Editorial

Um desserviço à esquerda e aos trabalhadores

Medo, voto útil, acusações pessoais e compra de voto substituíram a disputa de ideias na campanha do PT

Lula e dirigentes do PT já disseram diversas vezes sentir saudades do período em que o PSDB era o principal adversário do partido. O argumento é conhecido: naquele tempo haveria uma direita “civilizada”, diferente do bolsonarismo, apresentado como grosseiro, selvagem e incompatível com as regras normais da política.

Essa reconstrução do passado não corresponde ao papel desempenhado pelo PSDB. O partido de Fernando Henrique Cardoso promoveu privatizações, reprimiu greves e movimentos populares e, depois da derrota de Aécio Neves em 2014, liderou a ofensiva que desembocou na derrubada de Dilma Rousseff. A alegada civilidade nunca impediu os tucanos de utilizar os instrumentos mais sujos do regime político contra seus adversários quando isso lhes era conveniente, como acusações de corrupção ou vitimismos, como o de José Serra quando quando foi assassinado por uma bolinha de papel.

A campanha de 2026 acrescentou outra contradição ao discurso petista. Quando entrou na eleição, o PT trabalhava com a possibilidade de uma vitória relativamente tranquila. Na reta final, diante de uma disputa apertada com Flávio Bolsonaro, adotou uma campanha cada vez mais baseada no medo. O eleitor é advertido de que uma volta dos Bolsonaro ao governo seria o fim do mundo; quem não aceita o voto útil é acusado por setores governistas de favorecer a extrema direita; a eleição é apresentada como uma escolha moral entre o “bem” e o “mal”.

O episódio de Nossa Senhora Aparecida tornou esse método particularmente visível. Circulou nas redes a afirmação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar da santa o título de padroeira do Brasil. A informação era falsa e os responsáveis por sua disseminação eram os ativistas da esquerda. Mesmo após o vexame do desmentido, inclusive setores que se dizem comunistas e revolucionários seguem alimentando a mentira para dizer que Lula defende Nossa Senhora como padroeira do Brasil. Um rebaixamento político colossal.

Durante anos, dirigentes petistas e boa parte da esquerda defenderam remoção de publicações, punições e aumento dos poderes do Judiciário sob a justificativa de combater as chamadas fake news. Quando uma mentira passou a prejudicar o candidato bolsonarista, porém, setores dessa mesma esquerda ajudaram a colocá-la em circulação. O problema não está em defender Flávio Bolsonaro, mas em mostrar a inconsistência de uma política que entrega a tribunais e autoridades o poder de decidir quais opiniões e publicações podem existir, além de reproduzir os mesmos métodos da direita sob a desculpa de combater a direita.

A propaganda eleitoral final de Lula desceu ainda mais o nível. O programa levou à televisão acusações sobre supostas orgias envolvendo Flávio Bolsonaro, além de referências às rachadinhas, a milicianos, a Daniel Vorcaro e ao caso de Nossa Senhora Aparecida. Um vídeo sugestivo foi exibido enquanto a campanha explorava as acusações de caráter sexual.

Isso não tem nada a ver com uma campanha política de esquerda. A direita tradicional sempre pôde recorrer ao escândalo pessoal, ao moralismo e ao medo porque seu objetivo não é politizar os trabalhadores para organizá-los contra a exploração. Um partido de esquerda tem outra necessidade: explicar os interesses de classe em disputa, apresentar um programa claro e utilizar a eleição para elevar o nível de consciência política da população.

É por isso que uma campanha baseada na ameaça de que “o mundo acaba” caso o adversário vença produz um efeito particularmente nocivo. Em vez de explicar por que determinada política prejudica o trabalhador, manda-se o eleitor ter medo. Em vez de demonstrar por que um programa é melhor para os explorados, fala-se de orgias. Em vez de disputar politicamente o eleitor da direita, declara-se que ele está perdido, manipulado ou próximo do fascismo (enquanto se tenta manipular o eleitor pela esquerda).

Ao mesmo tempo, o governo partiu para a compra de voto descarada nas semanas finais da eleição. Depois de o valor do Bolsa Família permanecer sem atualização pela inflação desde a retomada do atual modelo, em 2023, o governo anunciou em setembro reajuste de 15,04%, elevando o piso de R$ 600 para R$ 691.

Vieram ainda o novo Desenrola e a proibição das bets. No primeiro caso, a renegociação de dívidas não enfrenta os juros cobrados pelos bancos; no segundo, a proibição é antidemocrática e incapaz de acabar com as apostas, que tendem a migrar para um mercado clandestino. O fato político é que medidas capazes de produzir forte repercussão popular foram empilhadas justamente quando faltavam poucos dias para a votação e quando Lula estava prestes a ser ultrapassado pelo rival nas pesquisas de intenção de voto.

Uma campanha de esquerda deveria fazer o oposto. Deveria explicar por que os salários são baixos, por que o trabalhador se endivida, quem lucra com os juros, por que serviços públicos são insuficientes e quais interesses econômicos comandam o Estado, por exemplo. Deveria transformar a eleição numa grande disputa de ideias e numa oportunidade de organização política.

O PT escolheu outra direção. Sua progressiva integração ao regime político fez com que assimilasse métodos que a própria esquerda historicamente denunciou: chantagem pelo mal menor, moralismo, escândalo pessoal, manipulação do medo e compra de voto.

O partido entrou numa trajetória ladeira abaixo. E isso não se resume às eleições. Há muito o PT abandonou uma política voltada à organização independente dos trabalhadores e passou a se adaptar cada vez mais às instituições e aos métodos da política burguesa. Essa campanha eleitoral é o reflexo do que o PT se tornou: decadente como é regime político ao qual ele aderiu. Essa política é sintoma de uma forte decadência moral, política e ideológica. Nesse ritmo, em breve o PT vai chegar ao fundo do poço.

Uma vitória obtida dessa maneira não significaria que milhões de trabalhadores foram convencidos por um programa de esquerda. Significaria apenas que o medo do adversário, a pressão pelo voto útil, os escândalos pessoais e a compra de votos funcionaram eleitoralmente.

Para um partido que nasceu do movimento operário, esse método representa um grave rebaixamento político e um desserviço à esquerda e aos trabalhadores.

Isso é despolitização total do povo, é fazer o povo de trouxa, alimentar a ignorância. Uma vitória nessas condições não tem valor nenhum.

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