Polêmica

Quem já tem bomba atômica é quem quer que o Brasil não tenha a sua

O capachismo da grande imprensa com o imperialismo é infinita. Basta falar em o Brasil ter armas nucleares que começa a gritaria

Lula discursa na SBPC

A grande imprensa brasileira é capacho do imperialismo, especialmente dos Estados Unidos. O artigo “O espectro de Solano López ronda Lula e Brasília”, de Marcio Aith, publicado no sítio Poder360  nesta quarta-feira (29), é um atestado de subserviência.

O autor foi secretário de comunicação do Supremo Tribunal Federal e do Estado de São Paulo (governo Alckmin), além de editor executivo da revista Veja e também correspondente da Folha de S. Paulo em Tóquio e Washington, e isso já diz tudo.

A crítica se deve ao fato de que “em 26 de junho, no estaleiro da Thyssenkrupp em Itajaí (SC), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, batizou a fragata Cunha Moreira e fez, de improviso, o que” – para o jornalista – “parecia ser mais um discurso eleitoreiro sobre soberania, interferência indevida de agentes externos e a modernização de armamentos como prioridade.”

Preocupado com o que os estrangeiros iriam pensar, Aith diz que a fala “rodou nas embaixadas em Brasília, com atenção especial na dos Estados Unidos. Diplomatas leram o que os jornais não leram, e viram algo preocupante, fora da curva.”

Muito solícito, o jornalista escreve que “o trecho que os fez ler duas vezes é este: ‘Eu fui constituinte, e eu fui daqueles que votei pela não proliferação de armas nucleares, porque tinha o compromisso de que quem tinha armas nucleares ia desativar. Alguém desativou? De lá pra cá, o Paquistão se armou, a Coreia do Norte se armou, a Índia se armou, a China se armou, a Rússia e os Estados Unidos continuam fabricando cada vez mais armas nucleares. E nós?’”

É óbvio que o Brasil tem direito, e até o dever, de produzir armas nucleares, ainda assim, o jornalista se mostra indignado e diz: “Repare em como a frase não fala o que quer falar, mas deixa a conclusão por conta do ouvinte. Lula diz que votou pela não proliferação ‘porque’ havia um compromisso — e, na frase seguinte, pergunta: ‘Alguém desativou?’. A resposta é não, e todos sabem. Mas quem a dá é o ouvinte, não o presidente.”

É improvável que o jornalista nunca tenha ouvido falar em pergunta retórica, sua indignação, portanto, se deve ao fato de ser contra o Brasil ter sua bomba, o que contraria explicitamente os interesses do imperialismo.

Lula não deveria ter votado contra, foi um erro, mas é verdade que todo mundo tem produzido suas armas. A Coreia do Norte, que vivia sendo ameaçada de invasão, conteve o ímpeto de seus agressores ao mostrar ao mundo que tinha capacidade atômica.

Há ainda outro trecho destacado da fla de Lula, que diz o seguinte: “Eu não quero ser pego de surpresa […] Aí num belo dia, quando ninguém esperava, o Solano López [1827-1870], presidente do Paraguai, invadiu logo de vez Brasil, Argentina e Uruguai. Está cheio de nego maluco no mundo. Agora mesmo o presidente americano quer tomar a Groenlândia, o Canadá vai virar estado dele, quer tomar o canal do Panamá. Onde é que nós estamos?” Sobre o qual o jornalista diz que teria sido “um palavreado de conversa de bar, [que] liga a bomba à ameaça norte-americana” – grifo nosso.

O tom exagerado de Aith revela o quão abjeta, antinacional e serviçal é a grande imprensa brasileira. Afinal, os Estados Unidos nunca ameaçaram ninguém, nunca destruíram países inteiros, nunca atiraram mais bombas sobre o Laos do que os nazistas em toda a II Guerra Mundial, nunca sequestraram presidentes de nenhum país. Só na cabeça de “teóricos da conspiração” esse tipo de coisa faz sentido.

Obstáculos

Aith escreve que “ninguém em sã consciência acredita que Lula vá desafiar os Estados Unidos com a promessa de desenvolver a bomba atômica brasileira”, mas o que isso tem a ver com o direito de termos uma bomba?

Adiante, justifica de antemão possíveis agressões dizendo que “daria ao presidente dos EUA, Donald Trump (republicano), 80 anos, motivos para transformar o Brasil, país historicamente pacífico, num Irã da América do Sul.” Qual é a vantagem de algum país ser “historicamente pacífico”? E por que produzirmos uma bomba seria motivo para qualquer coisa se somos um país soberano? É asquerosa a capacidade do jornalismo de se ajoelhar diante de forças mais poderosas.

Adiante, o jornalista alega que “buscar a bomba exigiria emendar a Constituição — que admite atividade nuclear ‘somente para fins pacíficos’ — e rasgar os tratados de Tlatelolco e de Não Proliferação.” Ele deve ter se esquecido de que no Brasil a Constituição anda valendo pouco e é a coisa mais simples fazer alterações na Carta.

O artigo destaca um segundo discurso de Lula a cientistas na SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), no qual foi dito que “Qualquer dia um ou outro resolve invadir o Brasil […] O Paraguai um dia invadiu o Brasil, a Argentina e o Uruguai.” A preocupação não é infundada. Como o próprio texto destaca, existe um “acordo assinado em 15 de dezembro de 2025 pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, e pelo chanceler paraguaio, Rubén Lezcano.”

Os termos do acordo, no entanto, são extremamente preocupantes:

  • militares e empresas contratadas pelo Pentágono ganham livre entrada, saída e circulação no território paraguaio;
  • seus aviões, embarcações e veículos ficam isentos de inspeção, inclusive os que transportarem, armas incluídas;
  • seus integrantes recebem imunidade plena diante da Justiça local;
  • as forças norte-americanas operam sistema próprio de telecomunicações, com uso gratuito do espectro;
  • o Paraguai renuncia a reivindicações por danos.

A coisa é tão escandalosa que o “Departamento de Estado descreve o convênio como o ‘padrão-ouro’ do gênero”, tamanho o entreguismo do país vizinho. Ainda assim, o jornalista, tentando esconder o óbvio, diz que “seus termos, que são públicos, dispensam qualquer dúvida”.

No Brasil, infelizmente, não temos apenas uma imprensa vendida, nossas forças armadas não servem para defender o Brasil, estão aí para reprimir o povo. Seria necessário construir um exército popular, desenvolver tecnologias e armas próprias.

A ameaça é real, o imperialismo está investindo suas forças contra o continente e o Brasil, seguramente, é seu alvo prioritário.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.