Guerra no Oriente Próximo

O pequeno-burguês e o elogio da covardia – parte 1

Esquerdista tenta criticar todos que opinam sobre as guerras, porém, a análise que apresenta leva a uma única saída: se render aos mais fortes

revolução russa

Fernando Horta, em seu artigo Românticos e Picaretas: as análises furadas da guerra no Oriente Médio, publicado no Brasil247 nesta quarta-feira (4), poderia muito bem receber o título O Elogio da Covardia.

A tática de Horta é mais primária possível, tenta ridicularizar posições com as quais não concorda; pois, assim, de uma posição supostamente superior, poderá iluminar a todos com a verdade.

Horta começa dizendo que “existe uma figura recorrente nos debates sobre conflitos internacionais que poderíamos chamar de romântico geopolítico. Ele não é necessariamente mal-intencionado. Às vezes é um intelectual brilhante, um militante dedicado, um jornalista comprometido. Mas sua forma de ler o mundo sofre de um defeito estrutural grave: a incapacidade de realizar cálculos de causa e consequência ancorados na materialidade dos fatos. O romântico opera pela lógica do desejo — ele analisa o que quer que aconteça, não o que pode ou vai acontecer” – grifos nossos.

Neste primeiro trecho, Horta, supõe, ou tenta fazer o leitor acreditar, que conhece a materialidade dos fatos. Outro truque do articulista é elogiar àqueles que está criticando. Quem nunca ouviu um fofoqueiro, antes de malhar alguém, dizer – “Olha, fulano é muito legal, mas…”? Isso é tão velho quanto a humanidade.

Na sequência, o autor afirma que “o problema mais sério desse traço não é epistemológico, mas ético: o romântico geopolítico, invariavelmente, rifa os corpos, os sonhos e as vontades dos outros — os que estão morrendo de verdade — em nome dos seus próprios projetos de futuro. Ele converte o cadáver alheio em símbolo da sua utopia e, ao fazê-lo, torna-se, sem perceber, um agente da perpetuação do conflito”.

“Epistemológico”, “ético”, quem utiliza palavras assim deve se mesmo muito inteligente, talvez pensem seus leitores.

Em nome de que o articulista pode afirmar que determinado analista esteja “rifando corpos e sonhos”? E, pior, “em nome de seus projetos de futuro” que ele não tem condição de saber se existem, ou quais seriam. Além de fazer uma acusação sem pé nem cabeça, a de que esses supostos românticos agiriam como agentes “da perpetuação do conflito”.

Para quem diz que os outros não conseguem fazer cálculos de causa e consequência, Horta acabou de provar que não tem a menor ideia do que se trata. Os conflitos têm são motivados por interesses políticos e econômicos, têm a ver a conquista de mercados, recursos naturais. Quando um romântico geopolítico no YouTube vai influenciar ou perpetuar alguma coisa?

Continuando com suas caricaturas, Horta afirma que “ao lado do romântico existe o picareta analítico — talvez ainda mais perigoso porque ocupa mais espaço na mídia. O picareta é o tudólogo: aquele que fala com a mesma desenvoltura sobre o Hamas, sobre o PIB iraniano, sobre a doutrina militar israelense, sobre as ramificações jurídicas da guerra, sobre petróleo e sobre teoria política islâmica. Ele não tem compromisso com dados, com metodologia ou com qualquer tradição teórica coerente”.

Aqui não se trata de defende este ou aquele analista, mas de desmascarar o método de quem, como ficará claro, não tem nada a oferecer além de rendição.

Como Fernando Horta se apresenta como historiador, cobra dos tais analistas “metodologia” e “tradição teórica”, como se fazer uma análise em um programa fosse escrever uma tese de doutorado.

Horta termina o parágrafo dizendo que “sua marca registrada é a platitude [falta de conteúdo] – a frase de efeito que o interlocutor já quer ouvir – e seu método secreto é o chute calibrado: escolhe sempre os outcomes com pelo menos 50% de probabilidade de ocorrência, de modo que, quando acerta, reivindica a previsão, e quando erra, muda de assunto sem deixar rastro. Não há accountability no mundo do picareta. Ele existe para ser consumido, não para ser verificado”.

Um leitor desavisado, após passar “epistemologia”, “ética”, “metodologia” e “tradição teórica”, ainda tromba com “outcomes” e “accountability”, fica mais acuado e deve pensar: “Nossa, esse cara é inteligente”. Horta poderia ter escrito ‘resultados’ e ‘responsabilidade’, mas precisa dar suas carteiradas para parecer convincente.

Após fazer essas considerações, do alto do Olimpo, Horta diz aos mortais que “é com essas duas figuras em mente que precisamos dissecar algumas das análises mais recorrentes — e mais perigosas — que circulam hoje sobre a guerra no Oriente Médio”.

Na próxima edição, discutiremos ponto a ponto o restante do artigo de Fernando Horta, que é um manual de derrotismo. O autor desconsidera o fato de que as pessoas lutam porque se não lutarem, também morrerão.

O Dr. Basem Naim, do Bureau Político do Hamas, enviou uma saudação para o PCO em sua 35ª Conferência, da qual deixaremos aqui um trecho:

“Somos capazes de continuar a luta por meses. Eles [“Israel”] nos deram duas opções, Smotrich [Bezalel, ministro das Finanças israelense], em uma ocasião anterior, nos deu a escolha de fugir ou de ser assassinado. E nós também lhe demos duas escolhas, ou viver com dignidade, ou morrer.
Não existe uma terceira opção.”

continua…

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