A decisão do governo da Nicarágua de não se deixar levar pela farsa da democracia fez com que se iniciassem as já esperadas críticas do imperialismo, que por meio de sua imprensa inicia uma campanha contra o regime nicaraguense.
O editorial do Estadão, “Ortega rasga a fantasia”, publicado nesta quinta-feira (23), inicia dizendo que “o presidente Daniel Ortega anunciou que seus adversários jamais voltarão ao governo da Nicarágua pelas urnas: ‘Aqui não voltará a haver eleições’. Com isso, não inaugurou uma ditadura, apenas decidiu parar de fingir que a Nicarágua é democrática.” Se fosse assim, o Estadão precisaria apoiar Ortega, pois é de sua natureza apoiar ditaduras.
Continuando, o editorial diz que “após retornar à presidência pelo voto, em 2007, o extremista de esquerda chutou a escada e desmantelou o arcabouço democrático. Subordinou tribunais, manipulou regras eleitorais e reprimiu protestos. Antes da eleição de 2021, encarcerou pré-candidatos da oposição. Desde então, a perseguição avançou contra empresários, estudantes, jornalistas, religiosos e antigos correligionários. Milhares foram exilados. O fim das eleições consuma uma obra construída metodicamente.”
O Estadão, que apoiou a guerra de agressão contra o Irã, que apoia verdadeiros ditadores, como Vladimir Zelensqui, e as “democracias” europeias que espancam e colocam na cadeia quem se manifesta a favor da Palestina, ou denuncia o genocídio em Gaza, chama Ortega de extremista. Para um jornal que também defende o Estado genocida de “Israel”, deve mesmo incomodar quando um país atrasado desafia o imperialismo.
Sobre as acusações que o jornal faz, é preciso esclarecer que os manifestantes presos foram pagos pelo grande capital internacional para desestabilizar o país. Portanto, é claro que um governo vai reagir contra as investidas de forças inimigas.
As prisões na Nicarágua foram um ato de defesa, enquanto no Brasil, a prisão de Lula, que o Estadão apoiou, foi fruto de uma operação farsesca orquestrada desde os Estados Unidos para evitar que o petista se elegesse. De modo que a crítica do jornal a Ortega não passa de hipocrisia.
Dinastias
Enquanto apoia as monarquias absolutistas árabes, o Estadão diz que “há uma ironia especialmente degradante em oficializar o golpe no aniversário da insurreição que derrubou a família Somoza, em 1979. A revolução sandinista que prometia libertar a Nicarágua de uma dinastia cimentou outra. A mulher de Ortega, Rosario Murillo, foi elevada a ‘copresidente’, os filhos ocupam posições de influência e o Estado foi subvertido em patrimônio político do clã. A proscrição das urnas talvez proteja o regime no presente, mas deve tornar a sucessão mais dependente da truculência e mais sujeita a rupturas.”
O esforço do jornal é tratar uma questão política, da luta de classes, como se fosse simplesmente um projeto pessoal, de um caudilho que teria pegado um país inteiro para si e para sua família. A queixa tem fundamento no sentido em que o imperialismo tem utilizado as urnas para dar golpes de Estado por toda a América Latina. As recentes eleições na Bolívia, Peru e Colômbia têm colocado no poder governos de extrema direita e fantoches do grande capital. A Nicarágua acaba de fechar essa porta, daí o protesto do editorial.
Em seu tom melodramático característico, o jornal diz que “Ortega espera que esse futuro interesse pouco ao resto do mundo. China e Rússia oferecem apoio sem perguntas inconvenientes. Os Estados Unidos perderam influência, as democracias latino-americanas se dividem segundo afinidades ideológicas e outras crises disputam a atenção internacional. O tirano mostra fraqueza, não força, ao temer até uma eleição fraudulenta dentro de casa, mas comporta-se com audácia diante do exterior porque espera que a indignação logo se dissipe.”
Um dos problemas, do imperialismo é justamente a presença da Rússia e da China, que podem financiar um canal interoceânico na Nicarágua que absorverá os navios ultra largos ou que excedam os limites do Canal do Panamá, além de poder absorver aqueles que não queiram ficar esperando na fila para poder cruzar para o outro lado.
Cumplicidade
O jornal denuncia que “o governo brasileiro é cúmplice nesse cálculo. Lula já comparou a longevidade de seu amigo Ortega no poder à das premiês Angela Merkel e Margaret Thatcher, como se fossem coisas equivalentes. O próprio nicaraguense encarregou-se de demolir o argumento. Aquelas líderes permaneceram no poder enquanto obtiveram o consentimento dos eleitores”. A hipocrisia aparece novamente nesse trecho, pois é óbvio que nas “democracias” o tempo que alguém fica no poder só importa a depender do país. No caso da Venezuela, por exemplo, onde Nicolás Maduro foi votado, para o jornal burguês não existe o consentimento dos eleitores.
Para o Estadão, que apoia todas as ditaduras servis ao imperialismo, “o silêncio gritante do lulopetismo comprova sua hipocrisia: a democracia é tratada como detalhe inconveniente sempre que é seviciada pelos ‘companheiros’ em Caracas, Havana ou Moscou.”
Como também apoia a política de bloqueios e embargos econômicos, que segundo a revista The Lancet, matou mais de 28 milhões de pessoas nos últimos 50 anos, o “democrático” jornal diz que “a comunidade internacional não deveria limitar-se a divulgar notas de repúdio”. Em outras palavras, exige sanções. Obviamente, fazem uma ressalva cínica, de que as medidas “precisam preservar remessas, ajuda humanitária” e blá-blá-blá.
Gritaria
O problema todo é que, com as eleições, o imperialismo tinha uma porta escancarada para impor ditaduras nos países, mas mantendo a fachada de democracia. Com a medida nicaraguense, essa porta se fecha. Por isso, o editorial espuma pela boca e diz que “até autocratas costumam conservar eleições de fachada porque reconhecem no voto uma fonte de legitimidade que não conseguem substituir inteiramente.”
“Se essa ruptura não tiver consequências”, e aqui o jornal reitera que é preciso sancionar o país, “sua lição será ouvida muito além da Nicarágua: já se pode negar abertamente aos cidadãos o direito de mudar o governo sem pagar por isso.” – grifo nosso.
O trecho destacado mostra que a burguesia tem consciência de classe, por isso não quer que a Nicarágua sirva de exemplo, pede pulso firme contra o país. Por outro lado, a preocupação revela que a situação política não está estabilizada, e a Bolívia, bem como a polarização na Colômbia, comprovam que o terreno anda bastante instável no continente.



