Um trem da Linha 12-Safira pegou fogo na manhã desta quinta-feira (23), apenas três dias depois de a Trivia Trens assumir definitivamente três linhas ferroviárias de São Paulo. O incêndio interrompeu a circulação das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, além do Expresso Aeroporto, obrigando milhares de trabalhadores a deixar as composições e caminhar pelos trilhos.
O incêndio começou por volta das 5h38, nas proximidades da estação Bresser-Mooca, na região do Brás. Vídeos feitos dentro do trem mostram faíscas na parte externa da composição, seguidas por um clarão, chamas e gritos dos passageiros.
Um dos vagões ficou completamente destruído. Segundo Paulo Ferreira, diretor de operações da Trivia Trens, um possível curto-circuito provocou o desligamento das subestações de energia e paralisou as linhas operadas pela empresa.
O Corpo de Bombeiros declarou que não houve mortos. Passageiros precisaram sair das composições com auxílio de agentes públicos, enquanto as estações da Linha 3-Vermelha do Metrô ficaram lotadas com o deslocamento dos usuários.
A Trivia informou que acionou o Plano de Apoio entre Empresas em Situação de Emergência, inicialmente com 36 ônibus, e solicitou a transferência gratuita dos passageiros nas estações Tatuapé e Corinthians-Itaquera.
“A prioridade da concessionária é a segurança das pessoas”, declarou a empresa em nota. A frase, no entanto, foi divulgada depois que os passageiros ficaram presos em uma composição em chamas e depois de três dias consecutivos de falhas nas linhas recém-entregues à iniciativa privada.
Depois do incêndio, a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) foi chamada para reassumir por até 90 dias a operação das linhas 11, 12 e 13 e do Expresso Aeroporto.
Segundo a Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp), o objetivo da medida é “garantir a qualidade do serviço” e evitar novas falhas. Na prática, o governo de Tarcísio de Freitas entregou as linhas a uma empresa privada e, diante da primeira grande crise, precisou recorrer imediatamente à companhia estatal.
A Trivia assumiu oficialmente as linhas à meia-noite da terça-feira (21), após 60 dias de operação supervisionada pela CPTM. Já na quarta-feira (22), passageiros denunciaram atrasos, plataformas lotadas e escadas rolantes paradas nas estações do Brás.
Na manhã seguinte, um trem pegou fogo e toda a operação foi interrompida.
A transferência envolve 101,8 quilômetros de trilhos, 32 estações, 92 trens e quase 1 milhão de passageiros por dia. A empresa recebeu uma concessão de 25 anos e prometeu investir R$14,3 bilhões, abrir oito estações, reformar outras quatro e ampliar a malha em 25,8 quilômetros.
A Trivia pertence ao grupo Comporte Participações, controlado pelo empresário Nenê Constantino, integrante da família fundadora da companhia aérea Gol. O mesmo grupo já controla a Tic Trens, responsável pela Linha 7-Rubi.
Os números do primeiro semestre mostram que a entrega das linhas ferroviárias aos empresários não resolveu os problemas do transporte paulista.
Nas linhas já privatizadas, o número de falhas passou de 57 no primeiro semestre de 2025 para 89 no mesmo período de 2026, aumento de 56,14%.
Na Linha 7-Rubi, controlada pela Tic Trens, as falhas aumentaram 600%, passando de três para 21. Na Linha 4-Amarela, operada pela ViaQuatro, o crescimento foi de 220%. Na Linha 5-Lilás, da ViaMobilidade, o número subiu 41,67%.
A Linha 11-Coral, que estava em transferência para a Trivia, registrou aumento de 275%, com 15 falhas no primeiro semestre deste ano, diante de quatro no mesmo período de 2025.
Já as linhas operadas diretamente pelo Metrô tiveram redução de 8,24% no total de falhas, de 85 para 78.
Os próprios dados divulgados pela imprensa desmentem a campanha segundo a qual a entrega dos serviços públicos aos capitalistas produz automaticamente maior eficiência. A prioridade das concessionárias é garantir a remuneração de seus proprietários, enquanto manutenção, trabalhadores experientes e investimentos aparecem como despesas a serem reduzidas.
Quando o serviço funciona, os empresários reivindicam o mérito. Quando um vagão pega fogo e centenas de milhares de pessoas ficam sem transporte, o Estado precisa enviar funcionários, policiais, ônibus emergenciais e uma empresa pública para restaurar a operação.
Na sexta-feira (24), a CPTM informou que as linhas afetadas voltaram a funcionar normalmente. A normalização ocorreu justamente depois de a companhia estatal reassumir o controle do serviço entregue por Tarcísio à Trivia Trens.



