Donald Trump aprovou um acordo de cooperação nuclear de 30 anos entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita. O pacto dará à monarquia acesso a reatores e tecnologia norte-americana e permitirá o estudo da instalação de uma usina de enriquecimento de urânio em território saudita.
Segundo o The New York Times e o The Wall Street Journal, o documento deverá ser assinado nesta semana pelo secretário de Energia norte-americano, Chris Wright, e pelo ministro saudita da Energia, o príncipe Abdulaziz bin Salman. Depois disso, será encaminhado ao Congresso dos Estados Unidos.
O acordo poderá render dezenas de bilhões de dólares às empresas norte-americanas encarregadas de instalar o programa nuclear saudita. Ao mesmo tempo, dispensa a monarquia de aceitar parte das regras internacionais que os Estados Unidos exigem de países como o Irã.
A Arábia Saudita não aderiu ao protocolo ampliado de salvaguardas da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que aumenta os poderes dos inspetores para investigar instalações e materiais relacionados ao programa nuclear de um país.
A fiscalização ficará a cargo de um acordo privado entre os governos norte-americano e saudita. Na prática, a potência que entregará os reatores e a tecnologia também participará diretamente do controle do programa.
A monarquia recusou ainda o chamado “padrão ouro”, adotado pelos Emirados Árabes Unidos, que proíbe o enriquecimento de urânio e o reprocessamento de combustível nuclear dentro do país.
O texto aprovado por Trump prevê que empresas norte-americanas realizem, durante dois anos, um estudo acerca da viabilidade do enriquecimento de urânio na Arábia Saudita. Caso o projeto seja autorizado, essas empresas instalarão e operarão a usina por meio de um sistema de “caixa-preta”, sem entregar formalmente os conhecimentos técnicos aos sauditas.
Se o governo norte-americano rejeitar o projeto, a Arábia Saudita ficará impedida de enriquecer urânio por dez anos. A proibição, portanto, não é permanente.
O enriquecimento de urânio e o reprocessamento de combustível são os dois principais caminhos para a produção do material necessário a uma arma nuclear. Apesar disso, o acordo admite que a Arábia Saudita disponha dessas atividades dentro de seu território.
A concessão torna-se ainda mais grave diante da posição declarada do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman. Em 2018, ele afirmou que a Arábia Saudita fabricaria uma bomba caso o Irã fizesse o mesmo.
“Se o Irã desenvolver uma bomba nuclear, seguiremos o mesmo caminho o mais rápido possível”, disse o príncipe. Claro que a reacionária monarquia saudita nada disse e nada fez quando “Israel” adquiriu armas nucleares.
Nas negociações ocorridas durante o primeiro mandato de Trump, os representantes sauditas também rejeitaram qualquer acordo que permitisse aos inspetores das Nações Unidas acesso irrestrito para procurar instalações nucleares clandestinas. No entanto, não houve nenhuma gritaria semelhante àquelas contra o Irã por parte da sacrossanta “comunidade internacional”.
O envolvimento de Jared Kushner, genro de Trump e então conselheiro da Casa Branca, também provocou denúncias. Um relatório divulgado por deputados do Partido Democrata em 2019 mostrou que Kushner defendeu a transferência de tecnologia nuclear para a Arábia Saudita, apesar da oposição de funcionários do governo.
Uma das empresas interessadas no negócio é a Westinghouse Electric, fabricante de reatores controlada pela Brookfield Asset Management. A Brookfield foi responsável por uma operação de US$1,1 bilhão que salvou um imóvel pertencente à empresa da família Kushner.
Durante o governo de Joe Biden, a cooperação nuclear foi mantida e vinculada à exigência de que a Arábia Saudita normalizasse suas relações com “Israel”. Trump retirou essa condição, o que contraria os interesses do imperialismo e do sionismo. Nesse sentido, Biden foi ainda pior que Trump: utilizou a mesma hipocrisia, pois também agrediu o Irã de diversas maneiras, e ainda forçou uma aproximação entre sauditas e o sionismo.
O novo acordo deixa evidente a dupla moral do imperialismo. Os Estados Unidos atacam o Irã sob a alegação de que o país não pode fabricar armas nucleares, mas permitem que uma monarquia títere dos EUA acumule tecnologia, instalações e materiais capazes de servir ao mesmo objetivo.
Não se trata de impedir a proliferação nuclear. O imperialismo procura retirar dos países independentes os meios de defesa, enquanto arma os governos que atuam como seus agentes.
