Polêmica

O ‘socialismo democrático’ do DSA não assusta a burguesia

Os Socialistas Democráticos Americanos (DSA) se encaminharam rapidamente para se tornarem uma esquerda consentida que em nada ameaça o capital

A Dança II - Matisse (1910)

O artigo EUA: socialistas estão vencendo usando meios democráticos tradicionais, de Alex Marinides, publicado pelo sítio Esquerda Online nesta segunda-feira (27), deveria levar todo militante socialista a formular algumas perguntas: é possível alcançar o socialismo por meio das eleições? Esses parlamentares representam algum risco real para a burguesia?

A política marxista sobre as eleições, formulada por Vladimir Lênin, estabelece que a participação no processo eleitoral burguês deve ser tática. O parlamento deve servir como tribuna para a agitação revolucionária e para o combate ao cretinismo parlamentar, isto é, à ilusão de que o socialismo pode ser alcançado por meio de reformas eleitorais pacíficas.

Para Lênin, as eleições constituem um instrumento secundário. A transformação da sociedade exige a derrota da burguesia e a destruição do Estado burguês.

O próprio título do artigo é uma propaganda da democracia burguesa, típica da esquerda norte-americana, que permanece politicamente subordinada ao Partido Democrata.

É evidente que as massas ainda valorizam o voto, e esse fato não deve ser desprezado. Um parlamentar socialista, porém, deveria utilizar a tribuna para alcançar os trabalhadores que ainda confiam nas instituições burguesas e revelar a realidade da exploração capitalista.

Um socialista não disputa o parlamento para gerir o Estado, mas para expor suas fraudes e demonstrar sua verdadeira função: defender os interesses da burguesia e esmagar os trabalhadores.

Parlamentares comunistas devem atuar como porta-vozes da classe operária, utilizando a tribuna oficial para denunciar o governo, a burguesia e o próprio regime político.

O artigo afirma:

“É legal ser socialista hoje em dia. Em 2025, a surpreendente vitória de Zohran Mamdani na eleição para prefeito de Nova York abalou o mundo político, tanto nacional quanto internacionalmente. Em junho deste ano, os Socialistas Democráticos da América da Cidade de Nova York (NYC-DSA) obtiveram uma vitória expressiva em nove das dez primárias para o Congresso e para a Assembleia Legislativa estadual em que concorremos na cidade de Nova York, além de uma vitória inesperada em Buffalo e a derrota de um deputado que ocupava o cargo há 28 anos em Syracuse. Fora do estado de Nova York, vimos vitórias na Filadélfia, em Washington, D.C., e mais recentemente em Denver, onde Melat Kiros derrotou um deputado que ocupava o cargo há mais tempo do que Kiros está viva.”

O que representa, exatamente, a eleição de Zohran Mamdani em Nova Iorque? A chegada de mais um gestor supostamente competente ao comando de uma das principais cidades do imperialismo?

No Brasil, o PT já ocupou várias vezes a Presidência da República, sem que isso impedisse o contínuo rebaixamento das condições de vida da população. Depois do golpe de Estado de 2016, as pequenas reformas conquistadas durante os governos petistas foram rapidamente destruídas no curto mandato do golpista Michel Temer.

O ‘sucesso’

Segundo Marinides:

“A mídia política tem gastado muito tempo tentando, sem sucesso, explicar o sucesso dos DSA, tentando nos enquadrar como uma espécie de Tea Party da esquerda ou argumentando que estamos surfando na onda de indignação da base democrata após a humilhante derrota do establishment do partido para Donald Trump e o Partido Republicano pela segunda vez na eleição presidencial de 2024. Outros analistas, por sua vez, apontam os vídeos verticais e a viralização nas redes sociais como a principal explicação, que de fato contribuíram para impulsionar Zohran até a Gracie Mansion — residência oficial do prefeito da cidade de Nova York — e que, desde então, vêm sendo imitados por candidatos mais à direita do que pelos à esquerda, com pouco sucesso.”

A resposta apresentada pelo artigo é a de que “a maioria desses argumentos minimiza um aspecto fundamental para explicar a onda socialista democrática: a priorização da democracia participativa, em que os membros contribuintes têm voz e voto nas campanhas que apoiamos, sejam elas eleitorais ou não”.

Marinides acrescenta:

“Este é um modelo para a visão de socialismo democrático que desejamos construir nos Estados Unidos de forma mais ampla: a de que aqueles que trabalham têm o direito de controlar aquilo em que estão trabalhando.”

O “socialismo democrático” descrito pelo autor baseia-se principalmente na disputa direta pelos votos. Trata-se de uma militância que consiste em bater de porta em porta, conversar com os eleitores e apresentar determinadas propostas.

Até aí, não haveria nada de errado. A militância política também consiste no trabalho de convencimento. O problema está no conteúdo desse convencimento e no objetivo ao qual ele está subordinado.

O próprio autor demonstra certa frouxidão em relação à defesa do socialismo ao explicar uma das táticas utilizadas nas campanhas:

“Você logo aprende, portanto, a ouvir mais do que a falar e, quando fala, a falar de forma simples. Parece óbvio, mas é uma prática que vai contra o instinto. A política é sobre persuasão, e a persuasão é frequentemente interpretada como impor a resposta correta — ou ‘linha de raciocínio’ — ao eleitor. O mais importante é deixar que o eleitor se convença por si mesmo: deixar que ele diga o que é importante para ele e só então conectar isso à plataforma e deixar a relação clara.”

Não se trata, portanto, de utilizar as eleições para elevar a consciência política dos trabalhadores, mas de adaptar o discurso às preocupações imediatas do eleitor e conduzi-lo até uma plataforma essencialmente eleitoral.

A centralidade atribuída às eleições revela desde já um limite muito claro do DSA. A tendência é que a organização se integre cada vez mais ao aparato estatal, como ocorreu com a esquerda parlamentar brasileira, que se transformou em defensora das instituições burguesas e passou a apoiar leis cada vez mais duras e reacionárias.

Marinides afirma que, “ao longo do caminho, convencemos milhares desses eleitores a se juntarem ao nosso movimento pelo socialismo democrático” e que “fazemos isso porque acreditamos na democracia”.

Essa profissão de fé na democracia burguesa está muito longe de constituir uma política socialista.

Na realidade, trata-se do abandono do socialismo em favor das posições da democracia liberal, isto é, do regime político do imperialismo.

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