O exército libanês enviou tropas, na terça-feira (21), para Zautar al-Gharbia, uma das três localidades escolhidas pelos Estados Unidos para iniciar as chamadas “zonas-piloto” no sul do Líbano. O programa, anunciado como parte de uma retirada israelense, começou em duas aldeias que nunca foram ocupadas por “Israel”.
O Departamento de Estado norte-americano anunciou operações em Frun, Srifa e Zautar al-Gharbia. Segundo o governo dos Estados Unidos, a medida resultou das negociações realizadas na semana anterior entre representantes libaneses e israelenses, em Roma, excluindo a resistência libanesa.
A execução do programa está sob a supervisão do Grupo de Coordenação Militar para o Líbano, que conta com a participação do Comando Central norte-americano. O exército libanês deve assumir a segurança das áreas escolhidas e retirar armas e posições militares do Hesbolá.
A lista divulgada, porém, não corresponde à relação apresentada inicialmente. Os primeiros relatos apontavam Frun, al-Ghandurieh e Zautar al-Gharbia. Posteriormente, al-Ghandurieh foi retirada e substituída por Srifa.
A alteração não resolveu a contradição fundamental do plano. Frun e Srifa estão fora da faixa controlada pelo exército sionista. Apenas Zautar al-Gharbia tem presença de tropas israelenses.
Frun e al-Ghandurieh não foram ocupadas porque a resistência do Hesbolá impediu o avanço israelense durante os primeiros combates da guerra. Os enfrentamentos nessas localidades obrigaram as forças invasoras a permanecer fora das duas aldeias.
A substituição de al-Ghandurieh por Srifa colocou outra região não ocupada entre as primeiras zonas. Assim, “Israel” pode aparecer como participante de uma retirada sem abandonar posições militares importantes no sul do país.
Moradores ouvidos pela Al Jazeera denunciaram a manobra:
“A inclusão dessas aldeias é uma prova de que ‘Israel’, na realidade, não está abrindo mão de nada, apesar do acordo, e pode permanecer nas outras áreas que ocupou.”
O prefeito de Frun também afirmou que nada havia mudado na localidade. Em Srifa, o prefeito declarou que nem sequer tinha sido informado sobre a inclusão do município no programa norte-americano e lembrou que o exército libanês esteve presente ali durante toda a guerra.
‘Reposicionamento’ sem prazo
O entendimento foi assinado em 26 de junho, depois de seis rodadas de negociações diretas entre o governo libanês e “Israel”, organizadas pelos Estados Unidos.
O documento determina que as forças libanesas ocupem as regiões deixadas pelo exército sionista e comprovem que não existem armas, túneis ou instalações do Hesbolá. A retirada israelense, por outro lado, não recebeu prazo.
O texto substitui a palavra “retirada” por “reposicionamento”. A mudança permite que “Israel” mantenha soldados no Líbano enquanto alegar que o Hesbolá representa uma ameaça.
Autoridades israelenses afirmaram que as tropas permanecerão numa faixa de até 10 quilômetros dentro do território libanês. As áreas sob ocupação correspondem a cerca de um quinto do país, segundo a Al Jazeera.
O ministro da Guerra israelense, Israel Katz, declarou publicamente que o exército não sairá da chamada “zona de segurança”. Órgãos israelenses também informaram que as unidades enviadas ao Líbano não receberam ordem para abandonar suas posições.
Um jornalista do norte-americano Axios afirmou que uma retirada limitada começaria na terça-feira. Nenhum plano concreto ou calendário foi apresentado.
O entendimento contém ainda um anexo de segurança mantido em sigilo. Segundo informações divulgadas após a assinatura, suas cláusulas procuram preservar a chamada “liberdade de ação” militar israelense no Líbano.
O acordo também impede o governo libanês de apresentar denúncias internacionais contra “Israel” pelos ataques, assassinatos e destruições cometidos durante a guerra. O Líbano assume obrigações imediatas, enquanto as tropas invasoras continuam no país e ficam protegidas de medidas judiciais promovidas pelo Estado atacado.
Exército libanês recebe tiros
Mesmo a operação limitada em Zautar al-Gharbia ocorreu sob ataque israelense. O exército libanês informou que soldados sionistas abriram fogo perto das unidades enviadas à aldeia.
O comando militar libanês advertiu que os disparos poderiam impedir o envio das tropas. O exército de “Israel” alegou que os libaneses entraram numa área situada fora dos limites aprovados pelos ocupantes e que, por isso, foram dados “tiros de advertência”.