O Irã foi submetido durante anos a inspeções internacionais, sanções, sabotagens e assassinatos de cientistas. Agora, sofre uma guerra aberta sob a mesma acusação de estar desenvolvendo uma bomba nuclear.
A Arábia Saudita, por sua vez, recebe reatores, investimentos e a possibilidade de enriquecer urânio sem aceitar as salvaguardas cobradas do governo iraniano. A diferença está no papel político de cada país: o Irã resiste à dominação imperialista; a monarquia saudita auxilia os Estados Unidos a controlar a Península Arábica e a atacar os povos da região.
Irã responde aos ataques norte-americanos
Os Estados Unidos prosseguiram nesta quarta-feira (22) com os ataques contra o Irã. Nos últimos dias, portos, torres de observação costeira e instalações militares e civis foram atingidos.
As forças iranianas responderam com novas operações contra bases, depósitos, aviões, drones e centros de processamento utilizados pelas tropas norte-americanas no Oriente Médio.
Na 21ª fase da Operação Saeqeh, o Exército iraniano atacou o Acampamento Doha, no oeste do Cuaite. Drones atingiram depósitos de munição e equipamentos logísticos pertencentes ao comando das forças terrestres dos Estados Unidos.
O Acampamento Doha é uma das principais bases norte-americanas no Cuaite e funciona como centro de abastecimento das tropas espalhadas pela Ásia Ocidental.
O Exército iraniano declarou que os ataques não são dirigidos contra os povos da região, mas contra as instalações utilizadas pelos Estados Unidos para agredir o território iraniano.
Na 22ª fase da operação, drones Arash atingiram a base de Al-Azraq, na Jordânia. Foram atacados depósitos de equipamentos e edifícios usados para alojar militares norte-americanos.
A base Sheikh Isa, no Barém, também foi atingida. Segundo o Exército iraniano, os drones atacaram depósitos, áreas de armazenamento e oficinas de manutenção de aviões pesados.
O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI) anunciou ainda que a 24ª onda da Operação Nasr 2 atingiu instalações de processamento de dados da Amazon no Barém.
O centro, denominado “me-south-1”, começou a operar em 2019 e atende aos Estados Unidos e a seus aliados no golfo Pérsico. A Amazon é uma das quatro empresas contratadas pelo Departamento de Defesa norte-americano no programa Capacidade Conjunta de Nuvem para Combate, no valor aproximado de US$9 bilhões.
Por meio desse contrato, a empresa fornece ao Pentágono serviços de armazenamento e processamento de dados, inteligência artificial e recursos de computação utilizados em operações militares.
Segundo o CGRI, a instalação atingida era um dos principais centros de transmissão de informações sigilosas para as forças norte-americanas na região.
Na 25ª onda da Operação Nasr 2, a Guarda Revolucionária Iraniana voltou a atacar bases na Jordânia. Mísseis e drones atingiram as bases aéreas Rei Faisal e Príncipe Hassan, incluindo uma instalação usada na preparação de caças F-15.
O CGRI informou que oito drones MQ-9 recém-chegados foram destruídos dentro de seus contêineres. Outros dois aparelhos sofreram danos graves. Dois helicópteros pesados também foram danificados em um ataque contra um hangar.
Um alojamento de tropas envolvidas na agressão contra o Irã foi atingido, provocando mortos e feridos entre os militares.
“A operação para punir o agressor continua”, declarou o CGRI. A organização advertiu que, caso os ataques prossigam, preparará uma ofensiva “que será seguida pela declaração de luto nacional nos Estados Unidos”.
A resistência ao imperialismo também avançou no mar Vermelho. O Ansar Alá anunciou um bloqueio contra navios ligados à Arábia Saudita no estreito de Bab al-Mandeb, em resposta à agressão saudita e ao cerco imposto ao povo iemenita.
A missão naval Aspides, da União Europeia, classificou como alto o risco para embarcações relacionadas aos Estados Unidos, à Arábia Saudita e a “Israel”. O aviso inclui navios de outras bandeiras que tenham passado recentemente por portos sauditas.
Algumas embarcações já alteraram suas rotas para evitar o mar Vermelho. Funcionários norte-americanos reconheceram que a ação do Ansar Alá pode obrigar os Estados Unidos a dividir seus meios militares entre a guerra contra o Irã e uma nova frente junto ao Iêmen.
Mais de 20 navios de guerra e centenas de aviões militares norte-americanos operam atualmente na região. Novas forças estão sendo enviadas para sustentar os ataques contra o Irã, que resiste bravamente e é um exemplo para os povos do mundo todo.





