Os milhares de documentos do escândalo Banco Master que agora chegam ao conhecimento da população brasileira são resultado de uma guerra interna no Supremo, na qual André Mendonça teve papel decisivo.
Em 24 de agosto, Mendonça determinou que a Polícia Federal identificasse os interlocutores de Daniel Vorcaro nas mensagens relacionadas ao vazamento de informações sobre a investigação do banco. Em 1º de setembro, retirou o sigilo do relatório da PF, expondo referências a Alexandre de Moraes, Andrei Rodrigues, Paulo Gonet e às relações do banqueiro com o escritório da família de Moraes.
No mesmo dia, a PGR pediu a nulidade do relatório, alegando que qualquer aprofundamento envolvendo Moraes dependeria de autorização do plenário. Paulo Gonet buscava, assim, invalidar o documento que havia colocado o escândalo diante do País.
Moraes reagiu por meio do Inquérito das “Fake News”. Relatórios de inteligência da PF sobre Mendonça chegaram à presidência do STF, contendo acusações e inferências sobre sua atuação política e institucional. Mendonça respondeu remetendo ao plenário o material que atingia Moraes.
A disputa alcançou então a direção da Polícia Federal. Mendonça afastou preventivamente Andrei Rodrigues e Leandro Almada. Em outro processo, Flávio Dino determinou a reintegração dos dois. Um ministro afastava; outro anulava, na prática, sua decisão.
Foi nesse momento que Fachin precisou intervir. Suspendeu as decisões conflitantes, manteve provisoriamente os dirigentes da PF nos cargos, centralizou na presidência do STF procedimentos envolvendo ministros, convocou sessão extraordinária e retirou de Moraes o controle do Inquérito 4.781.
Até então, Fachin procurava administrar a crise sem enfrentar seu núcleo. A escalada promovida por Mendonça tornou essa posição insustentável.
Na quinta-feira, dia 10, Fachin determinou que Mendonça remetesse à presidência e aos demais ministros os procedimentos ligados à Petição 15.556 e à Operação Compliance Zero, com levantamento do sigilo, exceto sobre diligências ainda sensíveis. Mendonça abriu inicialmente 15 procedimentos.
No dia seguinte, a própria PGR pediu que a publicidade fosse ampliada. Dez dias depois de tentar anular o relatório que atingia Moraes, a Procuradoria passou a exigir acesso mais amplo ao material. Fachin acolheu o pedido e deu 24 horas para a abertura. Mendonça então retirou o sigilo de dezenas de outros procedimentos.
O resultado foi a divulgação de cerca de 4 mil arquivos. A importância da atuação de Mendonça está justamente aí. Pressionado pelo grupo de Moraes, ele sustentou o confronto. Ao levar o relatório ao plenário, reagir aos documentos produzidos pela inteligência policial e enfrentar a direção da PF, tornou politicamente mais difícil manter o caso sob controle.
A tentativa de enquadrá-lo produziu o efeito contrário. Para acusá-lo de seletividade, seus adversários tiveram de defender uma abertura maior dos documentos. Para impedir que conduzisse sozinho os procedimentos, empurraram Fachin para o centro da crise. A guerra interna que deveria conter o escândalo terminou abrindo milhares de páginas ao público.





