Em Só Lula pode vencer o crime organizado, publicado no Brasil 247 em 12 de setembro, Jorge Folena afirma que a eleição presidencial será decidida em torno da “soberania nacional” e do “combate ao crime organizado”. Sua conclusão é que Lula seria o único capaz de conduzir essa luta e que sua reeleição impediria a “barbárie”.
Para chegar a essa conclusão, Folena transforma o escândalo do Banco Master numa história sobre Bolsonaro e o crime organizado. A crise é apresentada como consequência do governo anterior, enquanto Lula surge como o homem capaz de limpar o País.
Isso fica claro no tratamento dispensado a Alexandre de Moraes. Embora o ministro esteja no centro de revelações relacionadas a Vorcaro, Folena não discute sua situação. Moraes aparece no artigo exercendo sua autoridade contra pessoas ligadas ao governo de Cláudio Castro. André Mendonça, por outro lado, é acusado de impor sigilo “a qualquer custo” para proteger pessoas de seu círculo político.
Desaparece assim uma das questões centrais do escândalo: o que as revelações sobre o Banco Master mostram sobre Moraes e sobre o próprio STF?
Folena escreve que “o único que não tem nada a ver com as falcatruas do Banco Master é o presidente Lula”. Ninguém precisa acusar Lula de participar dos negócios de Vorcaro para reconhecer sua relação com o escândalo. Lula foi um dos principais responsáveis pela sustentação da política autoritária de Alexandre de Moraes.
Moraes foi transformado em símbolo da “defesa da democracia”. Lula concedeu ao ministro a Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco e seu governo se apoiou politicamente no STF durante todo esse período. Agora que Moraes está no centro de uma crise, Folena quer apresentar o presidente como alguém completamente exterior ao problema.
O passo seguinte é transformar Lula no chefe de uma cruzada contra o crime. Folena afirma que “foi sob a liderança do presidente Lula, neste seu terceiro mandato, que a Polícia Federal iniciou um sério enfrentamento ao crime organizado”. Em seguida, elogia sua “coragem impressionante” por encaminhar uma emenda constitucional que amplia a atuação da PF contra o crime organizado e as milícias.
Temos então uma política clássica da direita sendo apresentada como grande realização de um governo de esquerda.
O próprio Folena reconhece que a política de “segurança pública” dos governos estaduais se volta contra “a população preta e pobre das periferias das grandes cidades”. Cita inclusive a matança de mais de 120 pessoas no Rio de Janeiro. Sua resposta, porém, é fortalecer outro braço policial do Estado.
O problema não é saber se a repressão será comandada pela PM estadual ou pela Polícia Federal. A política continua baseada na ampliação dos poderes policiais, das investigações e das operações de repressão.
A direita sempre respondeu aos problemas sociais dessa maneira. Diante da criminalidade, pede mais polícia. Diante das drogas, mais polícia. Diante da corrupção, mais polícia. Cada crise serve de justificativa para aumentar os poderes do aparato repressivo.
Folena adapta essa política à propaganda eleitoral. Segundo ele, o crime organizado teria se associado “ao fascismo, ao imperialismo e ao latifúndio para tentar derrotá-lo eleitoralmente”. Tudo é colocado dentro da mesma categoria e, assim, fortalecer a polícia ganha aparência de política progressista. Tratar tudo como “crime organizado” permite apresentar as próprias instituições como instrumentos de solução.
Folena critica ainda “a mídia empresarial” por tentar sustentar que “toda a política brasileira estaria contaminada pela corrupção”. Mas sua resposta consiste em separar os contaminados de um presidente apresentado como completamente limpo do problema.
A operação política do artigo aparece no final. Folena afirma que “o processo eleitoral que atravessamos é crucial” e que, fora da reeleição de Lula, “só existe a certeza da barbárie”.
O escândalo do Banco Master termina, assim, convertido em propaganda eleitoral. Em vez de discutir o poder do STF, as relações dos banqueiros com as instituições e a atuação da Polícia Federal, Folena chega à seguinte solução: mais poderes para a PF e mais quatro anos para Lula.
Para que eleger a esquerda se ela pretende disputar com a direita quem combate melhor o crime?
Uma política dos trabalhadores deveria partir da abertura completa das informações do caso Master e da investigação de todos os envolvidos, sem proteção ao STF ou a qualquer outra instituição. O poder acumulado pelo Judiciário precisa ser reduzido, não reforçado. Os ministros do Supremo não deveriam ocupar cargos vitalícios nem exercer poderes políticos sem terem recebido um único voto.
Também não há motivo para fortalecer a máquina policial. É preciso acabar com a política de guerra às drogas, legalizar todas as drogas, dissolver o aparato repressivo e garantir aos trabalhadores o direito de organização e autodefesa.





