fadlallah afirmou que a proposta norte-americana não era aceitável se não incluísse o fim completo dos ataques de “Israel” contra todo o Líbano. Segundo o parlamentar, o partido apoiava um cessar-fogo abrangente, desde que ele fosse passo inicial para a retirada das forças israelenses do território libanês.

Mahmoud Qamati, vice-presidente do birô político do Hesbolá, afirmou na terça-feira (2) que o partido não aceitava uma equação em que ataques contra Dahié fossem respondidos apenas por operações contra assentamentos do norte dos territórios ocupados.

“Informamos às partes relevantes que rejeitamos a equação de Dahié em troca dos assentamentos do norte”, declarou Qamati.

O Ansar Alá, do Iêmen, também advertiu que uma nova agressão contra o Líbano receberá resposta. Mohamed al-Farah, integrante do birô político do movimento iemenita, afirmou que os soldados israelenses no sul do Líbano permanecerão sob ameaça enquanto continuarem ocupando território libanês.

“O inimigo israelense deve saber que qualquer incursão no Líbano receberá uma resposta”, afirmou al-Farah. “Seus soldados no sul continuarão expostos à morte diariamente até que se retirem, e qualquer escalada será respondida com uma reação ampla e de grande alcance”.

A declaração do Ansar Alá mostra que a resistência não está em posição passiva. A política apresentada pelo Eixo da Resistência é clara: não busca a guerra por si mesma, mas afirma que responderá a qualquer agressão do imperialismo e do sionismo.

Fontes próximas ao Ansar Alá afirmaram ao jornal libanês Al-Akhbar que qualquer escalada israelense receberá uma resposta unificada do Eixo da Resistência. Segundo essas fontes, Saná não permitirá que o Líbano seja atacado nem que o Hesbolá seja isolado.

O Irã também deixou claro que a violação da trégua em uma frente equivale à sua violação em todas as frentes. A posição iraniana foi decisiva para obrigar o governo Netaniahu a recuar da ofensiva contra o subúrbio sul de Beirute.

A avaliação do Hamas sobre o papel do Irã se confirma nos acontecimentos. A República Islâmica está unificando a luta na região. O que está em ação até agora é apenas uma parte do que o Eixo da Resistência pode mobilizar: o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI), o Hesbolá e setores aliados. Há ainda as organizações armadas palestinas, o Hamas, o Ansar Alá no Iêmen, as milícias iraquianas, aliados iranianos na Síria e forças que podem entrar na luta se a guerra avançar.

O caso iraquiano também aparece como parte desse quadro. Há pressão do imperialismo para desarmar a resistência iraquiana, movimento semelhante à pressão exercida no Líbano contra o Hesbolá. A razão é evidente: a resistência tem peso decisivo no Iraque e permanece de prontidão caso seja necessária uma intervenção conjunta contra “Israel” e os Estados Unidos.

O debate interno no Líbano se aprofundou após o recuo israelense. Fontes ligadas à presidência libanesa afirmaram à Al Mayadeen que as possibilidades de alcançar um cessar-fogo abrangente melhoraram depois do entendimento que impediu o ataque contra Dahié. Segundo essas fontes, a delegação libanesa passou a defender a ampliação do cessar-fogo e o tratamento de temas pendentes da guerra.

O presidente libanês Joseph Aoun defendeu as negociações como único caminho disponível para encerrar a agressão israelense. “O dever do Estado é cuidar de seus cidadãos e não ficar de braços cruzados sem tomar medidas”, afirmou Aoun. “Não há opção além da negociação”.

A posição de Aoun foi denunciada por setores ligados à resistência. Para esses setores, negociações só têm valor se resultarem no fim dos ataques israelenses, na retirada das tropas de ocupação, no retorno dos deslocados e na defesa efetiva da soberania libanesa. A crítica ganhou força porque “Israel” continuou bombardeando o sul do Líbano mesmo depois de sucessivos entendimentos e anúncios de trégua.

A guerra israelense contra o Líbano já assassinou mais de 3.000 pessoas, deslocou mais de um milhão e destruiu milhares de casas. A ofensiva ampliada desde 2 de março deixou mais de 3.400 mortos, mais de 10.100 feridos e mais de 1,6 milhão de deslocados.

O Irã, ao intervir na crise, também suspendeu trocas de mensagens com os Estados Unidos. Autoridades iranianas afirmaram que o Líbano era parte integrante de qualquer estrutura de cessar-fogo e que os ataques israelenses destruíam as bases de qualquer entendimento.

Uma fonte informada disse à agência iraniana Mehr que o texto final de um possível memorando de entendimento ainda está em discussão no Irã e que nenhuma resposta foi dada. Segundo essa fonte, o “mau histórico” dos Estados Unidos em descumprir compromissos levou o Irã a tratar o tema com muita cautela.

Saeed Ajroui, integrante da equipe de comunicação da delegação negociadora iraniana, afirmou que o Irã rejeitou a exigência norte-americana de transferir material nuclear iraniano aos Estados Unidos na primeira etapa das tratativas. Segundo ele, a exigência já não aparece na última versão enviada pelos norte-americanos.

O CGRI também afirmou que as Forças Armadas iranianas estão mais preparadas do que antes. O porta-voz do CGRI, brigadeiro-general Hossein Mohebbi, disse que uma nova agressão militar receberá respostas diferentes na natureza das operações, na geografia do campo de batalha e nos tipos de armas utilizadas.

“Se o inimigo retornar ao terreno militar, a natureza das operações, a geografia do campo de batalha e até os tipos de armas usadas serão diferentes”, afirmou Mohebbi. “O CGRI está totalmente preparado para todos os cenários possíveis”.

Enquanto Trump anunciava a suspensão dos ataques contra Beirute, “Israel” continuava assassinando civis no Líbano. Na terça-feira (2), ataques aéreos israelenses mataram ao menos oito pessoas no sul do país. Entre as vítimas estavam o dentista libanês James Karam e seus dois filhos, atingidos por um VANT israelense na estrada entre Marjayoun e Nabatié.

Em outro ataque, dois soldados libaneses ficaram feridos quando um VANT israelense atingiu uma área próxima a Nabatié, segundo o exército libanês. Na segunda-feira (1º), o Ministério da Saúde do Líbano informou que bombardeios israelenses assassinaram seis pessoas, entre elas uma mulher e duas crianças, na cidade de Marwanié, no distrito de Sidon.

A agressão continuada demonstrou os limites do anúncio norte-americano. A embaixada libanesa nos Estados Unidos reconheceu que a proposta não representava um cessar-fogo completo. O Hesbolá manteve a posição de responder às agressões israelenses enquanto elas prosseguirem no Líbano.

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