O centro da crise política brasileira neste momento não é o filme do Bolsonaro. Não são as emendas do deputado Mário Frias. Não é a briga de gabinete entre dois ministros. O centro da crise é que o magistrado que se converteu em governo nacional de fato — que fechou redes sociais, mandou prender, censurar, que definiu quem podia e quem não podia falar no País — aparece documentado em relatório da Polícia Federal como interlocutor pessoal de um banqueiro processado por fraude bilionária, enquanto o escritório de sua mulher recebia contratos milionários desse mesmo banqueiro.
Os números são públicos. O escritório Barci de Moraes assinou com o Banco Master, em janeiro de 2024, contrato de 36 parcelas de R$3 milhões líquidos — R$108 milhões líquidos, R$131,3 milhões brutos. Em maio de 2025, veio um segundo contrato, de R$50 milhões, com a Viking Participações. São mais de 180 milhões de reais. O relatório da PF dedica 181 páginas a um contato que Daniel Vorcaro guardou na agenda do celular como “Alexandre de Moraes BRASILIA”, com o número repassado em dezembro de 2023. O contrato de janeiro foi firmado 12 dias depois de um almoço na propriedade do banqueiro em Campos do Jordão.
Não estamos aqui diante de uma suspeita vaga, do tipo que a Polícia Federal usa para arrombar a porta de qualquer um. São contratos assinados, mensagens arquivadas, datas que se encaixam.
O que torna esta crise irremediável não é o escândalo em si. É que a esquerda brasileira passou quatro anos afirmando que este homem era a encarnação viva da democracia.
Quando este Diário afirmou repetidamente que Alexandre de Moraes havia sido indicado por Michel Temer, que fora ministro da Justiça do golpe de 2016, que sua trajetória não continha um único ato que autorizasse alguém a esperar dele espírito democrático, os petistas riam. O homem teria mudado. Situações excepcionais exigiriam medidas excepcionais — foi assim que a própria grande imprensa justificou o arbítrio, e ao dizê-lo reconheceu o que negava: medidas excepcionais são o nome que se dá à ditadura quando não se quer decretar estado de sítio.
Pois bem. Agora o PT está entre o fogo e a frigideira, e não há saída boa. Se não disser nada, a campanha de Lula continua fritando — e já está fritando, com Flávio Bolsonaro empatado no primeiro turno na maior parte das pesquisas, o que significa vitória folgada no segundo. Se disser o que teria de dizer, isto é, que Moraes tem de sair do Supremo, derruba com as próprias mãos toda a política dos últimos quatro anos, na qual o partido apostou sua existência. Lula lavou as mãos, o que é a pior das opções, porque diante de um silêncio dessa natureza o eleitor tira a conclusão óbvia: ele está com Moraes.
Bolsonaro já formulou a palavra de ordem, e ela é eficaz justamente porque o PT a tornou verdadeira: Moraes é Lula, Lula é Moraes. Não há como explicar ao povo que a culpa é de Temer, que indicou o ministro em 2017. Ninguém vai levar a sério, e não deve levar.
André Mendonça foi indicado por Bolsonaro e conduz o caso com objetivos políticos evidentes, em plena campanha. Moraes reagiu apresentando contra o colega um relatório de inteligência sem assinatura, que traz na própria capa a advertência de que se trata de conjecturas sem valor probatório. O procurador-geral, ele próprio citado nas mensagens do banqueiro, sustenta agora que a investigação inteira seria nula. Isto não é um conflito entre a democracia e o golpe. É um acerto de contas entre facções de uma instituição apodrecida, cada uma com o dossiê da outra na gaveta, e o País assiste porque a instituição acumulou poder demais para que a briga interna dela não se torne uma crise nacional.
Do mesmo modo, a manobra de Flávio Dino — pinçar duas emendas parlamentares de Mário Frias, destinadas a uma ONG, para deflagrar 39 operações de busca e apreensão em torno de um filme — é do mesmo material de que foi feita a operação contra o PCO. É arbítrio, e nós o denunciamos quando recai sobre a direita pela mesma razão que o denunciamos quando recai sobre a esquerda: porque o arbítrio, uma vez instalado, não pergunta a filiação de ninguém.
A saída de Moraes é o mínimo. Mas não resolve nada.
O problema é que não pode existir um tribunal como o STF. Num regime capitalista, que é um regime de negócio e de compra de influência, entregar a um punhado de pessoas vitalícias o poder de reescrever a Constituição, decidir eleições, cassar candidaturas e mandar prender só podia terminar onde terminou. Não há nada de excepcional na biografia de Moraes. Os ministros do Supremo não são jesuítas, não são idealistas, não estão ali por uma causa: são políticos burgueses, e políticos burgueses com poder ilimitado fazem com esse poder exatamente o que se está vendo.
A reforma que o PT agora apresenta, apavorado, não toca em nada disso: mandato de 10 anos, maior que o de senador; idade mínima de 50 anos, para garantir a velharada conservadora; e a aposentadoria mantida como “punição” para juízes que roubam.
Quem construiu esta autoridade vai ter de responder por ela. Com a mesma força com que a coisa foi, ela volta.





