América do Sul

Imperialismo dá golpe e elege filha de ditador no Peru

Keiko Fujimori venceu por apenas 49.641 votos; dentro do Peru, a candidata do fujimorismo foi derrotada por Roberto Sánchez

O imperialismo conseguiu impor no Peru a eleição de Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori, por meio da direita local e das instituições eleitorais do regime. O Jurado Nacional de Eleições (JNE) proclamou, na sexta-feira (3), a candidata da Fuerza Popular como presidenta eleita do país, depois de uma apuração decidida por uma margem mínima e revertida pelo voto no exterior.

Com 100% das 92.766 atas apuradas, Fujimori recebeu 9.223.396 votos, equivalentes a 50,135% dos votos válidos. Roberto Sánchez, candidato da Juntos por el Perú e herdeiro político de Pedro Castillo, ficou com 9.173.755 votos, ou 49,865%. A diferença final foi de apenas 49.641 votos.

O dado decisivo é que Keiko Fujimori perdeu dentro do território peruano. Entre os votos registrados no próprio país, Sánchez terminou à frente por 32.014 votos. A virada ocorreu com o voto no exterior, justamente o setor mais diretamente submetido ao controle do aparelho diplomático e consular do Estado peruano, subordinado ao imperialismo.

A eleição do dia 7 de junho teve 19.683.383 eleitores votantes. Foram registrados 118.396 votos em branco e 1.167.863 votos nulos, o maior número de votos nulos em duas décadas. É a terceira eleição consecutiva decidida por menos de 50 mil votos em um país com mais de 33 milhões de habitantes.

Proclamação sem Keiko

A proclamação de Fujimori ocorreu em sessão solene do JNE, ao meio-dia, na sede do órgão em Jesús María, Lima, presidida por Roberto Burneo. A candidata eleita não compareceu à cerimônia. Permaneceu na sede da Fuerza Popular, em San Isidro, representada por seus procuradores legais, e depois falou à imprensa.

A entrega das credenciais está marcada para 15 de julho, no Gran Teatro Nacional de Lima. A posse ocorrerá em 28 de julho de 2026, data do aniversário da independência peruana. O mandato terá duração de cinco anos, até 2031.

A chapa da direita é formada por Keiko Fujimori, Luis Fernando Galarreta, primeiro vice-presidente, e Miguel Ángel Torres Morales, segundo vice-presidente. Fujimori chegou à Presidência depois de quatro tentativas. Ela havia perdido os segundos turnos de 2011, 2016 e 2021, este último para Pedro Castillo.

Campanha reivindicou Fujimori

A campanha de Keiko Fujimori reivindicou abertamente o legado de seu pai. Seu programa apresentou como eixo a promessa de derrotar o crime organizado com base nas medidas repressivas dos anos 1990, período marcado pelo fechamento do Congresso, pela perseguição política e pelo fortalecimento do aparelho repressivo do Estado.

Trata-se de uma operação política do imperialismo para devolver ao poder o setor mais reacionário da burguesia peruana, formado em torno do fujimorismo. Desde a derrubada de Pedro Castillo, em 2022, o Peru vive sob controle direto das instituições golpistas, que reprimiram as mobilizações populares e mantiveram o país sob uma sucessão de governos sem base real entre os trabalhadores e camponeses.

Sánchez denuncia manobra

Roberto Sánchez denunciou, durante a apuração, a existência de uma “fraude em andamento”. O candidato pediu a anulação dos votos registrados em 119 repartições consulares no exterior e afirmou que não reconheceria um eventual governo de Keiko Fujimori caso o JNE validasse a votação contestada.

Em entrevista coletiva realizada em 23 de junho, após protocolar o pedido de anulação, Sánchez afirmou:

“Se o Jurado Nacional de Eleições não resolver em atenção à segurança jurídica e à norma eleitoral, essa fraude terá se consumado. O que nós dizemos? Nessas condições de transgressão das normas, nós não reconheceremos o governo da senhora Keiko Fujimori.”

O candidato também convocou seus apoiadores a se mobilizarem contra o resultado. Disse que faria a luta “democrática” e “no marco da lei”, mas apelou à resistência popular:

“Faremos a luta democrática dentro da lei. Apelaremos à luta de resistência patriótica e popular.”

Sánchez afirmou ainda que houve uma manipulação na votação em benefício da Fuerza Popular:

“Acreditamos que houve uma manipulação na votação em benefício do partido Fuerza Popular, de Keiko Fujimori.”

O centro de sua denúncia foi a mudança na transmissão das atas do exterior. Segundo Sánchez, a supressão da obrigatoriedade de digitalizar as atas abriu caminho para manipulações nos votos consulares. Para o candidato, a própria alteração da regra constitui a prova do problema:

“A prova evidente e factual não precisa de outras demonstrações: ela quebrou a natureza de um processo eleitoral.”

Depois da derrota, Sánchez reconheceu o resultado oficial, mas manteve a denúncia contra a legitimidade da eleição. “De maneira irregular, nos venceram”, afirmou.

JNE rejeita recurso

O JNE rejeitou o pedido de anulação apresentado pela Juntos por el Perú. O órgão alegou que a solicitação foi protocolada fora do prazo e sem o pagamento das taxas exigidas, de 1.375 soles, cerca de US$402,00, por mesa impugnada.

Sánchez também recorreu à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), pedindo medidas cautelares contra a proclamação de Fujimori. O recurso não impediu o JNE de seguir com o processo.

Após revisão de ofício das atas descentralizadas, o JNE declarou que não foram encontradas inconsistências e julgou “infundado” o recurso da Juntos por el Perú. A Chancelaria peruana também rejeitou a denúncia de interferência, manipulação ou favorecimento político por parte dos funcionários consulares. O governo afirmou que as atas do exterior foram lacradas e que a suspensão do aplicativo de digitalização não rompeu a cadeia de custódia.

Imperialismo controla o regime

A eleição presidencial ocorreu junto a uma reorganização institucional mais ampla. O Peru restabeleceu o sistema bicameral depois de 32 anos, revertendo a dissolução do Congresso produzida pelo autogolpe de Alberto Fujimori em 1992.

O novo Senado terá poderes para revisar, modificar ou rejeitar projetos aprovados pela Câmara de Deputados. Também terá atribuições como eleger membros do Tribunal Constitucional, designar o Controlador Geral, escolher o Defensor do Povo e autorizar o presidente a sair do país.

A Fuerza Popular será a principal bancada do novo Parlamento, embora sem maioria própria. O quadro aponta para um governo dependente de acordos com outros setores da direita, também submetidos à política do imperialismo para o Peru.

Com a proclamação, começa a transição entre o governo de José Balcázar e a nova gestão de Keiko Fujimori. A entrega de credenciais será em 15 de julho e a posse está marcada para 28 de julho.

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