Editorial

Lula e a apologia da hipocrisia imperialista

Presidente reconhece o colapso da organização, mas troca a denúncia de sua cumplicidade com o imperialismo por um apelo à sua restauração

Luiz Inácio Lula da Silva abriu nesta terça-feira (22) o debate da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas com uma crítica à crise da organização. O presidente afirmou que “a ONU está falhando” em impedir as guerras, reconheceu que sua credibilidade nunca esteve tão baixa e criticou o imobilismo do Conselho de Segurança. No fim do discurso, porém, pediu vontade política para que a mesma instituição volte a ser o “templo da paz”.

Lula parou justamente onde começaria uma denúncia de esquerda. Citou massacres, bloqueios econômicos e agressões militares, mas tratou a ONU como vítima impotente das grandes potências. Ela não é uma espectadora indefesa. Sua passividade protege os agressores e lhe dá uma parte da responsabilidade pelos crimes que afirma lamentar. Mesmo assim, o presidente pediu que a instituição recupere um papel que nunca cumpriu.

A palavra “falha” absolve a organização. Parece indicar um desvio acidental de uma missão pacífica. O Conselho de Segurança, no entanto, foi montado para garantir às grandes potências o bloqueio de qualquer decisão contrária aos seus interesses. O direito de veto, criticado pelo próprio Lula, não é um defeito surgido com o tempo. É uma das bases da entidade fundada pelas potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial. A ONU continua a cumprir o papel que recebeu dentro da ordem imperialista.

O imperialismo norte-americano recorre à ONU quando consegue utilizá-la contra um país atrasado. Quando não obtém autorização, Washington age por fora dela. Invade, bombardeia, impõe sanções e sequestra dirigentes estrangeiros. Depois, diplomatas lamentam a “paralisia” da organização e convocam novas reuniões no mesmo salão onde os responsáveis pelos crimes mantêm seus privilégios.

Em Gaza, a fraude está exposta. Décadas de resoluções, sessões especiais e declarações humanitárias não impediram “Israel” de destruir cidades, assassinar a população e ampliar a ocupação da Cisjordânia. A Casa Branca protegeu os sionistas enquanto a ONU contabilizava os mortos e distribuía notas de preocupação. O ritual oferece uma cobertura humanitária para a continuidade do genocídio.

Lula chamou de genocídio a ofensiva conduzida por Netaniahu. Logo depois, condenou os supostos “atos terroristas do Hamas” e voltou a defender a chamada solução de dois Estados. Colocou no mesmo discurso o povo ocupado e a força ocupante, a resistência palestina e o Estado que destrói suas cidades. Condenou os excessos de “Israel”, mas não defendeu a luta necessária para derrotar o sionismo.

Na Venezuela, o presidente brasileiro limitou-se a dizer que o povo deve definir o próprio destino. Não pronunciou o nome de Nicolás Maduro, capturado em Caracas por tropas norte-americanas no dia 3 de janeiro e levado para uma prisão em Nova Iorque. Enquanto Lula discursava, Donald Trump celebrava na própria Assembleia Geral a captura do presidente venezuelano como uma vitória dos Estados Unidos. Maduro permanece preso no Brooklyn e a riqueza petrolífera do país está sendo negociada sob a supervisão de Washington, segundo informações da agência Reuters.

O sequestro de um chefe de Estado por uma potência estrangeira destrói qualquer pretensão de soberania entre os membros da ONU. A entidade não protegeu a Venezuela, não puniu os invasores e não impediu que o governo norte-americano passasse a dirigir a reorganização econômica do país atacado. Aceitou a ocupação como fato consumado e tornou-se cúmplice do sequestro e da pilhagem.

Com o Irã, Lula repetiu a cautela. Disse que o Estreito de Ormuz se transformou em uma trincheira e destacou os efeitos da guerra sobre combustíveis e alimentos. Não denunciou com a mesma clareza os responsáveis: os Estados Unidos e “Israel”, que atacaram o território iraniano e impuseram um bloqueio aos portos do país. Em julho, Trump restabeleceu o cerco naval e ameaçou novos ataques contra a infraestrutura iraniana, informou a Reuters.

No discurso, a agressão apareceu principalmente como uma crise do comércio internacional. A luta contra o imperialismo deu lugar à preocupação com o preço das mercadorias. O Irã não está diante de um mal-entendido que será resolvido por uma reunião do Conselho de Segurança. Está submetido a uma guerra destinada a destruir sua soberania e obrigá-lo a aceitar as ordens da Casa Branca.

A Rússia recebeu tratamento semelhante. Lula disse que a guerra na Ucrânia não terá vencedores e que a diplomacia seria a única saída. Nada falou sobre o cerco organizado pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o uso da Ucrânia como instrumento militar contra Moscou e as milhares de sanções impostas pelos países imperialistas. A ONU não deteve a ofensiva. Forneceu mais uma tribuna para apresentar a Rússia como responsável isolada por uma guerra preparada durante anos pela Otan.

Quando afirma que “somos todos reféns” do Conselho de Segurança, Lula apaga a divisão entre os países que atacam e os povos atacados. Os palestinos massacrados, o Irã bloqueado, a Rússia cercada e a Venezuela ocupada não têm a mesma responsabilidade dos Estados Unidos e de seus aliados. A frase transforma crimes concretos do imperialismo em uma suposta falha geral da humanidade.

Essa hipocrisia pode ficar para os representantes das potências que dirigem a ONU. Uma liderança de esquerda deveria denunciar a farsa, apontar os agressores, defender os povos atacados e explicar que a paz não virá de uma instituição controlada pelos responsáveis pelas guerras.

Lula preferiu exaltar uma suposta história de defesa da descolonização, dos refugiados e dos direitos humanos. Na mesma Assembleia, Trump vangloriou-se da captura de Maduro, reafirmou o poder militar norte-americano e anunciou novas bases na Groenlândia. A ONU ouviu tudo como sempre faz. O presidente brasileiro ainda pediu que ela volte a ser chamada de “templo da paz”.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.