O exército libanês também pediu que os moradores não retornassem imediatamente à aldeia. Segundo a instituição, a situação de segurança ainda não permitia a volta da população.
A ocorrência mostrou que “Israel” continua determinando onde as tropas libanesas podem circular dentro do próprio Líbano. O envio dos soldados, apresentado como recuperação da soberania nacional, depende das condições impostas pelo exército invasor.
Rejeição dentro do Líbano
O Hesbolá rejeitou o acordo e exigiu a retirada incondicional das tropas israelenses. O partido afirmou que continuará combatendo para expulsar as forças de ocupação.
Fontes militares libanesas também recusaram a possibilidade de trabalhar sob ordens israelenses:
“O exército não trabalhará sob as ordens de ninguém. Sua missão não consiste em limpar o terreno para o inimigo, facilitando sua entrada em áreas que ele não conseguiu alcançar por causa da forte resistência. O exército não será responsável pela ocupação de novas partes do território libanês.”
O presidente do Parlamento, Nabih Berri, advertiu que o entendimento pode provocar conflitos internos. Walid Jumblatt, ex-dirigente do Partido Socialista Progressista, criticou a tentativa de apresentar as armas do Hesbolá como causa da guerra, deixando em segundo plano a ocupação e os ataques israelenses.
O anúncio também provocou protestos em várias partes do país. Manifestantes denunciaram que o acordo coloca o Líbano sob tutela norte-americana e procura utilizar o exército contra a resistência.
Primeira visita desde 2009
O presidente libanês, Joseph Aoun, viajou aos Estados Unidos para reuniões com o secretário de Estado Marco Rubio e com Donald Trump. Foi a primeira visita de um presidente do Líbano ao país desde 2009, quando Michel Sleiman se reuniu com Barack Obama.
Depois do encontro com Aoun, Rubio elogiou os esforços do governo libanês para desarmar o Hesbolá, destruir suas instalações e avançar para um tratado com “Israel”.
Trump também vinculou o programa ao combate contra a resistência. Durante a visita, o presidente norte-americano declarou que uma entrada da Síria na guerra contra o Hesbolá “pode ser eficaz”.
Ou seja, o objetivo declarado pelos Estados Unidos é retirar as armas da principal força que impediu a ocupação completa do sul libanês.
Reservas israelenses em desagregação
O programa foi lançado quando as forças israelenses enfrentam uma grave falta de pessoal e equipamentos. Em 14 de julho, a Rádio do Exército de “Israel” descreveu as tropas da reserva como estando em situação de “colapso de fato”.
Segundo a emissora militar, brigadas e batalhões enviados ao Líbano operavam muito abaixo de seu efetivo completo. O exército também sofria com a falta de soldados e de tanques após meses de enfrentamentos contra o Hesbolá.
Desde março, pelo menos 32 soldados israelenses foram eliminados nos combates, a maioria no sul do Líbano. Apesar dos bombardeios e da ocupação, combatentes do Hesbolá continuam atuando dentro da faixa controlada pelas tropas sionistas.
A transferência das tarefas para o exército libanês permite que “Israel” reduza a pressão sobre unidades desgastadas sem renunciar às áreas ocupadas.
Demolições durante o cessar-fogo
As forças israelenses mantiveram os ataques enquanto os Estados Unidos anunciavam o começo das zonas-piloto.
Na madrugada de domingo, tropas de ocupação realizaram grandes demolições em Kfar Tibnit, Deir Sirian e Hadatha. Também foram registradas explosões em Baraxit e Kfar Tibnit, além de ataques aéreos entre Mansuri e Majdal Zun.
Um avião não tripulado israelense lançou ainda uma bomba sonora em Mansuri.
As tropas invasoras saquearam e destruíram três escolas, duas em Khiam e uma em Bint Jbeil. Segundo a ministra da Educação libanesa, Rima Karami, os soldados roubaram os objetos encontrados nos edifícios antes de instalar explosivos.
“O exército israelense saqueou o conteúdo dessas instituições e depois as cercou com explosivos, transformando-as em montes de cinzas”, declarou Karami.
Entre 2 de março e 20 de julho, os israelenses assassinaram 4.328 libaneses e feriram 12.230, segundo o Ministério da Saúde Pública. Mais de um milhão de pessoas foram expulsas de suas casas.




