Guerra no Oriente Próximo

A caganeira do partido ‘comunista’ do Irã

Dá para acreditar que quem não pega em armas para defender o próprio país vai um dia pegar em armas para defender o socialismo?

No dia 28 de fevereiro, data em que teve início a agressão imperialista-sionista, o Partido Tudeh do Irã (que se reivindica herdeiro do Partido Comunista) publicou uma nota condenando os ataques. Mas seu conteúdo, no fim das contas, revela outra posição: mesmo diante de bombardeios e de um plano declarado de destruição e de “mudança de regime”, o partido se recusa a orientar a entrada na guerra e ainda preserva como eixo estratégico a derrubada do governo iraniano!

Seria normal um partido no Brasil escrever textos denunciando a agressão e convocando a mobilização contra o imperialismo, sem necessariamente enviar seus militantes para o combate. O aqui é outro: o Tudeh está no Irã, fala aos “compatriotas” e, diante de “extensos ataques aéreos e com mísseis perpetrados pelo governo racista de Israel e pelos Estados Unidos”, não orienta seus militantes a cerrar fileiras na defesa nacional e a lutar ao lado do país atacado. Ao contrário, a nota insiste em uma política que separa “defesa do Irã” de “luta contra o governo”, convertendo a agressão externa em pretexto para manter — e aprofundar — uma política golpista que já era criminosa antes da guerra aberta.

A própria nota admite que a agressão não é um fato “pontual” nem uma operação limitada. Ela registra que Trump declarou um “ataque militar massivo” cujo objetivo é “a destruição das capacidades nucleares e de mísseis do país e, ao mesmo tempo, a mudança de regime no Irã”.  E afirma que a agressão “sem dúvida resultará na perda de vidas (…) e na destruição do país”. Ou seja, o partido descreve o essencial: o imperialismo quer esmagar a capacidade de defesa do Irã e derrubar o governo.

Não por acaso, a nota omite outro objetivo explicitado pelo governo norte-americano: o fim do apoio ao Ansar Alá do Iêmen e ao Movimento de Resistência Islâmica (Hamas). O Tudeh não faz isso porque tornaria a sua política anterior de pedir a derrubada do regime ridícula.

A posição consequente, para qualquer organização que atue dentro do país agredido, seria simples: prioridade absoluta à derrota do agressor, unidade nacional com o governo que está enfrentando o imperialismo e orientação prática para participação no esforço de guerra e de defesa do território, ao mesmo tempo em que se faz agitação política e se organiza solidariedade internacional material. Nada disso aparece como linha central no texto do Tudeh.

O que aparece é outra orientação. O partido convoca “todas as forças nacionais e defensoras da liberdade do Irã, bem como as forças pacifistas e progressistas do mundo todo” a “unirem forças (…) para estabelecer a paz e pôr fim à agressão”. E conclui: “a destruição do Irã não é o caminho para salvar o país do jugo do atual governo despótico; isso só será possível através da luta do povo e das forças nacionais e defensoras da liberdade do país”.

A nota não organiza o país para derrotar o agressor; ela recoloca como solução a “luta” contra o governo no momento em que o imperialismo está tentando impor, pelas bombas, a própria “mudança de regime”.

O Tudeh diz que a agressão “não (…) se trata de um prenúncio da libertação do Irã do jugo da tirania e ditadura atuais” e que é “uma tentativa de destruir o Irã (…) e substituir o governo vigente por um regime dependente e despótico”. Isso é um reconhecimento explícito do caráter colonial do ataque. Mas a nota não rompe com a sua linha anterior: a ideia de que o problema central do Irã é o “governo despótico” e que a saída verdadeira é a derrubada do regime. Na prática, a agressão só serve para o Tudeh repetir o mesmo programa, agora com vocabulário de “paz” e “fim da agressão”.

Essa recusa em orientar a entrada na guerra não surge do nada. Ela é consequência lógica de uma política reacionária, já praticada pelo partido, de defender a derrubada do governo iraniano enquanto o país vinha sofrendo um cerco permanente do imperialismo: sanções, sabotagens, assassinatos seletivos, infiltração, guerra de propaganda, e a ameaça constante de ataque aberto. Um partido que passa anos tratando o governo que organiza a defesa nacional como inimigo principal, no instante em que o imperialismo aperta o gatilho, não consegue — ou não quer — mudar de campo.

O resultado é uma posição que combina duas frases incompatíveis. De um lado, a denúncia correta de que Trump quer “mudança de regime” e que o ataque visa destruir o país. De outro, a orientação política central é “estabelecer a paz” com “forças pacifistas” e afirmar que a salvação “só será possível através da luta do povo” contra o “governo despótico”. Em outras palavras: o Tudeh diz reconhecer a operação imperialista, mas se nega a organizar a única resposta capaz de derrotá-la, e preserva como norte a derrubada do governo sob bombardeio.

Há um detalhe que torna a capitulação ainda mais evidente. O Tudeh registra que a agressão foi “bem recebida por forças como Reza Pahlavi e o Mujahedin-e Khalq”. Mas em vez de usar essa constatação para chamar à unidade nacional e para separar nitidamente o povo iraniano dos agentes do imperialismo, o texto segue empurrando a política para o terreno da “luta contra o regime”. É exatamente esse tipo de deslocamento que permite aos Pahlavi e aos seus semelhantes se apresentarem como “alternativa”, enquanto o país é destruído.

Antes da guerra aberta, defender a derrubada do governo iraniano no contexto de cerco imperialista já era reacionário porque enfraquecia a resistência e criava as condições para a intervenção. Agora, com a agressão em curso e o objetivo declarado de “mudança de regime”, insistir nessa mesma linha — sem orientar a entrada na guerra, sem cerrar fileiras na defesa nacional — significa aprofundar a política criminosa de ontem. É a continuação, em nível superior, da mesma capitulação.

A política atual, no entanto, torna ainda mais claro o problema. O Partido Tudeh não quer participar da guerra pelo motivo mais óbvio de todos — porque teme lutar contra o imperialismo. Seus militantes não estão dispostos a pegar em armas para defender seu país, que dirá defender a revolução socialista. A tal “derrubada do regime” não pode ser uma luta pelo socialismo, mas sim uma ação para favorecer o imperialismo.

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