Europa

O exército de escravos que Zelensqui tenta vender à OTAN

Enquanto oferece soldados ucranianos para as guerras do imperialismo, o governo mantém mobilizados sob espancamentos, cárcere e ameaça de morte

Volodimir Zelensqui foi à cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) oferecer os soldados ucranianos ao imperialismo. Ao mesmo tempo, dentro dos quartéis, esses homens são mantidos sob tortura, encarceramento e ameaça de execução.

A reunião da OTAN ocorreu nos dias 7 e 8 de julho, em Ancara, na Turquia. Zelensqui não foi convidado para participar das sessões entre os chefes de governo, mas compareceu ao jantar oficial e posou para a fotografia do encontro.

Coube ao ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sibiga, apresentar a oferta. Segundo ele, as Forças Armadas ucranianas podem aumentar a capacidade militar da OTAN. O governo colocou à disposição da organização imperialista uma tropa formada, em grande parte, por homens capturados nas ruas e enviados à força para unidades de assalto.

A proposta de Zelensqui consiste em transformar a população ucraniana em mão de obra militar da OTAN. Os governos imperialistas fornecem armas, acumulam lucros para suas empresas e utilizam os ucranianos como soldados em sua guerra contra a Rússia.

Dinheiro para a indústria de guerra

O governo ucraniano esperava que a cúpula aprovasse mais 70 bilhões de euros para sustentar a guerra. Segundo o deputado Aleksander Dubinski, preso desde novembro de 2023 sob acusação de traição, o montante adicional deve ficar entre 10 bilhões e 12 bilhões de euros.

O dinheiro tampouco será entregue diretamente à Ucrânia. A quantia servirá para comprar armamentos produzidos nos países da União Europeia e do Grupo dos Sete. Parte das entregas só deve ocorrer no próximo ano.

Polônia e Itália já declararam que não possuem condições de prolongar os atuais compromissos militares até 2027. Bulgária, República Tcheca, Eslováquia e Hungria também indicaram que chegaram ao limite do auxílio que podem oferecer. O governo dos Países Baixos afirmou o mesmo em relação aos sistemas antiaéreos Patriot.

O analista ucraniano Mikhail Tchapliga denunciou ainda que a Alemanha deixou de reembolsar integralmente países que entregaram armas à Ucrânia. O governo alemão também teria enviado equipamentos antigos por valores elevados, favorecendo sua indústria militar sem garantir uma defesa eficaz ao exército ucraniano.

Antes da cúpula, Zelensqui ordenou novos ataques contra refinarias, usinas e veículos de transporte de combustível dentro da Rússia. A intenção era provar ao presidente norte-americano Donald Trump que o governo ucraniano ainda possui utilidade para a política de agressão do imperialismo.

Trump reuniu-se com Zelensqui e prometeu autorizar a fabricação de mísseis Patriot na Ucrânia. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, admitiu que os Estados Unidos auxiliam os ataques realizados em profundidade contra o território russo.

Um exército sem voluntários

A oferta apresentada à OTAN esconde a situação real das tropas ucranianas. Já não existem voluntários em número suficiente para sustentar a guerra. Os homens são detidos por recrutadores, levados para centros militares e impedidos de sair.

Um capitão das Forças Armadas, identificado como Viktor K., declarou à publicação ucraniana Strana que cerca de 90% dos novos mobilizados não possuem condições de combate. Muitos sofrem de doenças graves, alcoolismo ou dependência química. Mesmo assim, as unidades médicas tratam como simulador todo homem que apresenta alguma queixa.

Metade dos recrutados foge antes de completar duas semanas de treinamento. Segundo um funcionário do Ministério da Defesa citado pela publicação, a situação se repete nas unidades empregadas em operações de assalto.

Os centros de mobilização são cercados por guardas armados. Algumas instalações possuem áreas minadas para impedir fugas. Homens capturados são conduzidos sob a mira de fuzis, amarrados e enviados a celas de punição.

O ex-presidente do Parlamento Dmytro Razumkov afirmou que os soldados mobilizados recebem tratamento pior do que os prisioneiros de guerra.

