Editorial

Crise nas monarquias do Golfo

O Ansar Alá tomou a costa oeste e Babelmândebe, rota de cerca de 9 milhões de barris de petróleo por dia, em menos de 48 horas

As forças armadas do Iêmen tomaram a cidade portuária de Mokha na quinta-feira, 10 de setembro, e no dia seguinte já controlavam a costa oeste do país e o estreito de Babelmândebe, com a ilha de Maiun. O exército montado, armado e financiado pela Arábia Saudita abandonou seus equipamentos, entregou suas posições e se rendeu aos milhares.

Segundo o porta-voz das forças armadas iemenitas, Iahia Saré, a operação expulsou as tropas inimigas de seis distritos, num total de 5.400 quilômetros quadrados. Fontes do governo de Ádem confirmaram à Reuters a retirada da ilha de Perim e admitiram não saber o destino de mais de dois mil homens cercados no arquipélago de Hanish.

O armamento estava do lado que perdeu. Os soldados pagos por Riade foram postos a combater o próprio povo em nome de uma monarquia estrangeira e recuaram assim que puderam recuar. Diante deles estavam tropas mal equipadas que defendem o território onde vivem, depois de 10 anos de bombardeio e bloqueio.

Até quinta-feira, o Iêmen alcançava o tráfego marítimo com mísseis e drones disparados da costa. Agora tem as bases, os radares e as ilhas do estreito. Por Babelmândebe passam cerca de 12% do comércio marítimo mundial e nove milhões de barris de petróleo por dia, parte deles saudita. O petróleo que sai pelo Estreito de Ormuz esbarra no Irã. O que desce pelo Mar Vermelho esbarra no Iêmen.

A monarquia saudita pediu ajuda aos Estados Unidos, ao Paquistão e à Turquia. Os três se negaram a entrar no conflito. O Paquistão apenas advertiu que os ataques iemenitas poderiam acionar o Acordo de Defesa de Meca, firmado com Riade e Ancara. A monarquia mais armada da península árabe pediu socorro a três governos e não obteve nenhum.

Essa guerra não corre separada de Gaza nem do Irã. Foi depois de outubro de 2023 que o Iêmen começou a atacar no Mar Vermelho os navios ligados a “Israel”, e é sob a guerra imperialista contra o Irã que as forças sauditas desmoronaram. As monarquias do Golfo sustentam o cerco norte-americano na região e não têm o que oferecer aos próprios povos em troca.

A imprensa brasileira tratou o Iêmen durante anos como um transtorno ao comércio marítimo e chamou os iemenitas de rebeldes do Irã. Em dois dias, esses rebeldes tomaram 5.400 quilômetros quadrados. A Arábia Saudita respondeu com dezenas de ataques aéreos sobre Taiz, Hodeida, al-Jawf e Marib, segundo a agência Saba, e não retomou nenhum dos distritos perdidos.

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