Por Robert Inlakesh — Al Mayadeen
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou oficialmente a retirada das tropas norte-americanas do Iraque. O domínio econômico, social e diplomático de Washington, porém, permanece. Para que os soldados dos EUA sejam expulsos de maneira definitiva, é necessária uma Resistência nacional iraquiana capaz de impedir seu retorno.
Em 21 de outubro de 2011, o então presidente Barack Obama anunciou a retirada das forças de ocupação que ainda permaneciam no país. Apenas dois anos e meio depois, os EUA voltaram a enviar militares ao Iraque, desta vez sob o pretexto de combater a insurgência do Daesh.
Depois de uma operação de mudança de regime, seguida por uma ocupação brutal e por um projeto de reconstrução política imposto pelos invasores, o Iraque ficou sem condições de se defender da ofensiva do Estado Islâmico e, menos ainda, de impedir a volta das tropas norte-americanas. Inicialmente, o governo Obama afirmou que os novos contingentes serviriam para proteger funcionários diplomáticos e assessorar as forças armadas iraquianas.
A presença militar, porém, foi ampliada. A Operação Inherent Resolve estendeu-se à Síria, dando aos Estados Unidos rotas de abastecimento e uma plataforma para ocupar, na prática, o nordeste sírio. Segundo Inlakesh, a operação também serviu ao antigo objetivo norte-americano de mudança de regime em Damasco, privando a Síria do acesso a recursos petrolíferos e a importantes terras agrícolas.
Em 2020, Donald Trump concordou em retirar suas forças do território iraquiano e reiterou a promessa durante reunião com o então primeiro-ministro Mustafa al-Kadhimi. No ano seguinte, Joe Biden declarou oficialmente encerrada a missão de combate dos EUA. A retirada prometida, entretanto, só foi concretizada em 2026, depois de numerosos ataques da Resistência Islâmica no Iraque contra instalações militares norte-americanas.
Quando Estados Unidos e Arábia Saudita acusaram recentemente forças iraquianas de atacar o oleoduto Leste-Oeste saudita e lançaram uma ampla campanha de bombardeios contra o país, algumas autoridades de Bagdá também se voltaram contra as organizações armadas iraquianas, apesar de estas terem negado categoricamente qualquer participação na ação.
Ao mesmo tempo, o governo Trump pressiona pelo desarmamento de todas as organizações militares iraquianas. Trata-se, segundo o autor, da mesma política que Washington procura impor às organizações da Resistência em toda a região. Os Estados Unidos rejeitam uma integração negociada de forças como o Hesbolá às Forças Armadas Libanesas e tampouco dão espaço para acordos semelhantes no Iraque.
O objetivo seria dissolver essas organizações e, em seguida, ampliar o controle sobre os exércitos do Líbano e do Iraque, privando ambos os países de armamentos estratégicos capazes de impor um custo militar às violações de sua soberania.
No caso iraquiano, a dependência não se limita ao terreno militar. O governo de Bagdá foi moldado durante a ocupação norte-americana, e Washington ainda conserva instrumentos econômicos capazes de pressionar qualquer direção política do país. Soma-se a isso a grande influência exercida por meio de organizações não governamentais financiadas do exterior.
O Iraque também foi impedido de reconstruir plenamente suas forças armadas depois da derrubada de Saddam Hussein, em 2003. Uma década mais tarde, essa debilidade ficou exposta diante do avanço do Estado Islâmico.
Foi nessas condições que surgiu o Hashd al-Shaabi, as Forças de Mobilização Popular. O Hashd teve papel central na derrota da ofensiva terrorista e na expulsão de seus combatentes das cidades iraquianas. Diversas organizações que lutaram sob sua bandeira acumularam experiência, armamentos e capacidade própria de combate.
A importância dessas forças voltou a aparecer durante a Guerra do Ramadã deste ano. Segundo Inlakesh, o Mossad de “Israel” conseguiu estabelecer bases dentro do Iraque, enquanto numerosos grupos armados continuam operando pelo país, entre eles organizações apoiadas pela CIA e pelo próprio Mossad.
Se a Resistência Islâmica for dissolvida e desarmada, afirma o autor, o Iraque voltará à mesma situação de fragilidade que permitiu ao Estado Islâmico atravessar rapidamente o país, tomar vastas extensões de território e deixar um rastro de sangue.
A ameaça não se restringiria ao Iraque. Também atingiria países vizinhos, especialmente o Irã, além de agravar a situação já instável da Síria.
Um Iraque sem a Resistência Islâmica seria, segundo Inlakesh, semelhante a um Líbano sem o Hesbolá: ficaria à mercê dos Estados Unidos e de seus aliados de “Israel”. Washington e Telavive, sustenta o autor, procuram destruir a capacidade soberana dos países da região e investiram trilhões de dólares e enormes recursos na destruição das forças armadas do Iraque e da Síria durante quase 30 anos.
Não há motivo para acreditar que permitirão passivamente que Iraque e Síria reconstruam exércitos capazes de defender seus próprios interesses e agir de acordo com a vontade de suas populações.
Os Estados Unidos ainda mantêm sistemas de defesa aérea em território iraquiano, utilizam o espaço aéreo do país e demonstraram, poucos meses atrás, que continuam capazes de lançar ataques aéreos em larga escala.
Impedir o retorno das forças de ocupação, novamente sob o pretexto de combater alguma ameaça futura escolhida por Washington, exige a existência de uma força iraquiana capaz de defender o país em terra e, se necessário, empregar armamentos de longo alcance.
Sem uma força militar efetiva, não há soberania real. E um país incapaz de contrariar os Estados Unidos acaba transformado em instrumento de sua política e sofre as consequências dessa dependência.
A retirada norte-americana não ocorreu sem uma longa história de resistência armada e sem uma população amplamente contrária à interferência dos EUA.
Preservar a conquista representada pela expulsão da maior parte das tropas norte-americanas exige capacidade militar de dissuasão. Sem ela, Estados Unidos e “Israel” poderão voltar a utilizar o território iraquiano para seus próprios objetivos sempre que encontrarem um pretexto conveniente.
* As opiniões expressas neste artigo são exclusivamente do autor e não representam necessariamente a posição editorial do Diário Causa Operária.