A deputada Anna Skorokhod denunciou que os abusos ocorrem em várias formações militares. Ela citou os regimentos 225º, 59º e 57º, a 10ª Brigada de Forças Especiais e as brigadas 153ª, 82ª, 210ª, 95ª, 92ª, 47ª e 80ª.

“Todos fingem estar chocados, como se fosse a primeira vez que ouvem falar disso. Como se o nosso único problema fosse o Skala”, declarou a parlamentar.

Mortos antes de chegar ao combate

O caso mais conhecido envolve o 425º Regimento de Assalto, chamado Skala. A unidade, ligada ao comandante das Forças Armadas, Oleksandr Sirsqui, possui aproximadamente 13 mil integrantes e é utilizada em ataques que resultam em grandes perdas ucranianas.

Uma investigação da publicação ucraniana Babel identificou 26 mortes no regimento durante seis meses. Nenhuma ocorreu em combate. Depois da divulgação inicial, surgiram informações sobre pelo menos outros sete mortos.

Todos faleceram durante o primeiro mês após a mobilização. Familiares encontraram sinais de espancamento nos corpos.

A investigação reuniu depoimentos de parentes, desertores e militares que permanecem na unidade. Eles relataram agressões, confinamento, algemas e uso de fita adesiva para imobilizar os recrutas. Soldados que tentam escapar são perseguidos a tiros.

Um dos denunciantes foi Aleksander Semenov. Ele contou ter sido espancado, amarrado à traseira de um veículo e arrastado pelo chão.

Os médicos registraram ferimentos na cabeça, hematomas, dedos quebrados e marcas de algemas nos pulsos. Semenov afirmou também ter presenciado nove suicídios entre os mobilizados.

A entrevista foi gravada em 23 de janeiro de 2026. Ele se dispôs a formalizar a denúncia diante das autoridades. Poucos dias depois, morreu no hospital.

Um médico que trabalhou na unidade relatou que nove soldados se mataram em quatro dias. Um deles se enforcou com um colete à prova de balas. Outro entrou em uma caixa ligada ao banheiro e morreu sufocado. Dois atiraram contra a própria cabeça durante exercícios militares.

Presos no ‘galinheiro’

Os mobilizados do Skala passam por uma instalação conhecida como “galinheiro”. Entre mil e dois mil homens são mantidos ao mesmo tempo no prédio, cuja localização é ocultada sob alegação de segredo militar.

O soldado Oleksandr Jiquin relatou que os recrutas foram retirados dos veículos, despidos e submetidos a revistas. Os guardas são chamados de vertukhai, termo utilizado para designar carcereiros.

Os homens são escoltados sob a mira de armas até mesmo para comer ou usar o banheiro. Depois de tentar fugir, Jiquin e outro soldado foram enrolados em fita adesiva, lançados sobre o concreto e deixados durante uma semana sem acesso ao banheiro.

“Durante uma semana, basicamente urinamos onde estávamos. Eles traziam comida, mas eu quase não comia nem bebia, porque sabia que não poderia ir ao banheiro”, afirmou.

Após outra tentativa de fuga, os dois permaneceram algemados um ao outro, inclusive enquanto dormiam.

Nas celas de punição, dependentes químicos em crise de abstinência ficam presos junto aos demais soldados. Quando alguém protesta, os guardas lançam gás irritante dentro do recinto.

Recrutadores também capturaram 160 dependentes químicos que buscavam metadona em um centro de atendimento de Kropivnitsqui, na região central do país. Eles foram levados para uma unidade militar e classificados como soldados descartáveis.

Em março de 2025, um veículo da emissora britânica Sky News foi atacado a tiros dentro das instalações do Skala. O automóvel era blindado e ninguém ficou ferido. Segundo o jornalista Azad Safarov, a emissora decidiu não divulgar o caso para não prejudicar a imagem do governo ucraniano.

A militar Lesia Ganza afirmou que “o espírito da escravidão” domina as Forças Armadas. O ex-soldado Ievgueni Bekrenev descreveu as tropas de assalto como uma organização formada por proprietários, guardas e escravos.

Enquanto essas denúncias eram publicadas dentro da Ucrânia, o britânico Financial Times elogiava Zelensqui por representar a “democracia liberal” e “lembrar o Ocidente de si mesmo”.

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