A União das Associações Europeias de Futebol, a UEFA, anunciou nesta quinta-feira (30) que suas 55 federações deixarão de participar das competições organizadas pela FIFA, incluindo a Copa do Mundo, enquanto a entidade mantiver o plano de entregar a investidores privados uma participação nos direitos comerciais de seus torneios.
A decisão foi tomada durante uma reunião virtual de emergência presidida por Aleksander Ceferin. Segundo a UEFA, as federações europeias rejeitaram por unanimidade a proposta apresentada pelo presidente da FIFA, Gianni Infantino.
A operação poderia alcançar cerca de US$20 bilhões. Entre os possíveis investidores estaria a Thrive Eternal, empresa dirigida por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente norte-americano Donald Trump.
A UEFA declarou que o boicote continuará até que o projeto seja retirado integralmente. A entidade exigiu ainda garantias de que a FIFA não voltará a abrir suas competições ou sua direção à participação acionária de grupos privados.
Infantino havia estabelecido o dia 19 de setembro como prazo para a adesão das 211 federações filiadas, ameaçando com consequências financeiras aquelas que se recusassem. A UEFA classificou o ultimato como “governança pela intimidação”.
O confronto ocorre às vésperas de uma nova eleição para a presidência da FIFA. O registro de candidaturas termina em 18 de novembro e a votação está marcada para março de 2027, em Rabat, no Marrocos.
A venda dos direitos comerciais acelerou um conflito que já havia aparecido durante a Copa do Mundo de 2026. A competição foi marcada por decisões da FIFA que favoreceram os Estados Unidos e provocaram reclamações de federações europeias e de outros países.
O caso de Balogun foi um dos mais escandalosos. Uma punição que deveria afastar o jogador norte-americano de uma partida foi convertida em multa. Trump declarou ter pedido diretamente a Infantino que permitisse sua presença em campo.
Também houve queixas contra gols anulados, critérios diferentes de arbitragem e o tratamento dado às delegações. A Argentina recebeu um caminho considerado excepcionalmente favorável, além de melhores condições de estádios e horários.
A campanha em favor da seleção argentina repetiu a roubalheira da Copa de 2022, quando o time recebeu cinco pênaltis. Lionel Messi foi novamente transformado no principal produto comercial do torneio, apesar de a Argentina chegar à final e perder para a Espanha por 1 a 0 sem produzir uma atuação correspondente à propaganda feita em torno da equipe.
Messi não aparece por acaso no centro dessa operação. Depois da Copa de 2022, transferiu-se para o futebol norte-americano e tornou-se o principal garoto-propaganda da tentativa de popularizar e valorizar comercialmente o esporte nos Estados Unidos.
A atual direção da FIFA nasceu da intervenção norte-americana conhecida como FIFAgate. Em 2015, o Departamento de Justiça e o FBI comandaram uma operação contra dirigentes da entidade. Prisões foram realizadas em Zurique, pouco antes de um congresso da FIFA.
A ofensiva foi apresentada como uma investigação contra a corrupção. Na prática, as agências norte-americanas derrubaram o grupo que dirigia a organização e abriram caminho para uma mudança em seu comando.
Até aquele momento, o imperialismo europeu exercia a influência predominante sobre a FIFA. O FIFAgate não retirou a entidade do controle imperialista. Transferiu a posição principal para os Estados Unidos.
Infantino foi eleito em 2016. Dois anos depois, Estados Unidos, Canadá e México conquistaram a sede da Copa de 2026. O território norte-americano também recebeu o Mundial de Clubes de 2025.
Desde então, Infantino aproximou-se abertamente de Trump. A FIFA passou a utilizar suas competições para promover os Estados Unidos, seus patrocinadores e os interesses ligados ao governo norte-americano.
A possível entrada de uma empresa dirigida pelo irmão do genro de Trump confirma o sentido da operação. O grupo político que se apoderou da FIFA por meio do aparato policial dos Estados Unidos pretende agora transformar parte da Copa do Mundo em propriedade privada.
A reação da UEFA tampouco representa uma defesa do futebol contra os capitalistas. Os clubes e as federações europeias concentram as maiores receitas, retiram jogadores dos países pobres e controlam os campeonatos mais ricos do mundo.
O que está em curso é uma disputa entre o imperialismo norte-americano e o europeu. Os Estados Unidos procuram consolidar o controle da FIFA, enquanto a Europa tenta recuperar a influência perdida depois do FIFAgate.
A ameaça de retirar 55 seleções das competições mostra a gravidade do conflito. O futebol mobiliza bilhões de pessoas, movimenta enormes somas e exerce uma influência política que vai muito além dos estádios. Por isso, seu domínio tornou-se objeto de uma disputa aberta entre as grandes potências.





