A eleição de Jalil al-Haia para a presidência do birô político do Hamas representa a vitória da ala mais revolucionária do movimento palestino. O dirigente, ligado à organização de Gaza e próximo de Iahia Sinuar, derrotou no segundo turno o ex-presidente do partido Jaled Mechaal.
O resultado foi anunciado na segunda-feira (20), após uma votação da qual participaram representantes de Gaza, da Cisjordânia, das prisões sionistas e das organizações palestinas no exterior. Segundo informações divulgadas pela rede catarense Al Jazeera, al-Haia venceu por apenas um voto em um colégio eleitoral de 70 integrantes.
A pequena diferença mostra que existem posições distintas no interior do Hamas. Elas não representam uma divisão diante da luta contra “Israel”, mas concepções diferentes acerca das alianças internacionais e da política a ser seguida pela Resistência Palestina.
No programa Análise da 3ª, da Rádio Causa Operária, Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), explicou que a disputa colocou frente a frente duas alas tradicionais do Hamas.
“Essa eleição é importante. Veja que houve um segundo turno. Foi necessário um segundo turno para eleger o representante. Há duas alas dentro do Hamas, e acho que isso precisa ficar claro. Há a ala de Gaza e há a outra ala, representada justamente por Jaled Mechaal. Essa segunda ala é mais moderada. Ela não é contra a resistência armada, mas é mais moderada principalmente no que diz respeito ao tipo de aliança que pretende fazer.”
A diferença encontra-se sobretudo na política internacional. A corrente ligada a Mechaal deposita maior confiança nos governos do Catar e da Turquia, países que mantêm relações estreitas com o imperialismo e com o regime sionista, embora também procurem exercer influência sobre as organizações palestinas.
A ala de Gaza, por sua vez, mantém uma ligação mais orgânica com o Eixo da Resistência, especialmente com o Irã, o Hesbolá e as forças que combatem diretamente o imperialismo no Oriente Próximo. Essa corrente está associada à preparação da Operação Dilúvio de Al-Aqsa e à condução da guerra contra a ocupação sionista.
Segundo Pimenta, a vitória dessa ala corresponde ao papel desempenhado pela organização de Gaza desde o início da guerra.
“Acho positivo que a ala vitoriosa seja a ala de Gaza e acho natural, porque quem está segurando o peso da luta é o pessoal de Gaza. Portanto, considero uma coisa bastante positiva. Não há um racha. Essas divergências são antigas. Em geral, o que temos visto é que o partido se mantém unificado e o pessoal se submete à disciplina partidária.”
Desde outubro de 2023, a direção de Gaza perdeu alguns de seus principais dirigentes. Ismail Hanié foi assassinado em Teerã, em julho de 2024. Iahia Sinuar, eleito para substituí-lo, foi assassinado em combate contra tropas sionistas em Rafá, três meses depois. Mohammed Deif e outros comandantes das Brigadas Izz al-Din al-Qassam também foram assassinados.
Apesar dos golpes sofridos, o Hamas preservou sua organização e realizou uma eleição interna em meio à guerra, ao bloqueio e à perseguição sistemática de seus dirigentes. O processo revela a solidez de um partido que continua funcionando mesmo com sua principal base territorial sitiada e parcialmente ocupada.
A eleição apertada também demonstra que a unidade do Hamas não depende da inexistência de divergências. O partido discute suas diferenças internamente, realiza suas votações e submete seus integrantes à decisão da maioria.
O rótulo de ‘linha dura’
A imprensa burguesa apresentou al-Haia como representante da chamada “linha dura” do Hamas. A expressão procura atribuir uma conotação negativa à ala que defende a continuidade da resistência armada e da aproximação com o Eixo da Resistência.
Al-Haia é considerado um dos dirigentes mais próximos de Sinuar e pertence à geração formada politicamente dentro da Faixa de Gaza. Participou do Hamas desde sua fundação, em 1987, foi preso e torturado pelas forças sionistas durante a Primeira Intifada e ocupou diversos postos na direção do movimento.
Sua família também foi alvo de sucessivos ataques. Irmãos, filhos, netos e outros parentes foram assassinados por “Israel”. Em setembro de 2025, o regime sionista bombardeou o edifício em Doha onde funcionava parte da direção do Hamas. O ataque matou militantes do partido e um dos filhos de al-Haia.
Pimenta rejeitou o uso do termo “radical” para definir a corrente vitoriosa.
“Acho que devemos dizer que é a ala mais revolucionária. Eles usam ‘radical’ para dar uma conotação negativa. É a ala mais revolucionária, evidentemente, e é a ala que propõe a continuidade da política atual.”
A classificação de al-Haia como um dirigente revolucionário não exclui sua participação em negociações. Durante os últimos anos, ele chefiou delegações do Hamas em conversações por cessar-fogo, retirada das tropas sionistas e libertação de prisioneiros palestinos.
O dirigente também participou de contatos indiretos com representantes dos Estados Unidos, entre eles Jared Kushner, genro de Donald Trump, e Steve Witkoff, enviado do governo norte-americano para o Oriente Médio.
Essa atividade diplomática indica que a ala revolucionária do Hamas não recusa negociações. Ela utiliza as conversações como parte da luta política, sem aceitar que os acordos sejam condicionados ao desarmamento da Resistência ou à submissão do povo palestino.
A definição decisiva encontra-se na relação entre as negociações e a luta armada. Para a ala ligada a al-Haia, a capacidade de negociar deriva da resistência mantida pelas organizações palestinas no terreno. Sem a luta armada, os palestinos permaneceriam inteiramente submetidos às condições impostas por “Israel” e pelo imperialismo.
Continuidade da política de Sinuar
A escolha de al-Haia aponta para a continuidade da política seguida por Iahia Sinuar. O novo presidente pertence ao setor do Hamas que considera a derrota do regime sionista inseparável da mobilização armada do povo palestino e da aliança com as forças que enfrentam o imperialismo na região.
Essa política também recusa a transformação do Hamas em uma organização dependente das monarquias árabes ou dos governos que procuram conciliar com “Israel”. Embora mantenha relações com o Catar, a Turquia e outros países, a nova direção não coloca essas alianças acima da ligação com o Eixo da Resistência.
A eleição de um dirigente de Gaza possui ainda um significado político importante. A população do território suportou os bombardeios, a fome, o bloqueio e a ocupação sem abandonar a resistência. A organização que dirige essa luta conquistou novamente a presidência do partido.
A vitória de al-Haia confirma, portanto, a predominância da corrente formada na guerra de Gaza. Sua eleição mantém o Hamas sob a direção da ala que organizou a Operação Dilúvio de Al-Aqsa, preservou a luta armada durante a ofensiva sionista e defende a continuidade da política de Iahia Sinuar.




