Política internacional

O fim do bipartidarismo?

Crise atual do regime britânico mostra que a antiga forma de governo já não consegue garantir a mesma estabilidade

A crise do Partido Trabalhista Britânico, marcada pela renúncia de Keir Starmer, é mais um sinal da decomposição política nos países centrais do imperialismo. A crise na Inglaterra expressa a agonia de um regime político que foi, durante mais de um século, um dos modelos mais estáveis de dominação da burguesia.

A Inglaterra construiu um sistema baseado na alternância entre dois grandes partidos. Primeiro, conservadores e liberais. Depois, conservadores e trabalhistas. Esse funcionamento atravessou guerras, crises econômicas e grandes transformações internacionais.

A burguesia inglesa ocupava uma posição privilegiada no capitalismo mundial. Mesmo depois de perder para os Estados Unidos a condição de principal potência imperialista, a Inglaterra conservou um papel importante nas finanças internacionais, na chamada zona da libra e na exploração de países que haviam sido suas colônias.

Esse fundamento enfraqueceu. A crise atual do regime britânico mostra que a antiga forma de governo já não consegue garantir a mesma estabilidade. Nos últimos anos, primeiros-ministros se sucederam em ritmo acelerado, com governos curtos e incapazes de recompor a autoridade do Estado. O paralelo com países atrasados, como o Peru, onde houve nove presidentes em dez anos, deixou de ser exagero.

O dado mais importante é que a crise atinge os dois partidos do regime. O Partido Conservador aparece sem capacidade de se recuperar no período próximo. O Partido Trabalhista, que havia sido apresentado como alternativa segura para a burguesia, caminha para uma derrota eleitoral de grandes proporções. Há previsões de perda de centenas de cadeiras no Parlamento.

Diante do esgotamento dos dois partidos tradicionais, cresce a extrema direita em torno de Nigel Farage. Esse crescimento é um sintoma da decomposição do regime britânico. Ao mesmo tempo, é também uma tentativa de recomposição por cima. Farage não representa uma ruptura real com a burguesia inglesa. É um conservador mais agressivo, adaptado ao eleitorado de extrema direita e à campanha contra imigrantes.

A manobra, porém, mostra a fraqueza do regime. Se a burguesia precisa abandonar seus partidos históricos e improvisar novas formas de representação, os instrumentos tradicionais de controle político estão gastos.

O bipartidarismo britânico e o bipartidarismo norte-americano foram as formas mais acabadas de dominação política do imperialismo moderno. Em ambos os casos, a burguesia garantiu a alternância entre dois partidos ligados ao mesmo regime. Um podia se apresentar como mais conservador, outro como mais liberal ou social-democrata. No essencial, ambos preservavam os interesses do capital imperialista.

Nos Estados Unidos, esse sistema ainda funciona formalmente, mas também está em crise. A ascensão de Donald Trump no interior do Partido Republicano mostrou que a burguesia norte-americana perdeu parte do controle sobre um de seus principais partidos. A extrema direita não surgiu fora do regime. Surgiu de dentro dele, como produto da crise do próprio sistema político.

A burguesia dos Estados Unidos observa esse processo com enorme preocupação. Depois de duas experiências com Trump, não está descartado que setores do grande capital procurem reorganizar o regime por outras vias, caso não consigam disciplinar novamente o Partido Republicano.

Na França, a crise é ainda mais evidente. O regime francês nunca alcançou a estabilidade britânica. Mesmo assim, a burguesia conseguiu manter o poder por meio de sucessivas manobras eleitorais e institucionais. Emmanuel Macron foi uma dessas manobras. Seu partido foi improvisado às vésperas da eleição, reunindo pedaços da direita tradicional e do antigo Partido Socialista.

A operação funcionou por pouco tempo. Macron venceu duas eleições presidenciais, mas seu partido se esgotou rapidamente. A França aparece hoje polarizada entre a extrema direita e uma esquerda situada à esquerda do Partido Socialista, que praticamente desapareceu como força decisiva. Os partidos apresentados pela sociologia burguesa como “centro” perderam sustentação.

Na Itália, o regime político foi profundamente abalado desde a operação Mãos Limpas, que destruiu a Democracia Cristã e o Partido Socialista. A burguesia passou a governar por meio de partidos improvisados. Primeiro veio Silvio Berlusconi. Depois, a Liga, o Movimento Cinco Estrelas e outras combinações. Todas se desgastaram rapidamente.

Hoje, a Itália é governada por um partido de origem fascista, o Irmãos da Itália, de Giorgia Meloni. A burguesia italiana sustenta esse governo porque já não dispõe de instrumentos mais sólidos. Meloni governa em nome do capital imperialista italiano, mas isso não elimina a fragilidade da situação. Pelo contrário, mostra que o regime precisou recorrer a uma solução de extrema direita para manter a ordem.

Na Alemanha, país mais rico da Europa, o desgaste também avança. O regime alemão foi mais estável que o francês e o italiano, mas a crise econômica, a submissão aos Estados Unidos e o custo da guerra contra a Rússia corroeram os partidos tradicionais. Em Portugal, Espanha, Holanda e Bélgica, a instabilidade também se amplia.

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