“Israel”

Netaniahu não consegue obter maioria no parlamento israelense

Bloco do primeiro-ministro conquistou 53 das 120 cadeiras e permaneceu como o maior do parlamento; partidos árabes ficaram com 19 assentos

A apuração das eleições em “Israel”, encerrada na madrugada desta sexta-feira (30), confirmou que o bloco do primeiro-ministro Benjamin Netaniahu ficou com 53 das 120 cadeiras do parlamento, oito abaixo da maioria necessária para governar. A oposição conquistou 48 assentos e os partidos de direção árabe, 19. Nenhum dos dois blocos sionistas conseguiu uma maioria própria, mas Netaniahu continuou à frente do maior agrupamento parlamentar.

O resultado abriu as negociações para a formação do próximo governo. Os adversários do primeiro-ministro terão de decidir se buscarão o apoio das organizações árabes ou se abandonarão a promessa de afastá-lo para integrar um governo de unidade. Até a definição de um sucessor ou de uma nova coalizão, Netaniahu permanecerá no cargo interinamente.

Os números ainda precisam ser certificados e entregues ao presidente Isaac Herzog, na quarta-feira (4). Ele indicará um parlamentar para tentar reunir pelo menos 61 deputados. A escolha poderá recair sobre Netaniahu ou sobre outro dirigente que consiga os apoios necessários. O novo parlamento deverá tomar posse em 10 de novembro.

Herzog afirmou que fará tudo ao seu alcance para evitar outra eleição. Se as tentativas de formar um governo fracassarem, uma nova votação poderá ocorrer no início de 2027. O dirigente oposicionista Yair Lapid pediu “paciência” em publicação na rede X e indicou que as negociações já começaram.

O maior bloco parlamentar

A falta de maioria não significa que Netaniahu esteja afastado do governo. Seu bloco conservou mais cadeiras que a oposição e poderá disputar os apoios necessários para continuar no poder. Mesmo uma aliança entre seus adversários dependerá de acordos entre partidos que fizeram campanhas distintas.

O dado mais expressivo, porém, é a manutenção de 53 cadeiras nas mãos do bloco governista depois do genocídio contra o povo palestino. A sustentação parlamentar de Netaniahu demonstra que a política de extermínio encontra apoio do conjunto do regime sionista e do imperialismo.

O genocídio não foi uma iniciativa isolada do Likud. A oposição reuniu representantes do mesmo regime responsável pela ocupação, entre eles o ex-chefe militar Gadi Eisenkot. Sua participação no gabinete de guerra formado depois de 7 de outubro de 2023 expôs o compromisso de setores que hoje se dizem adversários de Netaniahu com a ofensiva contra os palestinos.

Segundo a agência Associated Press (AP), centenas de israelenses se manifestaram para pedir que Eisenkot e outros dirigentes oposicionistas se aliassem aos partidos árabes. A proposta procurou resolver o impasse parlamentar por meio de uma maioria alternativa, sem romper com as instituições do Estado sionista.

Netaniahu expressa uma crise que ultrapassa seu partido. Diante da resistência palestina e da impossibilidade de estabilizar a ocupação, os principais partidos sionistas sustentaram a violência militar como resposta. As disputas sobre o primeiro-ministro envolveram a condução dessa política e seus custos para “Israel”.

A falta de maioria também pode refletir pressões do imperialismo sobre como prosseguir a guerra e preservar o apoio ao Estado sionista. A imagem de Netaniahu tornou-se um obstáculo para governos que financiaram e armaram “Israel”, mas enfrentaram manifestações contra o genocídio. Sua substituição permitiria apresentar uma mudança de governo como resposta à indignação internacional, sem modificar a política de apoio completo aos crimes do sionismo.

Essas divergências permaneceram secundárias diante do acordo geral em torno da manutenção da ocupação. A votação não afastou do parlamento as forças responsáveis pelo massacre nem produziu uma maioria comprometida com a libertação da Palestina.

Acusações contra os partidos árabes

As 19 cadeiras dos partidos de direção árabe deram a essas organizações um peso decisivo nas negociações. Para alcançar 61 deputados, a oposição precisaria de pelo menos 13 votos dessas bancadas.

Antes da divulgação do resultado final, Netaniahu e o Likud acusaram os partidos árabes de terem “roubado” a eleição, supostamente com a possível com ajuda do Catar. É claro que não apresentaram provas. O governo catariano rejeitou as alegações, classificando-as como “ridículas e perigosas”.

O presidente do comitê eleitoral, Noam Sohlberg, pediu ao serviço de segurança interna, o Shin Bet, que investigasse suspeitas de interferência estrangeira, embora essa interferência seja a regra em “Israel”, porque é um Estado artificial criado pelos EUA e o Reino Unido e que até hoje não passa de um preposto do imperialismo no Oriente Médio. Reconheceu, entretanto, que não podia verificá-las. O comitê declarou que as acusações de violações sistemáticas da integridade eleitoral eram infundadas.

A oposição acusou Netaniahu de difamar a população árabe originária, que corresponde a cerca de 20% dos habitantes de “Israel”. O Shin Bet afirmou que a investigação não deveria lançar suspeitas sobre os eleitores que participaram legalmente da votação.

A participação árabe recorde pode ter expressado, de maneira distorcida, o cansaço com a crise e a comoção diante do genocídio. Os partidos que receberam esses votos, contudo, procuraram transformar o descontentamento em participação nas negociações do regime.

Ao disputar acordos com os partidos sionistas, essas direções cumpriram um papel colaboracionista, semelhante ao do Fatah. Sua participação eleitoral ofereceu legitimidade às instituições da ocupação e alimentou a ilusão de que a libertação palestina poderia resultar de uma composição parlamentar.

A oposição efetiva ao Estado sionista continuou com a resistência armada palestina, perseguida por esse mesmo regime e excluída de sua legalidade. A disputa pelas 61 cadeiras definirá quem encabeçará a opressão nacional contra os palestinos; a luta contra a ocupação continuará nas mãos do povo palestino e de suas organizações de resistência.

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