O governo Lula transformou a soberania nacional em um dos principais temas de sua campanha eleitoral. No pronunciamento de 7 de Setembro e novamente nesta terça-feira (22), na Assembleia Geral da ONU, o presidente denunciou ingerências estrangeiras e afirmou que o Brasil não pode ser tratado como “quintal” de nenhuma potência. Ao mesmo tempo, uma organização ligada ao aparato de inteligência dos Estados Unidos prepara a chegada de profissionais norte-americanos aos escritórios do Banco Mundial em Brasília e São Paulo sem que o governo brasileiro tenha sido previamente consultado.
Segundo revelou a Folha de S.Paulo, o Banco Mundial firmou um acordo com a NobleReach para financiar oito cidadãos dos Estados Unidos que trabalharão em seus escritórios na América Latina. Quatro vagas ficam no Brasil, duas em Brasília e duas em São Paulo. A fundação fará uma doação de US$500 mil e também dará treinamento e mentoria aos participantes. Não foram divulgados os projetos específicos em que eles trabalharão.
A NobleReach tem relações documentadas com o aparelho de segurança nacional norte-americano. Em janeiro de 2025, assinou um acordo de cinco anos com a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, a NSA, destinado inclusive a preparar estudantes para carreiras na comunidade de inteligência. A organização incorporou ainda a Emerge, iniciativa anteriormente vinculada à In-Q-Tel, instituição criada para atender às necessidades tecnológicas dos serviços de inteligência dos Estados Unidos. Um de seus integrantes, Glenn Gaffney, ocupou durante décadas cargos de direção na CIA.
O Banco Mundial afirma que os profissionais responderão à própria instituição, e não à NobleReach. Uma organização inserida no sistema de segurança nacional dos Estados Unidos vai financiar pessoal norte-americano para atuar no Banco Mundial dentro do Brasil, e o governo brasileiro não participou previamente dessa decisão.
Reduzir a discussão da soberania ao embate com Trump favorece a política da frente ampla: apresenta como defensores da independência nacional setores do aparelho de Estado que mantêm há décadas relações estreitas com o imperialismo norte-americano.
O Banco Central é um dos problemas concretos. Desde 2021, seu presidente e seus oito diretores possuem mandatos fixos que não coincidem com o mandato presidencial. A lei estabelece ainda que cabe privativamente ao BC conduzir a política monetária necessária para cumprir as metas definidas pelo Conselho Monetário Nacional.
O PT combateu essa lei quando ela foi aprovada. Junto com o PSOL, entrou no Supremo Tribunal Federal para tentar derrubá-la, argumentando, entre outros pontos, que a medida retirava do governo eleito autoridade sobre um instrumento central da política econômica. O STF rejeitou a ação e manteve a autonomia. O dado é importante justamente para fazer a crítica com precisão: o PT foi contra a medida, mas o governo Lula não rompeu com o regime institucional que ela criou.
Outro problema aparece nos órgãos de segurança. Em 2023, o próprio governo de “Israel” anunciou que o Mossad havia colaborado com autoridades brasileiras na Operação Trapiche. Flávio Dino, então ministro da Justiça, reagiu à tentativa israelense de apresentar a operação como ação própria e declarou que nenhuma força estrangeira mandava na Polícia Federal brasileira.
A reação de Dino desmente a ideia de que o governo tenha simplesmente aceitado em silêncio a declaração do Mossad. Mas não elimina o problema político: a cooperação entre aparelhos brasileiros e serviços de inteligência estrangeiros existe e é tratada institucionalmente como atividade normal.
A revelação sobre a NobleReach coloca mais um fato nessa discussão. Não é necessário inventar um comando secreto da CIA sobre todo o sistema financeiro brasileiro. Há uma entidade cuja própria documentação mostra parceria com a NSA, histórico ligado à In-Q-Tel e participação de antigos dirigentes da inteligência norte-americana. Essa entidade acaba de colocar dinheiro num programa para enviar profissionais dos Estados Unidos ao Banco Mundial no Brasil.
Lula confronta Trump quando a pressão norte-americana assume uma forma aberta e eleitoralmente útil, mas o País continua convivendo com um Banco Central protegido da autoridade direta do governo eleito, cooperação de seus órgãos policiais com serviços estrangeiros e instituições internacionais permeadas pelo aparelho de segurança dos Estados Unidos.





