Em artigo publicado pela Folha de S.Paulo em 12 de setembro, intitulado A ascensão violenta da mentira, Muniz Sodré parte das recentes conversas entre Lula e Donald Trump para discutir a mentira na política. O presidente brasileiro teria corrigido afirmações falsas de Trump sobre desmatamento e trabalho escravo no País. A partir daí, Sodré transforma o problema numa discussão sobre a mentira como fenômeno moral e sobre sua utilização pelo Estado.
O artigo chega a reconhecer algo elementar: “políticos mentem individualmente, como recurso retórico”. Mas, em seguida, abandona justamente essa constatação para desenvolver uma longa reflexão sobre a mentira como violação ética. Citando Jacques Derrida, afirma que o mentiroso pretende “impingir como verdadeiro aquilo que ele sabe ser falso” e vê nisso “um grau real de violência na quebra moral da responsabilidade que se deva ter para com o outro”.
É uma maneira infantil de tratar a política.
Numa disputa entre chefes de Estados, a questão fundamental não é descobrir qual dos dois é mais sincero. Um chefe de Estado dirige uma máquina política que defende determinados interesses econômicos e sociais. Diplomacia, guerras, campanhas eleitorais, operações policiais e disputas comerciais estão repletas de propaganda, ocultação, chantagem e falsificação. Não porque tenham sido ocupadas excepcionalmente por pessoas de mau caráter, mas porque esses recursos fazem parte da luta política entre classes e Estados.
O próprio exemplo apresentado por Sodré demonstra isso melhor do que sua tese. Ele recorda “a mentira de Bush sobre armas nucleares no Iraque, pretexto para uma guerra que arruinou aquele país”.
Se foi um pretexto para a guerra, então a questão decisiva não era a falta de honestidade de George W. Bush. O governo norte-americano queria atacar o Iraque e precisava justificar politicamente a agressão. A mentira serviu a essa política. Bush não invadiu o Iraque porque era mentiroso; mentiu porque seu governo precisava preparar e legitimar uma guerra imperialista.
Sodré também menciona os ataques norte-americanos a embarcações no Caribe, a apropriação de riquezas venezuelanas, as tarifas e outras formas de pressão dos Estados Unidos. Novamente, o autor possui os fatos diante dos olhos. Mas, em vez de organizar esses fatos como partes de uma política do imperialismo para submeter outros países, prefere reuni-los sob uma categoria moral: a mentira.
Ele escreve que “a mentira respalda uma nova forma de colonização administrativa”. A formulação coloca as coisas de cabeça para baixo. Não é a mentira que produz a política colonial. É a política de dominação que lança mão da mentira, da propaganda, da pressão econômica, das sanções, das ameaças e, quando necessário, da força militar.
Ao trocar a relação política pela avaliação moral, chega-se facilmente à oposição entre o governante mentiroso e o governante responsável, entre os bárbaros e os civilizados, entre os autoritários e os democratas. É uma apresentação muito conveniente para uma esquerda que desistiu de apresentar um programa próprio.
A consequência é que não se pergunta o que o governo brasileiro deveria fazer diante das pressões do imperialismo norte-americano. Não se discute quais interesses estrangeiros atuam no País, quais medidas econômicas submetem o Brasil ao capital internacional, o que deveria ser nacionalizado, quais acordos deveriam ser rompidos nem como organizar os trabalhadores contra as ameaças externas.
Também desaparece a pergunta mais incômoda: qual é o programa da própria esquerda?
Uma esquerda que não quer romper com a burguesia, que não pretende mobilizar os trabalhadores contra o grande capital e que adapta sua política às instituições do regime precisa encontrar outro terreno para demonstrar sua superioridade sobre a direita. Encontra-o na moral.
O trabalhador precisa saber o que será feito com seu salário, seu emprego, sua aposentadoria e os serviços públicos. Diante do imperialismo, precisa saber se o governo defenderá efetivamente a soberania nacional. Precisa saber se haverá mobilização contra as pressões norte-americanas ou apenas notas diplomáticas e declarações indignadas.




